Tumbas do Período Han, por Ricardo Joppert

Em 1968, soldados da província setentrional do Hebei localizaram duas tumbas da época Han nos montes Ling, no subúrbio oeste da cidade de Mancheng. Comunicado o fato às autoridades, escavações foram realizadas de julho a setembro do mesmo ano. As tumbas, invioladas durante dois mil anos, abrigavam os restos mortais de Liu Sheng, príncipe Jing de Zhong Shang, falecido em 113, durante a época dos Han ocidentais, bem como os de sua esposa, Dou Wan. São túmulos cavados na rocha, de proporções gigantescas, verdadeiros palácios subterrâneos, compostos de uma sala central, duas salas auxiliares (ao norte e ao sul) e de uma sala posterior. No túmulo de Liu Sheng, na sala do sul, foram achados restos de doze cavalos e vários carros de combate; na sala do norte, vários recipientes em argila haviam contido alimentos e vinho. A sala central encerrava bronzes, lacas, cerâmica e "Ming Qi"; na sala posterior estavam os ataúdes, móveis e os objetos mais preciosos. Os dois túmulos guardavam mais de 2.800 objetos funerários de ouro, bronze, prata, ferro, jade, vidro cerâmica laca e seda. Entre eles, sobressaem: riquíssimo Boshan Xianglu de bronze, incrustado de ouro; vasos Hu inscritos com caracteres em forma de pássa- ros, incrustados de ouro e prata; uma lâmpada de bronze em forma de pássaro, com as asas abertas e que traz no bico uma bandeja dividida em três partes, para três lamparinas ao mesmo tempo; uma estátua de serva que traz uma lâmpada móvel (do túmulo de Dou Wan), gravada com os caracteres Chang Xin ("Eterna Fidelidade"); barras de ouro; brocados de seda e muitos outros objetos menores. Os corpos de Liu Sheng e Dou Wan estavam vestidos de uma mortalha feita de lâminas retangulares ou quadrangulares de jade, cosidas com fio de ouro. São as famosas "roupas de jade cosidas de ouro" de que nos fala a literatura chinesa; até 1968, nenhuma vestimenta inteira havia sido encontrada. A mortalha de Liu Sheng compõe-se de 2.690 peças de jade reunidas por 1.110 gramas de fio de ouro; a de Dou Wan tem 2.156 peças e 703 gramas de fio de ouro. Nas mãos, os cadáveres traziam um crescente de jade; repousavam a cabeça num travesseiro também de jade e decorado de um dragão de ouro. Liu Sheng era irmão de Han Wudi e celebrizou-se por sua vida depravada, conforme testemunho de Sima Qian no Shiji.
Túmulos em Mawangtui
[...] Nessa tumba, situada nos subúrbios de Changsha, Henan, encontraram-se também outros objetos funerários (mais de 1.000), artística e arqueologicamente importantes. O túmulo foi construído sobre terreno ligeiramente acidentado e forma uma colina de 20 metros de altura, cujo diâmetro da base varia de 50 metros a 60 metros. Está. orientado no sentido norte-sul. O sarcófago foi pousado sobre o solo, numa câmara subterrânea e compõe-se na verdade de seis esquifes, que se encaixam uns nos outros. Esse múltiplo sarcófago estava circundado de uma camada de carvão vegetal (30 cms. a 40 cms. de espessura), por sua vez envolvido de uma camada de argila branca. O carvão e a argila foram os responsáveis pela boa conservação dos objetos lá. encontrados. O terceiro caixão, a contar do interior, apresenta, em suas paredes exteriores, pinturas laqueadas representativas de nuvens em tons do vermelho, preto, amarelo e branco sobre um fundo de laca negra. Entre essas nuvens dispersam-se monstros fantásticos, que lutam, caçam, dançam e tocam citara. O segundo caixão interior tem suas paredes laqueadas de vermelho. Sobre a tampa está. representado um combate entre dois dragões e dois tigres, num fundo de nuvens multicores. Desenhos geométricos circundam as quatro paredes laterais e, no centro, há pinturas de cumes de montanhas, nuvens, dragões voadores, cervos, monstros e discos de jade. O caixão menor (o primeiro a contar do interior) continha o cadáver mumuficado de uma mulher de 1,54 m de comprimento, colocada em decúbito dorsal, com a cabeça ao norte ,os pés ao sul e os quatro membros alongados normalmente. O cadver pesa 34.3 kg. Os peritos chineses que realizaram a autópsia dessa múmia de vinte e um séculos verificaram que o tecido conjuntivo subcutâneo permanece ainda elástico, as fibras estão intactas e as artérias da coxa mostram uma coloração muito próxima à de um cadver recente. Por outro lado, as articulações dos quatro membros podem ainda mover-se, os pelos não caem quando puxados, a peruca que levava a dama estava perfeitamente conservada, o tímpano esquerdo encontra-se intacto e restam algumas pestanas na pálpebra do olho direito. O exame de raio-X revelou um esqueleto completo, inclusive quanto aos pequeninos ossos das mãos e dos pés, que permanecem ilesos. O cérebro apresentou-se encolhido e ocupava só um terço da caixa craniana. As diferentes capas de tecido da parede abdominal mostram-se muito claramente, as vísceras não sofreram mudança de posição e têm a aparência de estar perfeitas. Os demais órgãos internos também foram extraordinariamente bem preservados: no aparelho digestivo a autópsia revelou a presença de sementes de melão, fato indicativo de haver a dama falecido na época dessa fruta. O sangue era do tipo A, segundo exames feitos com tecidos dos músculos, estômago, fígado, ossos e cabelos do cadáver.
Concluiu-se que a mulher havia morrido, vitima de enfermidade aguda, aos cinqüenta anos. Ela sofria de esquistossomose, bem como de uma grave e dolorosa colelitiase, comprovada por cálculos que obstruíam a passagem da bílis e deviam causar dores violentas. Finalmente, a radiografia e o exame microscópico revelaram arteriosclerose sistemática e focos calcificados de tuberculose no pulmão esquerdo. A vida dessa aristocrata deve ter-se encerrado subitamente, com um ataque cardíaco provocado por intensa cólica biliar. Inscrições provam que a defunta pertencia à família do marquês de Dai, de existência histórica comprovada. A tumba dataria de -195 a -141.
Muitos tecidos de seda, relativamente bem preservados, foram encontrados no túmulo. Umas cinqüenta vestimentas foram recuperadas, bem como chinelos, meias e luvas de seda. As lacas de Mawangtui estão entre as mais perfeitas existentes da época Han. São taças com alças, pratos, tripodes ,vasos Hu, caixas, colheres, mesas, biombos. As lacas são de cor vermelha no interior e preta no exterior. Quando foram exumadas ainda guardavam restos de alimentos. Instrumentos de música estavam também presentes em Mawangtui: uma citara (Se), um órgão de boca (You) e uma série de doze flautas de bambu, que davam os doze tons da escala musical chinesa. Os "Ming Qi" que representam pessoas são em número de 162. Trata-se de figuras de madeira, que traziam vestimentas de tecido ou pintadas e formavam uma orquestra ou grupos de dançarinos e cantores. Tabulas de bambu continham um inventário dos objetos funerários e cestas de bambu preservaram ervas medicinais, legumes, Sementes de cereais, moedas e objetos sigilares.
Dois outros túmulos (os de números 2 e 3) foram investigados em Mawangtui em 1973 e em 1974. Encontraram-se neles livros de seda que totalizam 120.000 caracteres chineses e são valiosíssimos [...] pois representam a literatura tal como foi reconstruída imediatamente depois da "queima dos livros" de -213. Pinturas sobre seda foram também recuperadas e são preciosas para a compreensão da Estética Han.


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