Dragão Verde, Tigre Branco

in Blofeld, J. Taoísmo: A busca da Imortalidade. São Paulo: Cultrix, 1988.

"Dragão verde, tigre branco!" A essa frase poética associam-se curiosos significados. Como yin yang, ela denota vários pares de opostos - especialmente macho e fêmea -,sendo tarefa do mago, alquimista, iogue ou místico taoísta, fundi-los numa unidade indivisível. Muitas vezes essas quatro palavras tocam um segredo raramente desvelado aos não- iniciados. Seus significados mágicos não nos ocuparão aqui, embora a magia taoísta não deixe de ser um assunto fascinante - tanto pelo mistério que a envolve como pelo fato de ela às vezes funcionar! Passar-se-á tudo no nível psicológico, ou será de fato possível aos magos manipular forças secretas e utilizá-Ias em seu proveito, segundo se diz de Mao Tsé-tung e Chu En-Iai? Ignoro-o. Ah, mas como o mundo moderno seria menos insípido se, ao invés de um recurso retórico, o dragão verde, tigre branco realmente tivesse possibilitado o êxito daqueles cavalheiros! Pois, tivesse sido assim, haveria esperança de retorno ao colorido, ao romance e ao mistério sufocados pela estafante uniformidade que eles erigiram.
O Tsan tung ki
Seria estranho compulsar um único volume cujo conteúdo se abrisse a tantas interpretações que se diria pertinente, ao mesmo tempo, ao antropomorfismo dos deuses do Olimpo, à doutrina cristã da vida eterna no céu e no inferno, ao conceito budista da abolição do eu para o mergulho no nirvana, como as gotas de chuva retomando ao mar!
Para os taoístas, entretanto, não é surpresa ouvir falar de um livro assim, pois possuem um capaz de ensejar interpretações ainda mais numerosas! O Tsan tung ki, obra aparentemente dedicada ao estudo dos processos alquímicos para a transformação de metais vis em ouro, foi por alguns tomado ao pé da letra; outros encararam-no como receituário para a preparação da pílula áurea, capaz de assegurar eterna juventude, imensa longevidade e até imortalidade da carne e do sangue; para outros, o livro ministrava instruções para se criar, mediante recursos sexuais ou não-sexuais, um corpo espiritual apto a viver eternamente; já os místicos encaravam-no como a chave para a apoteose que nos transforma em puro espírito, pronto para o mergulho no luminoso e indiferençado oceano de Tao. Há uma quinta interpretação: tratar-se-ia de um manual de artes bélicas e políticas! Que catálogo de objetivos, desde o menos taoísta ao mais sublime! Que um único texto seja capaz de propiciar tão desvairados resultados prende-se a dois peculiares conceitos taoístas a respeito da natureza da existência: 1.°) indivisibilidade, e portanto identidade do espírito e da matéria; 2.°) ação idêntica das leis da natureza em todos os níveis e todas as formas possíveis do ser.
Quanto à história dessa obra extraordinária, sabe-se que foi composta pouco depois do início de nossa era por um recluso conhecido como o Imortal Hsu; entretanto, pode ser muito mais antiga, devido ao título dado à sua ver- são: O antigo clássico do tigre e do dragão. Por que antigo, se o próprio Hsu era seu autor? Um século depois, o grande Wei Po-yang revisou o livro e acrescentou-lhe um importante comentário; desde então, ficou conhecido como oTsan tung ki - título virtualmente intraduzível, às vezes vertido como A união dos três. Em sua forma revista, sobreviveu sem alterações posteriores, à exceção de comentários. A reverência que lhe prestam pode ser avaliada pela classificação de obra "anterior ao céu", o que significa que pertence a um estado de coisas anterior ao nascimento do universo, ou que emana da sapiência divina inerente ao Tao.
A doutrina proposta no Tsan funda-se na premissa de que, no âmago do corpo humano, como no interior do macrocosmo "céu e terra", existem três tesouros: king (essência), ki (vitalidade) e shen (espírito). Pela depuração e sutilização desses elementos, e sua interação posterior, um misterioso "algo"- elemental pode ser às vezes criado. Se esse processo alquímico for desencadeado dentro do corpo, esse "algo" será um corpo-espírito embrionário, ou, segundo algumas interpretações, puro espírito. Caso idêntico processo seja aplicado a substâncias físicas, uma forma altamente purificada de matéria (isto é, ouro) é obtida. A compreensão exata do Tsan depende de como foi interpretado por um mestre conspícuo, que suprirá as lacunas com a tradição. Como vimos, não pode haver interpretações conflitantes (exceto da parte dos pouco instruídos), e sim apropriadas aos diferentes níveis e modos do ser. Há inúmeras referências à mistura de yin yang, não raro com conotações sexuais que apontam para a mistura das essências masculina e feminina dentro do corpo do iogue; entretanto, essas referências são mais comumente interpretadas como pertinentes ao ioga interno, para o qual não se exigem parceiros sexuais.
Está sempre presente a idéia de retorno a algo chamado "o original". Vejamos uma passagem:
"Os santos sábios à moda de antanho se apegam ao Tao em sua forma imaculada, nutrindo os corpos com o elixir nove vezes depurado, pura substância obtida de um líquido efervescente. Conservando sua essência e alimentando seus corpos, ganham a virtude maravilhosa que caracteriza o céu, a terra e o homem em sua condição primária; e, seguindo o princípio de excretar a essência de forma a que flua pelos poros, forçam a carne e o sangue a se transformarem em substância sagrada. Abandonando métodos errôneos, corrigem a vitalidade e fazem-na duradoura, passando assim à imortalidade".
Em seu livro notável, Chu Shao-hsien assinala que o Tsan e manuais ióguicos similares parecem advogar a "produção simultânea de pílulas interiores e exteriores", o que significa que o auto-aprimoramento deve ser levado a cabo como um processo interno (ióguico e místico) e externo (alquímico no sentido literal), concomitantemente. Assim, por exemplo, o iogue taoísta pode ingerir drogas compostas alquimicamente como meio subsidiário para a purificação e transmutação de seu ser, reconhecendo embora sua mínima importância em comparação com o cultivo espiritual. Há passagens nos manuais onde é difícil perceber algum significado espiritual; no caso do Tsan,podemos nos indagar por que sábios do coturno de um Hsu ou de um mestre Wei Po-yang se lembraram de incluí-Ias. Uma possibilidade é que elas envolvem analogias não-reconhecidas como tais pelos leigos; entretanto, é mais provável que resultem da convicção taoísta de que idênticas leis naturais operam em todos os níveis, desde a partícula infinitesimal ao macrocosmo em si, donde se segue que as mesmas técnicas são aplicáveis a qualquer atividade concebível. Alguém deseja atingir o alvo espiritual mais elevado possível? Muito bem. Outro aspira a objetivos meramente humanos ou acredita que a trans- mutação de metais é relevante para a transmutação espiritual? Por que não? Um taoísta não seria taoísta se pretendesse lavrar leis implacáveis para reger a conduta humana; cada qual deve estar livre para "agir à sua maneira"; se preferir usar seu conhecimento secreto para finalidades banais, é problema que só a ele compete. Entretanto, é dever do sábio tratar os maravilhosos poderes da natureza como um todo. Como um iluminado se permitiria fazer distinções e ao mesmo tempo ensinar que a plena realização envolve a reconciliação dos opostos? O ouro, embora cobiçado pelos avaros, não está menos imbuído de tê, a virtude do Tao, que outra coisa qualquer. Segundo um conhecido poema taoísta, há três mil e seiscentos portões de acesso ao Caminho; quão pueril é afirmar que este ou aquele não é o Portal Misterioso do Absoluto!
O princípio geral do processo alquímico, seja aplicado ao desenvolvimento espiritual ou à transmutação de metais vis em ouro, pode ser assim expresso:
Essência, vitalidade e espírito interagem continuamente. A seqüência de sua interação na natureza conduz do vazio à forma, do universal ao particular, do sutil ao grosseiro. sábio é aquele que sabe inverter a seqüência e retroceder do grosseiro ao sutil, obtendo assim a perfeição original para a substância ou não-substância trabalhada.
Há um paralelo exato entre a transmutação das forças grosseiras do corpo e da mente em puro espírito e a de metais ordinários em elemento puro, o ouro.
A complexidade da terminologia utilizada nesses manuais e as dificuldades postas ao tradutor podem ser percebidas nesta simples sentença, pinçada ao acaso do Livro do elixir: "Com o céu por caldeirão e a terra por fornalha, apanhe o remédio da lebre negra e cozinhe-o". É preciso saber que "céu" significa o coração, "terra" o corpo, "negra" o princípio yang e "lebre" o princípio yin; e, com essa informação, compreender exatamente como tal conhecimento deve ser aplicado - donde a importância da explicação verbal, só disponível para iniciados.
Antes de descrever a alquimia interna, meio eficaz de alcançar a perfeição espiritual, falarei sobre duas versões da alquimia externa, a primeira das quais - o ioga sexual - se aproxima muito da forma interna.
Cultivo dual ou ioga sexual
"Da união das energias do dragão verde e tigre branco, no caldeirão do corpo, evola-se o luminoso vapor do puro espírito em nuvens irisadas."
Os ingredientes são o cinábrio (essência feminina) e o mercúrio (essência masculina). O corpo de cada parceiro deve ser usado como caldeirão. A fusão do cinábrio e do mercúrio reflete a união do céu e da terra, o nascimento de formas inumeráveis na matriz do Tao informe. A luxúria deve ser totalmente sufocada, para o adepto não se apartar do cultivo do Caminho. Ele ou ela deve selecionar um parceiro robusto, saudável, mas não tão atraente que desperte a chama da paixão - risco que torna esse ioga perigoso para o espírito. Segundo Chu Shao-hsien, semelhante prática, embora algo benéfica para as pessoas casadas, não se compara à contenção ou abstinência, já que o cultivo no interior do próprio corpo do adepto (alquimia interna) é recurso infinitamente superior para transformar king, ki shen em puro espírito. O mestre Ko Hung declara que o cultivo dual, praticado sem a plena compreensão da profundeza do Tao, leva casais equivocados a "exaurirem sua energia (king) e fatigarem seu espírito (shen) sem nenhum êxito após toda uma vida de empenho". Em outra passagem, esse grande mestre de ioga estabelece que, sendo a continência absoluta muito difícil para casais jovens, uma castidade rígida pode provocar doenças e resultará sem dúvida em distúrbios do espírito, abreviando em lugar de dilatar o termo da vida; assim, o cultivo dual é, às vezes, empregado como remédio ou promotor de longevidade. Entretanto, muitos adeptos desejam sinceramente misturar e elevar a essência (ao ni-wan, ou "cinábrio superior"), a fim de vitalizar o cérebro (ou sede de shen, espírito). Isso indica que o mestre favorecia o cultivo dual quando praticado com sinceridade; contudo, parece que ele teve dúvidas sobre isso, pois escreveu alhures que os adeptos do ioga são às vezes gente dada à libertinagem, em- pregando-o como escusa para o prazer dos sentidos, ou mesmo pretensos iogues ávidos por induzir mulheres ao adultério, a pretexto de cumprirem elevado propósito espiritual. Em obras posteriores, o mestre se mostra ainda mais cético, declarando que o cultivo dual pode ter algum valor terapêutico e ser um bom meio para evitar desperdício de sêmen (o adepto deve parar imediatamente antes da ejaculação), mas seria um erro considerá-lo método válido para o cultivo espiritual. Eu próprio encontrei essa opinião generalizada entre os taoístas; entretanto, a prática teve seus adeptos até o advento do vagalhão vermelho, pois sabe-se de casos de repressão pelos comunistas, que, digam o que disserem das "iniqüidades" de Confúcio, são tão puritanos quanto ele.
Esse ioga, desde que perigoso para adeptos incapazes de se livrarem dos laços dos sentidos, deve ser encetado em conjunção com o ato contemplativo da real natureza do processo alquímico. Ensina-se que o corpo, como o universo, provém do não-ser; que a essência cósmica original foi responsável por seu advento ao ser e, num processo inverso, a mistura das essências masculina e feminina pode ser usada para se criar um embrião-espírito, que dotará seu dono com o poder de voltar ao estado primitivo de não-ser pelo mergulho na fonte. Há, assim, uma correlação entre um processo biológico (malvisto pelos rígidos confucionistas, embora não com o desgosto estadeado pelos padres da Igreja) e o processo de obtenção de um elevado alvo espiritual. Para os taoístas, com sua percepção de identidade entre espírito e matéria, nada há de surpreendente nessa correlação. A noção de que a sexualidade é grosseira não lhes ocorre jamais; receiam apenas que, dando rédea solta às paixões, o espírito se veja comprometido. É essa a base das dúvidas que muitos deles alimentaram. Foi o rigor das autoridades confucionistas, mais que uma mudança de mentalidade entre os taoístas, que provocou, alguns séculos atrás, a diminuição da prática ióguica existente desde os tempos do Imperador Amarelo.
Dado que nunca fui instruído nesse ioga, longe de mim a pretensão de comentá-lo com autoridade. Pelo pouco que sei, ele se desenvolve nos seguintes termos:
O espírito-yang puro pertence ao céu, e não se acha presente neste mundo yin numa forma não-adulterada. Para se criá-lo dentro do corpo, é necessário, primeiro, apurar a essência rudimentar natural, a vitalidade, o espírito. O veículo da essência rudimentar é o fluido sexual (ou, como diriam alguns taoístas, a: essência rudimentar é o fluido sexual). Ela deve ser zelosamente preservada e transformada em king sutil, fazendo-se com que interaja com ki(vitalidade) e shen (espírito). A transmutação pode ser facilitada pelos meios que se seguem. O fluxo de kingrudimentar, despertado no ato da cópula, é sustado num momento crucial, ou seja, quando o parceiro está preste a chegar ao orgasmo. Mediante um recurso ióguico secreto, o king do parceiro, juntamente com o do adepto, é carreado para o campo de cinábrio mais baixo (sob o umbigo), onde ambos se misturam e - inflados pelo vento de ki(vitalidade, alento) - assumem uma forma sutil; após posteriores operações de king, ki shen, forma-se a substância ora descrita como embrião- espírito, ora como pílula áurea, a qual, subindo pelo canal psíquico médio, se aloja na cavidade ni-wan) próxima do alto da cabeça.
Na prática, esse processo está longe de ser simples, e requer grande habilidade ióguica. É preciso cumprir muitos outros requisitos subsidiários: posturas, ritmos de desempenho, horas determinadas do dia, mês e ano, dieta específica e banhos, tudo destinado a sofrear o fluxo de king do adepto, assegurar o pleno usufruto da essência do parceiro, facilitar o primeiro estágio de sua mistura e fazer com que ela flua para o "cadinho", isto é, o "campo de cinábrio mais baixo" - cinco centímetros abaixo do umbigo. A partir daí sobrevêm outros estágios, com a assistência da respiração ióguica e a arte da visualização. Os textos que ministram essas instruções são composições de data variada, e a autoria de alguns deles é creditada aos seres divinos que ensinaram o Imperador Amarelo a dominar as artes esotéricas de alcova. Desses mestres, com a Garota Franca (Su Nu) à frente, diz-se que o muniram com cerca de noventa receitas secretas. Lamentavelmente, muitos dos livros que exibiam títulos como O clássico do método secreto da Garota Franca ficaram virtualmente perdidos para a China durante séculos, devido ao puritanismo das autoridades confucionistas; podem, no entanto, ser encontrados em bibliotecas públicas e particulares do Japão.
Essa arte, às vezes conhecida como "o Tao secreto da interação yin-yang” foi descrita como "auxiliar na obtenção da imortalidade, para os homens; auxiliar no combate a cerca de cem doenças, para as mulheres", citação que sugere serem os benefícios para os homens muito superiores aos reservados às mulheres; mas, na verdade, não é assim. Numerosos textos reivindicam o poder de prolongar e promover a longevidade para adeptos dos dois sexos, embora fique claro que apenas o parceiro "receptor" se beneficiará, restando ao outro o papel de "doador", sem mais paga que a consciência de ter ajudado; porquanto, desde que o sucesso depende da absoluta continência em imobilizar-se antes do orgasmo, por meses ou anos a fio, o "doador" não pode esperar mesmo nenhum benefício. Há uma desagradável história sobre a deusa conhecida como Real Mãe Ocidental, que obteve a imortalidade por exaurir mil amantes jovens, levados à ruína em seu afã de sacrificar as energias em proveito dela. Penso, entretanto, tratar-se de uma anedota dirigida contra os libertinos, que fazem do cultivo dual um pretexto para a intemperança.
Composição do elixir externo
Desde a mais remota antiguidade, a busca de drogas capazes de perpetuar a louçania e o vigor juvenis foi intensa entre alguns taoístas. Os ingredientes, nos dias em que parecia crível a imortalidade da carne e do sangue, às vezes eram venenosos; entretanto, a despeito de tais enganos, os taoístas contribuíram bastante para a medicina chinesa tradicional, sistema com notáveis descobertas a seu crédito, conforme se depreende do fato de os comunistas terem-no preservado - e os comunistas, como se sabe, são pragmáticos demais para tomarem decisões cujos resultados não os satisfaçam. Esse sistema conserva ainda traços da doutrina das "cinco atividades", sendo as doenças diagnosticadas em termos de preponderância ou deficiência de uma ou mais "atividades" (ou "elementos"); quanto às drogas, classificam-se como ricas, entre outras coisas, de elementos yinou yang. A idéia é que a doença provém da ruptura do equilíbrio entre yin yang, ou distúrbio da harmônica interação das cinco atividades. O que quer que se pense desse método de diagnose, permanece o fato indiscutível de que uma elevada porcentagem de curas é obtida; ademais, para alguns distúrbios (como hipertensão, crises agudas de hemorróidas e certas moléstias gástricas), está demonstrado que sua eficiência é maior que a da medicina ocidental. Assim, embora a busca da longevidade ou da imortalidade da carne e do sangue possa parecer absurda, lembremo-nos de nossa idêntica ignorância naqueles séculos recuados, quando tal crença florescia, e atentemos para os progressos científicos alcançados pelos alquimistas taoístas, notáveis para a época, como o dr. Joseph Needham vem repetidamente sublinhando nos últimos anos.
Apesar de o ioga interno ser tido como a forma máxima da alquimia taoísta, não requerendo nenhum auxílio externo, a crença na utilidade de certos minerais e vegetais foi amplamente divulgada em determinada época, tendo existido alquimistas que passaram a vida tentando compor um elixir apto a rejuvenescer os idosos e a prolongar a juventude. Os velhos ermitões supunham que, se existem drogas capazes de estancar a doença, deve então haver outras ainda mais poderosas que adiarão a morte por séculos! Não foi escrito que o Imperador Amarelo, após apurar nove vezes um elixir, obteve a imortalidade? As antigas receitas taoístas falam em "pérola vermelha" ou "pérola-pílula", pois o ideograma tan significa tanto "vermelho" como "pílula", talvez um derivado do cinábrio. O Pen tsao, a obra médica chinesa mais antiga, declara: "As pessoas de há muito ingerem cinábrio para clarear suas faculdades, conservar o viço e agilizar o corpo". Ko Hung, versado como era, fala muito bem dessa substância: "Quanto mais apurares o cinábrio, mais maravilhosas transformações ele sofrerá; como o ouro, ele pode ser refinado quinhentas vezes sem alterar sua composição". Ambos ajudam na obtenção da imortalidade. As listas de ingredientes sugeridos para o elixir mágico geralmente incluem cinábrio, ouro, prata, variedades de um tipo de planta chamadokih (também nome do sésamo), jade e pérolas. O elixir, para funcionar, deve sofrer nove transformações, donde a recorrência da frase "nove vezes apurado". O problema era saber exatamente quais os ingredientes necessários, pois as listas variavam de mestre para mestre, de seita para seita, sendo que os nomes das drogas não raro eram alterados deliberadamente ou codificados para confundir os leigos. Ko Hung: "Este Tao (Caminho) reveste suma importância, mas só é transmitido a homens de saber e santidade; a menos que o mereça, a pessoa empilhará montanhas de jade e nem assim será rica o bastante para comprar o segredo". Remédios de ervas, por si sós, não serão suficientes: "Orientado no uso das ervas, obterás longevidade, mas terás que morrer um dia; só o elixir sagrado tornará teu corpo imortal, e ele durará tanto quanto céus e terras; subirás às nuvens, cavalgarás um dragão de alto a baixo do firmamento". Atribui-se ao Imperador Amarelo a assertiva: "Aquele que desejar compor a pílula sagrada deve ganhar a solidão das montanhas ou de locais aonde ninguém vai. Caso sejas forçado a elaborá-la num lugar habitado, certifica-te de que os muros sejam bem altos e indevassáveis. Que nem os moradores da casa ou os vizinhos vejam o que estás fazendo; só assim teus esforços serão recompensados".
Há outras condições importantes a observar:
"Os auxiliares não devem ser mais que dois ou três. Deves jejuar por sete dias e banhar-te em água perfumada por volta do meio-dia, quando o calor do sol é benéfico. O quinto dia da quinta lua é o mais favorável, depois o sétimo dia da sétima lua. Primeiro, compõe a substância chamada 'amarelo misterioso'; para tanto, coloca dez quilos de mercúrio e vinte de chumbo num caldeirão de ferro, em fogo forte, até que um vapor purpúreo ou amarelado comece a evolar-se; recolhe-o com uma colher de ferro, despeja-o num recipiente de bambu e ferve-o cem vezes com sulfeto de arsênico e cinábrio líquido".
Seguem-se outras instruções relativas a ingredientes e processos; depois, "mistura tudo num recipiente de ferro, deixa aquecer por nove dias e nove noites", etc. "O mais sagrado tipo de pílula é o chamado 'flor rubra' - o verdadeiro... Há nove tipos de pílulas, nenhuma sem cinábrio e os cinco minerais preciosos." Essas instruções são em parte práticas, em parte mágicas. Pode-se supor que os alquimistas fossem tomados de um fervor sagrado ao se sentirem na iminência de testemunhar um dos segredos da natureza, até então conhecidos apenas pelos deuses. Percebe-se nesses escritos uma fascinação por chamas e vapores coloridos, fenômenos a serem vistos nos locais secretos onde a natureza trabalha para criar formas a partir do nada! Sempre houve essa sensação de sacralidade e mistério. Eram dias em que a poesia ainda permeava a ciência!
Quem receitava tais substâncias para a obtenção da imortalidade sujeitava-se à chacota dos contemporâneos mais avisados. Como disse um autor: "Utilizar pílulas ao invés do próprio corpo requer cinco metais, oito minerais, cinábrio e mercúrio para a composição! O verdadeiro caminho é a união informe com vazio. A chamada 'pílula nove vezes apurada' significa, na realidade, união com o vazio. A base da pílula é a natureza do vazio real, mãe das grandes drogas medicinais!" (Claramente, isso quer dizer que a saúde e a longevidade vêm para aqueles que, em calma e silêncio, comungam com o Tao, não para aqueles que ingerem pílulas.) Foi dito também: "Estudantes do Caminho, que aspirais à imortalidade, podeis comer a pílula nove vezes apurada se quiserdes - e sofrer as conseqüências!" (Muitos alquimistas e seus infelizes clientes realmente morreram envenenados por chumbo ou arsênico!)
Ko Hung não se fartou de insistir em que a obtenção da imortalidade é impossível sem um bom mestre. Escreveu que todos os que efetivamente se tornaram imortais viviam tão afastados das moradas dos homens que era difícil arrancar-lhes o verdadeiro ensinamento, razão pela qual as legítimas receitas para "compor o elixir" tinham se perdido havia muito.
Os vários nomes de ervas e minerais encontrados nos textos não ajudam muito, devido às discrepâncias de interpretação. Em alguns escritos, as plantas kih já mencionadas são tidas como cogumelos. Segundo uma escola de pensamento, os cinco minerais mais valiosos são "areia vermelha" (cinábrio) , "amarelo-galo" (sulfeto de arsênico) , "nuvem- mãe" (mica) , "flor mineral" (quartzo) e "leite do amor" (diversos tipos de estalactites). Nos textos mais antigos, fala-se muito em pós compostos dos cinco minerais, mas jamais houve concordância a respeito de que minerais fossem esses. Um certo Ho Yen afirma: "Pós compostos dos cinco minerais, além de regular o corpo, aclaram as faculdades mentais". Acreditava-se que, após ingeri-los, a pessoa punha-se a caminhar, donde o nome "pós andantes". O esforço provocaria calor, mas seguido de uma sensação de refrigério, razão pela qual era costume despir-se e borrifar-se de água fria, ingerir alimentos frios e beber vinho fresco - daí outro nome para a revigorante substância, "pós de comida fria". Após ingeri-los, convinha tomar banho e evitar meias e sapatos, "para que a pele e a carne não se transformem em couro"!
Que tais drogas eram perigosas sabia-se bem, mas isso não dissuadia de forma alguma as pessoas cujos corações ansiavam pela longevidade. Contam-se vários imperadores entre as vítimas. Uma "droga miraculosa" lançou certo monarca em tal estado de melancolia que pouco faltou para que se matasse; outros Filhos do Céu morreram realmente devido a doses excessivas desses ingredientes perigosos. Afora a morte, outras duas contra-indicações eram reconhecidas. Os remédios eram considerados muito drásticos para pessoas de constituição delicada, e seu custo, tão elevado que só os ricos podiam obtê-los em quantidade suficiente. Durante a dinastia Tang, quando o taoísmo gozava de imenso favor na corte, houve várias mortes imperiais. Hsuan Tsang, o Imperador Luminoso que enviara um taoísta em busca da sombra da concubina Yang, foi uma das vítimas. Em um de seus sucessores, Wu Tsung (841-847), o elixir despertou de tal modo as paixões, que ele morreu durante um tremendo acesso de raiva. Tu Fu, o grande poeta Tang, escreveu um divertido poema tratando das mortes de várias pessoas que haviam tomado drogas mágicas para prolongar a vida, o qual termina assim: "E só eu, que não busco uma longa vida, chegarei provavelmente à velhice!"
A crença nessas poções, que durou até nosso século, pode ser detectada num parágrafo do principal jornal chinês, o Ta Kung Pao. Em 1939, a seguinte notícia veio a lume:
"Um cavalheiro de Wan Hsien, província de Sichuan, nascido no último ano do reino de Ch'ien Lung [1796], trabalhou durante os derradeiros anos do reinado seguinte como secretário das autoridades militares responsáveis pela região do Yang-tsé. Depois de aposentar-se, foi para o Tibete em busca de plantas medicinais, e ficou desaparecido por tanto tempo que o deram como morto. Entretanto, no outono de 1931, com a idade de cento e trinta e cinco anos, ele voltou a seu distrito natal, onde vários anciãos o reconheceram. Apesar dos cabelos brancos, não parecia ter mais de cinqüenta anos, e pouco mudara em relação ao jovem que eles haviam conhecido".
Esse trecho curioso levou os jornalistas ao local do acontecimento, e o mesmo periódico estampou uma fotografia do magistrado de Wan Hsien ao lado do espantoso velhinho. Poucos meses depois, este partiu numa segunda jornada ao Tibete e nunca mais foi visto. A história pode não parecer verossímil, embora eu próprio tenha encontrado pelo menos dois taoístas a quem os colegas atribuíam idades em redor dos cento e cinqüenta anos. Não me ocorre uma razão para descrer deles, tanto mais que me lembrava de ter visto um cavalheiro turco de quase cento e quarenta anos em visita a Cambridge. Mas não sei se aqueles idosos taoístas atribuíam ou não sua longevidade ao uso de drogas medicinais.
Registros históricos podem ser citados a favor e contra a ingestão de drogas. Por exemplo, enquanto Wang Hsing, iletrado oriundo de Yang-chou, tratando-se regularmente com uma panacéia particular, chegou a viver o bastante para ser conhecido de várias gerações de conterrâneos, o imperador Wu, da dinastia Han, viu-se reduzido a um estado de perpétua melancolia ao cabo de dois anos de ingestão da mesma droga, morrendo prematuramente de seus efeitos. Pelo que percebi, a tendência dos taoístas por mim consultados era de que a beberagem não era segura, já que prescrições confiáveis não chegaram até nós. Por outro lado, os médicos chineses sempre enfatizaram mais que seus colegas do Ocidente o fato de que, não havendo duas pessoas exatamente iguais, inexiste qualquer prescrição adequada a duas vítimas da mesma doença. Igual princípio se aplica à ingestão: o que beneficia um pode prejudicar outro e não ter nenhum efeito num terceiro. Diga-se o mesmo dos sistemas de ioga e meditação...e também de remédios modernos como a penicilina.
Ambos os métodos tratados neste capítulo estão além de meu escopo de conhecimento pessoal. Carente de instrução e experiência de primeira mão no campo do cultivo dual, não posso pronunciar-me sobre sua validade para o iogue moderno; devo apenas dizer que ele não deve ser empreendido sem a assistência de um mestre competente e que, no geral, a continência sexual é mais recomendável para as pessoas voltadas a elevados objetivos espirituais. Quanto à ingestão, muito do que se conta sobre isso vem de um passado remoto e apresenta antes conteúdo mágico que espiritual. Os relatos não deixam de ter certo encanto, e muitos estimulam bastante o pensamento, como sucede também com nossos mitos e lendas. O exemplo seguinte é típico.
Jovem Semente de Pinho
O Jovem Semente de Pinho habitava um pinheiral que coroava uma rocha íngreme demais para que alguém pudesse subir e prestar-lhe reverência; mas às vezes era visto de pé, negligentemente, à beira do abismo hiante, sorrindo para os peregrinos que se azafamavam lá embaixo. Tinham-no alguns por gênio de uma caverna ou fonte escondida; outros declaravam-no servo de um imortal que, imerso em meditação, jamais aparecia a quem quer que fosse, receando intrujices. Mas, com o passar dos anos (antigos peregrinos que haviam visitado o templo das montanhas agora voltavam para casar os filhos nascidos entrementes) , começaram a circular rumores de que o Jovem Semente de Pinho era, ele próprio, um imortal de idade provecta, pois sua aparência nunca mudara. Visto à distância, não parecia ter mais de catorze anos; ostentava farta cabeleira negra parcialmente oculta por um capuz, tinha uma pele branca e suave, faces róseas e um talhe desempenado coberto por roupas de grosso tecido azul. Sempre que aparecia, o povo enviava-lhe amigáveis cumprimentos, respondidos por um sorriso e um menear de cabeça; mas falar, não falava nunca.
O magistrado local, curioso a respeito do rapaz, enviou mais de uma vez emissários para interpelá-lo, nenhum dos quais topou com a via de acesso ao cume; no décimo nono dia da nona lua, ele próprio, ataviado em vestes formais, fez-se conduzir em liteira ao templo, como para cumprimentar a deusa por seu aniversário. Ordenando aos carregadores que parassem ao pé do monte para um descanso, desceu da liteira e pôs-se a mirar respeitosamente o penhasco. A seguir, acendeu nove bastõezinhos de incenso, fixou-os numa greta da rocha, curvou-se três vezes em reverência e arrepiou caminho para o templo, a fim de completar a peregrinação. O pátio regurgitava de fiéis, que se apressaram a abrir caminho para o magistrado e assim permitir-lhe cumprir confortavelmente suas devoções. Feito isso, o sacerdote convidou-o a uma "pobre colação de água fresca e legumes crus" na privacidade de um pequeno pavilhão, reservado a personagens de escol. A "pobre colação" acabou se revelando um verdadeiro banquete de finas iguarias das montanhas, como aliás previa o magistrado ao aceitar o convite.
Virando alguns copos de vinho quente ("para combater o frio do outono"), o ilustre convidado indagou se haveria algum meio de avistar-se com o Jovem Semente de Pinho.
"É estranho Vossa Senhoria perguntar isso", replicou o sacerdote, "pois ele mandou dizer que o aguarda em sua humilde morada para agradecer-lhe o incenso, que Vossa Senhoria queimou revestido de trajes oficiais. Aliás, seria de boa cortesia dar ao jovem a oportunidade de corresponder à tamanha amabilidade. Na volta, Vossa Senhoria deve apear-se na curva onde o regato corre por uma canaleta sob o caminho dos peregrinos. Mande seus homens à frente, e, quando não estiver sendo observado, penetre na passagem entre as rochas e siga a trilha ascendente. Como essa trilha, a princípio, serpeia em direção oposta, ninguém jamais imaginou chegar ao jovem por ela, principalmente porque...ahn...o espaço aberto entre as rochas nem sempre está ali!".
Saindo antes que os peregrinos começassem a debandar, o magistrado seguiu as indicações e ficou perplexo ao descobrir que a senda oculta atravessava uma maravilhosa caverna além da qual se descortinava uma paisagem extraordinária. Em primeiro plano, as manchas vermelho-alaranjadas do outono; para o sul, uma região montanhosa salpicada inexplicavelmente do verde do verão; para leste, salgueiros no ponto da florescência primaveril; e, o mais estranho de tudo, as colinas ao norte coroadas de neve! Ligeiramente propenso a acreditar que bebera além da conta, vê de súbito o Jovem Semente de Pinho. Ostentava para a ocasião um chapéu ritual e um fino manto onde se viam bordados: de um lado, um dragão verde expelindo prata pela boca, e, de outro, um tigre que vomitava cinábrio derretido; os dois jatos fluíam para uma trípode de ouro pintada na fímbria do manto, donde se evolava um vapor irisado. Um imperador se orgulharia de envergar tão magnífica vestimenta.
Quando o magistrado fez menção de prosternar-se, o rapaz deteve-o, e, juntos, se dirigiram para um pavilhão de laca, cujas janelas octogonais eram gradeadas de ripas coloridas com incrustações de madrepérola.
"Muito bem", começou o jovem num tom encantador, "eu sequer sonhava com o prazer de receber Vossa Senhoria em minha humilde cabana. Quem iria imaginar que um estudioso confucionista, em trajes oficiais, condescenderia em oferecer incenso a um pobre montanhês? Não fora pelos peregrinos, teria descido para retribuir-lhe as amáveis reverências. Já que se deu ao trabalho de vir à minha insignificante morada, o mínimo que posso fazer é perguntar em que lhe posso ser útil e colocar minhas pobres habilidades ao inteiro dispor de seus mais caros desejos. Nós, homens da montanha, não temos talento suficiente para realizar maravilhas, mas, se Vossa Senhoria desejar uma lembrança de nosso encontro - uma deliciosa concubina, uma promoção rápida, um bocado de jade, um jarro inesgotável de vinho persa -, estou certo de que poderia ajudá-lo."
"Vossa Imortalidade é inexcedivelmente generoso", replicou o magistrado, corando ante a perspicácia do jovem, que parecia ler seus pensamentos, a julgar pela ordem com que mencionara aqueles desejos. "Mas, se desculpar minha presunção, há um presente que me saberia melhor que essas deleitosas ofertas, ou seja..."
"Não, não!", fez o jovem, num tom contrariado. "Não está em meu poder divulgar o segredo da eterna juventude. Ele não pode ser repartido com Vossa Senhoria, a menos que abandone seu cargo e se aliste entre os discípulos...ahn...de meu mestre."
Com isso não podia o magistrado concordar. Vinha de uma família votada havia gerações aos livros e seu dever era permanecer no serviço imperial. Os espíritos dos antepassados não tolerariam vê-lo transformado num taoísta errante. Entretanto, tão vigorosa era sua eloqüência, que logrou convencer o rapaz a comunicar-lhe o desejo sonhado, embora fosse penoso atestar a relutância com que o fez. A fórmula mostrou ser tão simples que a obtenção da imortalidade acabou sendo um caso inesperadamente trivial. Tudo o que precisava ser feito era beber, em determinados dias do calendário lunar, uma decocção de ervas a que se misturava uma colher de cinábrio e outra de um pó obtido das estalactites e estalagmites que abundavam na caverna pela qual o magistrado devia regressar. Sete vezes sete doses, tomadas num período de sete meses, bastariam para remoçar, garantir perpétua juventude e imensa longevidade, desde que o coração do adepto se concentrasse no Caminho.
"Isso eu posso prometer", gritou Sua Senhoria, excitadíssimo. Antes de voltar para se encontrar com os assessores, que, preocupados com sua ausência, estavam a ponto de enviar alguns peregrinos à cidade para comunicar o desaparecimento do magistrado, de sorte a saberem o que fazer, o dignitário recolheu o precioso material da gruta e escondeu-o no manto. O processo de pulverização e infusão foi confiado à sua Terceira Senhora, uma bonita garota, filha de família pobre mas boa, que, entregando-a, garantia-lhe o futuro. Supondo que o amo estivesse com diarréia ou outra moléstia embaraçosa, não o pressionou para revelar-lhe a razão de tão meticulosas instruções, e seguiu-as à risca.
Durante alguns meses tudo correu bem, e Sua Senhoria sentia-se cada dia mais jovem e mais forte. Quem sabe não lhe dançavam na mente idéias relacionadas com uma brilhante carreira aberta a um oficial talentoso, para quem os séculos equivaliam aos dias das pessoas comuns? Ou lhe vinham pruridos de aumentar o modesto número de três esposas? Só o que se pode saber é que alguma coisa o afastou do Caminho, pois a primeira dose do quinto mês provocou-lhe intensa transpiração, seguida de náuseas. À dose seguinte sucedeu um colapso, e, no mesmo dia, suas almas gêmeas partiam do corpo!
A Terceira -Senhora caiu nas suspeitas das viúvas mais velhas, e uma ampla investigação foi ordenada. Soube-se então que o falecido vinha ingerindo doses de uma beberagem estranha desde seu misterioso desaparecimento quando de volta do templo, por ocasião do aniversário da deusa. Embora os carregadores afirmassem que um deles, receando deixar Sua Senhoria sozinho na estrada, voltara para vigiá-lo e vira-o desaparecer numa fenda da rocha, um cuidadoso exame revelou que não havia nenhuma passagem no local ou outro atalho qualquer por onde se pudesse deixar a estrada. Por falta de provas, a acusação contra a Terceira Senhora foi retirada, mas sua reputação ficou tão abalada, que ela se viu forçada a ingressar num mosteiro budista, para ali expiar possíveis ações criminosas contra o marido.
E a história termina com um lacônico comentário: "Fácil de dizer, difícil de fazer".