A Religião no Período Shang, por D. H. Smith

A tradição chinesa fixa os começos da sua civilização na última parte do terceiro milênio antes de Cristo, mas, embora haja razões a priori para presumir que a primeira dinastia chinesa, a Hsia, se estabeleceu por essa ocasião, não há nenhuma prova arqueológica direta a respeito da Hsia.
Têm sido registrados na China centenas de lugares neolíticos que revelam várias culturas neolíticas distintas, e embora possam ter havido consideráveis influências estrangeiras primitivas no desenvolvimento da civilização chinesa, houve um desenvolvimento cultural contínuo na China desde os tempo neolíticos em diante, e a teoria de que os proto-chineses eram uma raça conquistadora que invadiu a China, vinda do ocidente, já não é aceitável. Os antepassados neolíticos dos chineses viviam em aldeias e dedicavam-se à agricultura e à domesticação de animais como sua principal fonte de vida, considerando a caça e a pesca ocupações importantes mas subsidiárias, e possuindo já técnicas altamente desenvolvidas para a produção de faianças e utensílios de pedra, de osso e de marfim (1). Se bem que pouco possa ser deduzido das provas arqueológicas relativamente às idéias e práticas religiosas neolíticas, a religião muito desenvolvida da dinastia Shang, que tradicionalmente começou em 1766 antes de Cristo, com o seu culto dos espíritos dos antepassados, os complicados rituais mortuários e o seu sistema sacrifical altamente fomentado, devia ter tido um longo desenvolvimento nos tempos pré-históricos. Pode-se inferir racionalmente que a primeira religião da China, assim como de outros povos agrícolas, se centralizava num culto de antepassados, na preocupação da fecundidade, e na adoração de numerosos espíritos da Natureza que incluíam os deuses poderosas do vento e da chuva.
Para esses primeiros antepassados dos chineses, o mundo parecia cheio de poderes que se manifestavam na vida animal e vegetal, nos céus e nas águas, nos processos misteriosos do nascimento, do crescimento, da decadência, e na incidência da doença e da morte. A comunidade consistia não só de vivos mas de antepassados mortos que eram os guardas da fonte da vida e que olhavam pela fertilidade, pelo sustento e pelo crescimento, sendo considerados como se ainda fossem ativos. Mostravam a sua aprovação dando fertilidade às plantas e aos animais e sucesso na caça e na guerra. E os lugares designados para o seu culto tornaram-se “lugares santos” donde brotavam a prosperidade e o bem-estar dos vários clãs.
É com a dinastia Shang que entramos nos tempos históricos, especialmente com a fundação de Yin como capital da sua confederação no tempo do governante P’an Kêng. Atribui-se este acontecimento ao décimo quinto ano do reinado de P’an Kêng (c. 1384 antes de Cristo). Yin conservou-se a capital da dinastia Shang durante duzentos e setenta anos até à sua queda final e destruição completa pela Chou. Intensa atividade arqueológica no local dessa capital, em Hsiar T’un e Hou Chia Chuang, perto da moderna cidade de Anyang na província de Honan, têm fornecido provas suficientes para se constituir uma idéia certa da vida cultural e religiosa do povo Shang. Foi de Hsiao T’un que quase todos os registros escritos nos “ossos de oráculo” se desenterraram, assim como os restos de uma extensa cidade. (2) Dos túmulos dos cemitérios de Shang, situados perto de Hou Chia Chuang, uma significativa coleção de bronzes funerários e acessórios de túmulos provam não só uma cultura adiantada da idade do bronze como um intenso interesse da parte da aristocracia Shang pela vida depois da morte (3).
A maioria dos ossos de oráculo podem ser datados como pertencendo a um período que se estende mais ou menos desde o reinado de Wu-ting (c. 1324 antes de Cristo) até ao começo do reinado de Ti-hsin (c. 1225 antes de Cristo). Como os ossos eram usados na adivinhação, e as perguntas e as respostas eram freqüentemente inscritas neles, dão-nos um conhecimento considerável relativamente aos interesses que dominavam o pensamento da dinastia Shang. Identificaram-se já uns três mil caracteres que incluem a maioria dos nomes dos reis da dinastia Shang.
Durante este período existiu na bacia do Rio Amarelo e seus afluentes, uma civilização altamente desenvolvida que parece ter tido bastante contato com povos que habitavam nas regiões distantes da China de hoje e provavelmente recebiam influências culturais do ocidente (4).
Uma aristocracia possuidora de escravos, habitando em cidades, impunha-se aos camponeses rurais principalmente dedicados à agricultura e à domesticação de animais. O Professor Li Chi escreve que a religião deles era “uma religião teocrática dominada por excessiva devoção ao culto dos antepassados”. (5) A caça de animais selvagens parece ter sido um passatempo favorito da nobreza Shang que também se envolvia em guerras quase incessantes com as tribos bárbaras. “A paixão real pelo desporto pode provar-se pelo fato de haver sempre, debaixo das câmaras de madeira onde eram colocados os caixões reais, sepulturas sacrificais onde grandes cães acompanhados de varões adultos eram sacrificados. Esses homens e esses cães tinham sido companheiros do rei durante a vida e, como os haviam seguido nos momentos de prazer, acompanhavam-no para o outro mundo” (6).
Os clãs das famílias nobres mantinham-se unidos por um complicado sistema de direitos, privilégios e parentesco que já era sacrossanto por tradição e tornado obrigatório por uma obediência determinada à vontade de um antepassado tribal. Assim, o que nós conhecemos por li, isto é, os ritos e cerimônias que governavam as várias afinidades da vida humana e da sociedade, juntamente com as cerimônias por meio das quais os deuses e os antepassados eram adorados, representavam já um laço a unir as castas chinesas num sistema unificado (7). Mas essas leis rituais, que assim ligavam os grandes clãs que formavam a hegemonia chinesa dentro das suas afinidades mútuas, não apelavam nem para as suas relações com as numerosas tribos bárbaras das fronteiras, nem para o povo comum que servia a aristocracia.
Na procura da avaliação do pensamento ético e religioso da dinastia Shang é necessário grande cuidado para que não se leia nos caracteres inscritos nos ossos de oráculos significações que só se desenvolveram mais tarde. Há poucas provas de que os governantes mostrassem responsabilidade moral ou para com os espíritos dos antepassados que adoravam ou para com o povo que governavam. Há poucos vestígios, ou nenhum, de pensamento ético nas inscrições dos ossos de oráculo. Mesmo caracteres como “bom” e “mau” relacionam-se com idéias de prosperidade e calamidade, boa sorte e má sorte, causadas pelos ventos e pelas chuvas, por desastres nas colheitas, ou por sucessos na caça e na guerra.
As inscrições dos ossos de oráculo e os vasos de bronze sacrificais depositados nos túmulos dos reis e dos nobres testemunham igualmente o fato de que a maneira da dinastia Shang ver o mundo era determinada pela idéia de um primitivo deus-antepassado. O caráter freqüentemente usado pu, significando adivinhar ou predizer, sugere a idéia do pedido de conselhos e ordens ao espírito do antepassado morto. O culto do espírito do grande antepassado, e com ele os espíritos de todos os reis falecidos, era a principal feição da religião Shang.
Nos primeiros tempos, a terra tinha sido considerada o lar dos mortos. Acreditava-se que o espírito vital se quedava com o cadáver ou perto dele, o qual havia sido durante muito tempo a sua habitação. No entanto, quando o cadáver se desintegrava, esse espírito vital era forçosamente obrigado a deixá-lo, para se fundir outra vez na misteriosa fonte de energia criadora da terra que é citada, mais tarde, na literatura, como “fontes amarelas”. Era pois uma generosidade, tanto para os vivos como para os mortos, fazer todos os possíveis para preservar o cadáver da dissolução: para os mortos, porque só assim o espírito vital podia continuar a viver e a conservar a sua identidade; para os vivos, porque só assim os espíritos dos antepassados podiam continuar a interessar-se pelos afazeres dos seus descendentes. Nos costumes funerais da Shang encontramos inúmeras provas de um desejo de preservar o cadáver da ruína. Os complicados túmulos sugerem este motivo fundamental juntamente com os grossos caixões de madeira que se depositavam dentro. Embora não haja provas da arte de embalsamar, conforme praticada pelos egípcios, a primorosa preparação do cadáver, o uso do que se acreditava serem agentes de longa vida como o jade, a obturação de todos os orifícios do corpo, tudo mostra a tentativa de providenciar à alma do falecido uma habitação tão permanente quanto possível. Parece também que havia medo de que se o cadáver, por causa de desgraça ou de morte não natural, não fosse ritualmente colocado em descanso dentro do túmulo, o seu espírito vital, ainda possuidor de algumas energias, se tornasse um fantasma ou prêta (8), perseguindo os vivos ou procurando entrada noutro corpo. As ofertas usuais aos mortos de comida e bebida parecem ter tido dois principais objetivos: dar sustento ao espírito no seu lar subterrâneo e apaziguá-lo para que ele não estorvasse os vivos com atos de malevolência. O folclore chinês, desde os tempos do período Ch’un Ch’iu em diante, testemunha essas crenças primitivas mas persistentes.
Embora esse conceito da alma como um kuei que, depois da morte se associava, por um tempo, com o túmulo, e finalmente era absorvida pela terra, donde tinha vindo, fosse o mais primitivo, no tempo da dinastia Shang, pelo menos entre a aristocracia, daí se desenvolveu uma crença de que os espíritos dos antepassados se tornavam seres poderosos e divinos que habitavam as alturas, provavelmente numa região dos céus centralizada na estrela polar. Assim, está já em evidência uma certa ambivalência no conceito da existência depois da morte. Os espíritos dos reis mortos ou dos nobres, embora se acreditasse que continuavam a viver nos complicados túmulos em que tinham sido cerimonialmente enterrados, também se supunham habitantes do céu. Este é sem dúvida um fator importante no desenvolvimento posterior da peculiar crença chinesa de que o homem apresentava duas almas, a hun que na morte se tornava a shen e partilhava da natureza do céu, e a p’o que se transformava em kuei e era terrena por natureza.
O espírito fundador da dinastia Shang, donde os membros de todas as famílias nobres desejavam traçar a sua descendência, era adorado como deus supremo, exercendo domínio sobre o povo e a terra, de modo que, em todos os assuntos de importância grave, a sua ajuda e guia eram procuradas por adivinhação, e a sua boa vontade mantida por ofertas regulares e meticulosas de sacrifícios apropriados. Ele enviava cá para baixo tanto bênçãos como calamidades, recompensava a lealdade aos seus preceitos, e punia todos os atos de desobediência.
O significado do grande antepassado parece ter sido derivado do seu poder procriador, da sua capacidade como governante e do seu sucesso como chefe na guerra. O caráter tsu, pelo qual os espíritos dos antepassados dos clãs eram designados, parece originalmente ter representado um falo. Os espíritos que se adoravam nos relicários ancestrais dentro das casas e os espíritos protetores do solo e das sementes que se adoravam em altares de terra construídos ao ar livre eram ambos representados por caracteres que alguns escolares chineses modernos derivam do mesmo símbolo fálico. Assim, os focos gêmeos da primitiva religião chinesa, o templo ancestral e o altar de terra, ambos deduziram o seu significado do mesmo primitivo espírito antepassado (9).
Tem-se sugerido que há leves indícios de que nos tempos mais antigos a sociedade chinesa era totemista. Nos nomes dos primeiros reis da dinastia Shang há caracteres que significam boi marinho, escorpião, tigre, urso, etc., enquanto que as áreas tribais das redondezas se designavam por distrito dos cavalos, distrito dos carneiros, distrito dos tigres, etc (10). provável que, enquanto as tribos bárbaras à volta continuavam a ser totemistas, a Shang aprendesse a pôr a sua fé no espírito do grande antepassado que os conduzira para a batalha contra os deuses totens- animais e lhes dera a vitória. Contudo, conforme veremos, mais tarde, neste capítulo, os deuses adorados pela Shang eram freqüentemente representados em forma de animais.
Os antepassados deificados da Shang conheciam-se como Ti. Quando um governante morria tornava-se um Ti, associado nas alturas com o primeiro espírito-antepassado considerado como o supremo Ti. Um estudo deste caráter, como é usado nas inscrições dos ossos de oráculo, sugere que esse antepassado da dinastia Shang era tido como um deus supremo que habitava as alturas. O caráter é usado em três diferentes, ainda que relacionados, sentidos. Fú Ssú-mien fez um estudo exaustivo desse caráter em todas as inscrições de ossos de oráculo registradas por Sun Hai-po no seu Chia Ku Wên Pien. Sessenta e quatro exemplos do uso do caráter estão registrados, um dos quais é um duplicado. Em dezessete exemplos, o caráter é usado como equivalente do verbo “sacrificar’, provavelmente o seu significado original. Em seis exemplos, o caráter é usado emparelhado com o nome de um rei anterior e indica referência a um especial antepassado divinizado. Em quatorze casos, o sentido do caráter é incerto. Mas em não menos do que vinte e seis exemplos, o uso do caráter sem qualquer titulo sugere referência a uma divindade suprema, a qual se invoca e adora simplesmente como Ti. Essa divindade é concebida como habitante das alturas, o senhor acima de outros deuses, espíritos e antepassados deificados. É invocado para a chuva e as boas colheitas, e concede a sua aprovação e fornece muitas graças (11). Quando um governante morre, o seu espírito não vai simplesmente para debaixo da terra mas montará às alturas para se associar com o supremo Ti. Pode aí haver alguma semelhança com o culto de Osíris no Egito, mas, tanto quanto se sabe, os reis Shang não eram considerados “deuses” enquanto governavam na terra.
Associados à corte dos reis da dinastia Shang estavam os chên jên ou wu jên, padres ou adivinhos-xamanistas que eram membros importantes da comunidade, porque reis e nobres se voltavam para eles para conselho e guia em tudo quanto pertencia ao mundo espiritual. As funções religiosas eram também exercidas pelo chu que parece ter oficiado nos sacrifícios na qualidade de “mestre de cerimônias”. Eram responsáveis pela compilação das orações cerimonialmente oferecidas e pelos arranjos dos pormenores meticulosos dos rituais sacrificais. Saudavam cerimonialmente os deuses e os participantes do culto e escoltavam estes, de acordo com a categoria e a precedência, até aos seus lugares, talvez com acompanhamento de música. Havia também uma classe de homens relacionados com a corte cuja tarefa era registrar todos os acontecimentos importantes. Nos ossos de oráculo está um caráter que representa uma mão a segurar o estilete ou o pincel e desse caráter foram derivados caracteres que, mais tarde, significaram “historiador”, “funcionários do governo” e “negócios”. Assim, desde os primeiros tempos, o governo do país esteve intimamente ligado à observância religiosa, e através de toda a história da China, os funcionários do governo assistiram ao governante supremo na representação das várias funções de um complicado culto estatal.
Prodígios, fenômenos naturais estranhos e todos os distúrbios na ordem natural das coisas eram considerados como intimações do mundo espiritual de que nem tudo corria bem, e era dever dos “mágicos” interpretar esses acontecimentos. Os funcionários mais importantes do governo eram os dotados com o poder de comunicação com os espíritos e de registrar as suas ordens e desejos para orientação do rei. A adivinhação representou um papel multo notável na vida do povo Shang. Tudo que afetava a felicidade do rei e do estado requeria os serviços de um adivinhador perito. A adivinhação era um prelúdio necessário para o empreendimento de uma jornada, para a caça ou para a guerra, ou para casos de doença, de tempo atmosférico ou de colheitas. Representava meio de comunicação com os espíritos dos antepassados.
O templo ancestral era o centro das atividades governamentais, o lugar onde se armazenavam armas de guerra, onde os vassalos eram enfeudados, onde se realizavam as festividades reais. Era o símbolo do próprio estado. Nenhuma grande festa se realizava aí sem que os deuses e os espíritos dos antepassados fossem convidados como hóspedes de honra, o que exigia um complicado ritual. Embora tenhamos muito poucos registros literários da dinastia Shang desse complicado ritual, há prova evidente dele nos primeiros poemas da dinastia Chou que se apossou, nas suas principais particularidades, da religião dos seus antepassados. As inscrições dos ossos de oráculo, contudo, revelam a imensa variedade de utensílios e ofertas usadas nos sacrifícios Shang e indicam que, algumas vezes, até centenas de animais eram sacrificados ao Ti, de uma só vez (12).
A escavação de numerosos túmulos revela que a religião da Shang foi dominada por um profundo interesse pela vida e pela significação de além-túmulo. No caso de pessoas de sangue real ou nobre, construíam-se túmulos complicados e caros, abastecidos de ricos acessórios e de todos os objetos supostos necessários para uma existência depois da vida na terra. Depositavam-se com o cadáver carruagens, utensílios, vasos sacrificais e armas. As armas e os vasos sacrificais eram os mais numerosos porque a guerra e o sacrifício representavam as duas empresas mais importantes dos tempos Shang. Há prova de que uma grande comitiva de criados, esposas e escravos, assim como numerosos cavalos, eram enterrados vivos com o rei. Descobriram-se cerca de quatrocentas vítimas em cada um dos maiores túmulos em Anyang (18). Certos objetos, especialmente os feitos de jade, eram enterrados com os corpos porque se acreditava que possuíam poderes preservativos contra a corrupção e ruína, ou porque simbolizavam imortalidade.
Além do culto dos antepassados em que o antepassado supremo era adorado como um “alto deus”, a religião da dinastia Shang foi caracterizada por uma forte crença na influência dos fenômenos naturais sobre a vida do homem, tanto para o bem como para o mal. Os deuses do solo e das sementes parecem ter gozado de suprema importância. Quando a estrutura hierárquica da sociedade se desenvolveu, cada unidade territorial tinha o seu próprio deus do solo cuja importância variava de acordo com o tamanho e o valor do território sobre que ele exercia controle espiritual. Conforme Chavannes escreveu: “O deus da terra é a personificação do poder inerente na terra. Cada quinhão de terra possui um deus próprio, mas a terra está dividida de acordo com os agrupamentos humanos que a ocupam. Uma completa hierarquia de deuses da terra corresponde a essas várias divisões territoriais” (14) Embora toda a terra se considerasse sagrada, um lugar especial foi escolhido onde se erigiu um baluarte, e não só um baluarte como uma árvore destinada a representar deus. Assim: “Na antiguidade, a árvore era essencial ao altar do deus da terra; claro que não se distinguia do próprio deus da terra: era o deus da terra. Afinal, todas as qualidades criativas e nutritivas da terra não se concentram onde cresce uma árvore? Não é verdade que a árvore brota do próprio seio da terra como expressão viva da sua fertilidade?” (15)
O filósofo Mo-Tzu (século V antes de Cristo) escreveu: “Antigamente, no tempo dos reis sagrados das Três Dinastias, quando eles fundaram os seus reinados e estabeleceram as suas capitais, selecionaram um local para o principal altar de terra do reino, erigiram o templo ancestral, e escolheram árvores luxuriantes para fazer um bosque sagrado” (16).Não há necessidade, creio, de aceitar a sugestão de Quaritch Wales de haver possibilidades de influência mesopotâmica nessa relação. Ele escreve que “a representação do deus chinês do solo por meio da muralha e da árvore corresponde perfeitamente às representações mesopotâmicas de Enlil e de Tammuz” (17).
Os deuses do solo eram numerosos. Cada quinta tinha o seu próprio “deus do solo” que presidia aos acres da família. Cada grupo de famílias, cada feudo, e o país em geral tinham o seu deus do solo, e esses deuses formavam uma hierarquia divina que correspondia à estrutura hierárquica da sociedade sobre a qual estava super-imposta. O sinal da extirpação completa de uma casa rebelde era o templo ancestral ser destruído, a árvore junto do altar de terra cortada, e o próprio altar coberto com telhado para que não gozasse mais das influências benéficas do sol, do vento e da chuva.
Além dos deuses do solo e das sementes, das montanhas e dos rios, do vento e da chuva, muitos animais eram considerados como possuidores de uma potência espiritual, e os misteriosos poderes da natureza simbolizavam-se e adoravam-se na forma animal. Isto era talvez natural num país onde a caça representava uma ocupação importante da nobreza. Os animais ferozes que o homem caçava simbolizavam para ele uma experiência misteriosa e terrífica da morte semelhante à das tempestades violentas e aterradoras que antecediam as chuvas frutificantes de Verão.
Duas figuras semi-míticas de animais, ambas compostas na forma, foram especialmente importantes, e tornaram-se um tema de recurso nos motivos da arte chinesa através da história. Eram o dragão e o t’ao t’ieh. O dragão foi primeiro associado às tempestades e às nuvens, à chuva e à fertilidade, aos rios e aos pântanos, ao medo e ao poder do rei. Encontra-se uma certa ambivalência no conceito do dragão. Por um lado, inspirava terror, e por outro lado, era adorado como um ser benéfico que enviava as chuvas frutificadoras. A mesma ambivalência se vê no conceito da majestade real, sentada no alto, sobre o seu trono de dragão e inspirando tal terror que só podia ser abeirada com ar inferior e olhos baixos, mas, ao mesmo tempo, o “pai e a mãe” do seu povo. Que o dragão teve significação na religião da dinastia Shang prova-se pelo fato de, na lista de Chia Pien das inscrições dos ossos de oráculo, não menos do que quarenta e um caracteres serem considerados como formas de lung, o dragão (18). Andersson afirma que o motivo do dragão aparece na arte primitiva chinesa e diz que em Kansu, na primeira parte do segundo milênio antes de Cristo, é representada uma espécie de cobra com quatro pernas e chifres (19).
O T’ao t’ieh ou máscara de ogro, que aparece, altamente estilizada, como um motivo constante nos desenhos dos bronzes sacrificais da dinastia Shang, é um composto de mais que uma espécie de animal onde, contudo, as características felinas predominam. Devemos lembrar que através de todos os tempos históricos o tigre foi tido como o guarda das sepulturas, afugentando os espíritos maus, e também representado nos escudos dos soldados para inspirar terror ao inimigo. Para alguns escolares, o t’ao t’ieh, com a bocarra aberta e aspecto assustador, sugere a morte que engole todas as coisas vivas, sem exceção, com as suas ávidas mandíbulas. Carl Hentze vê no t’ao t’ieh a evidência de um conceito mágico-religioso de nascimento e morte, luz e trevas, indicativo de um aspecto dualista do mundo (20), mas a sua opinião não deve ser considerada senão altamente especulativa. Parece mais provável que essa aterradora criatura representasse uma divindade poderosa que protegia dos espíritos maus as sepulturas e os cadáveres e guardava os gostosos sacrifícios que os descendentes piedosos ofereciam aos seus espíritos antepassados. Os chineses sempre se Têm interessado pela proteção contra os espíritos maus. Associados com sepulturas, a partir do século IV antes de Cristo em diante, Têm sido descobertos espíritos guardiões em forma de animais grotescos, enquanto que os ubíquos deuses da porta, em forma de guerreiros ferozes que protegem os lares chineses, parecem ter a mesma fundamental finalidade.
De todos os animais, a tartaruga foi considerada como possuidora de poderes misteriosos e oraculares, e conseqüentemente a sua concha usada na adivinhação. A cigarra teve também um motivo comum na arte mortuária Shang. Parece ter sido reconhecida como símbolo da imortalidade. Peças de jade em forma de cigarra eram colocadas na língua dos mortos antes do enterro (21).
Os reis da dinastia Shang não se consideravam divinos durante a vida, mas possuindo poderes sagrados. O seu titulo wang foi mais tarde explicado como representando aquele que unia na sua pessoa o céu, a terra e o homem. O rei da dinastia Shang devia a sua posição de governante supremo à bravura militar do seu divino antepassado. Ele mantinha essa posição por meio de alianças com os clãs virtualmente autônomos que formavam a hegemonia chinesa (22). Mais tarde, os historiadores chineses imaginaram esses reis “imperadores” e grandes mestres de uma religião nacional, idéia que é inteiramente falsa. Contudo, a prova contemporânea das inscrições dos ossos de oráculo, e as descobertas arqueológicas que datam da dinastia Shang revelam que o rei exercia funções religiosas importantes que se consideravam essenciais para o bem do estado. De fato, o primeiro dever do rei, e naturalmente de cada magnata territorial, era o de preservar a prosperidade da terra por meio de rituais de natureza mágico-religiosa. Pela correta representação dos rituais prescritos, ele assegurava a regularidade das estações, a fertilidade das colheitas, a natural e oportuna reprodução dos animais domésticos, e mantinha uma relação harmoniosa entre o céu, a terra e os homens. Por meio dos mesmos rituais, assegurava ao povo a proteção e a bênção do espírito antepassado supremo. Eram estas funções rituais que davam ao rei o seu único estado religioso. Sob a sua direção, os movimentos dos corpos celestiais eram observados e registrados, e só a ele pertencia a promulgação de um calendário anual para guia e controle das atividades das estações do seu povo. Assim, um texto primitivo da dinastia Chou informa-nos que o imperador mítico Yao ordenou a dois dos seus ministros, Hsi e Ho, “reverentemente, de acordo com a Vontade do Céu, que calculassem e representassem o progresso do Sol, da Lua e das estrelas, para assim promulgar com cautela e reverência as épocas apropriadas para o trabalho dos homens” (22). Deste pequeno exame da religião da dinastia Shang vemos que as idéias mais distintas de um aspecto do mundo peculiarmente chinês estavam já em evidência: um culto de antepassados que resultou num ritual sacrifical e mortuário altamente organizado, a crença num ser supremo que presidia a uma estrutura hierárquica do mundo espiritual que se relacionava intimamente com o destino e a vida do homem; a idéia de que só os designados por autoridade superior eram apropriados para desempenhar funções religiosas, sendo o povo mero espectador, o que levou à ligação íntima da religião com o estado; o intenso interesse pela observância correta e meticulosa do cerimonial; e ainda a crença de que o principal objetivo da religião era manter uma afinidade harmoniosa entre o céu, a terra e o homem.

Notas
1. Chêng Tê-k’un, Archeology in China, vol. 1, Cambridge, 1959, p. 69.
2. Em anos recentes, Chineses, Japoneses e estudantes ocidentais fizeram estudos intensos destas “inscrições em ossos de oráculo”. Tratava-se, em geral, de omoplatas de carneiros e de bois, que foram muito empregados em adivinhação, e nas quais se encontram os primeiros espécimes conhecidos da escrita chinesa. Pode encontrar-se em H. G. Creel, Studies in EarIy Chinese Culture, Londres, 1938, um bom relato da descoberta e interpretação destes ossos de oráculo.
3. Para relatos em inglês das escavações da capital da dinastia Shang, ver: H. G. Creel, The Birth of China, Londres, 1936; Studies in Early Chinese Culture, Londres, 1938; Li Chi, The Beginnings of Chinese Civilization, Seattle, 1957; Chêng Tê-k’un, Cf., Archaeology in China, vol. 2, Cambridge, 1959.
4. Jao Tsung-i, artigo in Chinese no Ta Lu Tsa Chih, Taiwan Fev. 1954, sobre reminiscências pré-históricas no sul da China e na Cultura Yin Hsü. Também Creel, Studies, p. 168. “De harmonia com a opinião de escolares ocidentais, muitos dos elementos fundamentais da cultura chinesa da Idade’ do Bronze foram importados do exterior para a China... a olaria, a carroça, e a fundição de bronze”.
5. Li Chi, The Beginnings of Chínese Civilization, Seattle, 1957, p. 20.
6. Ibid., p. 25.
7. Shu Ching, Seção Chun Shih 8-9, Sacred Books OS the East, vol. 3, pp. 206-7.
8. Prêta. Termo sânscrito, lit: “o defunto”. Era crença popular na China antiga que algumas almas não entravam logo após a morte no mundo espiritual, mas que vagueavam durante algum tempo pela terra, reunindo-se em encruzilhadas ou no exterior das casas dos parentes, em busca de sustento. A sua influência maléfica era multo temida.
9. Cf. Hou Wai-lu, Chung Kuo Ssú-hsiang T’ung-shih, vol. 1, Pequim, 1957, p. 63.
10. Ibíd., p. 61.
11. Fu Ssú-nien, Hsing-ming Ku-hsitn Pien chang, vol. 2, Xangai, 1947, pp. 4 ff.
12. Lo Chen-ju, Yin-hsü Shu-chi Chien pien, 1913, chuan 4, p. 8b; Hsu P’ien, 1933, chuan 1, p. 10b.
13. Kuo Mo-jo, Nu-li chih Shih-tai, 1952, pp. 68-9, 73-4.
14. ‘Le dieu du sol est la personnification des energies qui résident dans le sol. Chaque parceile de sol a son dieu qui lui appartient en propre; mais la division du sol, étant déterminée par les groupements humains qul 1’occupe, varie suivant l’extension de ces groupements; à ces répartitions diverses du territoire correspond toute une hiérarchie de dieux du sol.’ E. Chavannes, Le T’ai Chan, Paris, 1910, p. 437.
15. ‘Dans la haute antiquité, l’arbre est chose essentiefle sur l’autel du dieu du sol; bien plus, rien ne le distingue du dieu du sol lui-même; ü est le dieu du sol. N’est-ce pas en effet dans l’endroit ou s’élêve un arbre de belle venue que sont concentrées toutes les vertus créatrices et nourriciêres du sol? Cet arbre ne jaillit-il pas du sem de la terre comme la vivante expression de sa fécondité?’ Ibid., p. 471.
16. Mo-tzu, texto chinês, Sun I-Jang’s ed. no Wan Yu Wen Ku, vol. 2, p. 151.
17. Quaritch Wales, The Mountain of God, Londres, 1936, p. 47.
18. H. O. Creel, Studies, p. 237.
19. Andersson, Children of the Yellow Earth, Londres, 1934, ch. 5.
20. C. Hentze, Tod, Auferstehung, Weltordmung: Das Mystiche Bild in Altesten China, Zurique, 1955.
21. C. A. S. Williams, Outlines of Chinese Symbolism, Pequim, 1931, p. 62; Laufer, Jade, Passadena, nova ed. 1946, p. 299.
22. Cf. Marcel Granet, Chinese Civilization, Londres, 1930, pp. 155 ff.
23. James Legge, The Chinese Classics, vol. 3, pt. 1, Hong Kong, 1865, pp. 24-5.


Voltar para Religião e Mitologia