A Religião no Período Chou, por D. H. Smith

A literatura existente que pode ser atribuída, com confiança, ao período anterior a Confúcio é limitada. As inscrições encontradas nos vasos sacrificais de bronze, embora merecedoras de crédito, raro contêm mais do que uns vinte caracteres. As mesmas frases-padrão ocorrem repetidas vezes e revelam muito pouco das idéias religiosas do primeiro período Chou (1). Sete seções do Livro dos Documentos (Shu Ching) são aceites pela maioria dos eruditos como prova contemporânea segura (2). Os poemas do Livro das Odes (Shih Ching) são extremamente valiosos pela luz que lançam sobre as crenças e práticas religiosas dos primeiros séculos do primeiro milênio antes de Cristo, e embora a data de muitos desses poemas possa ser determinada com considerável precisão a partir da prova interna, a maioria não se pode datar, e tudo quanto é possível dizer deles, com certeza, é que são anteriores ao tempo de Confúcio (3). Os restantes clássicos confucionistas, ainda que contendo sem dúvida muito material original dos primeiros séculos da dinastia Chou, são produto de tempos pós - confucionistas, e são, na sua forma atual, as compilações dos escolares da dinastia Han (4).
Usando apenas passagens da literatura que apresentam o selo de origem ocidental Chou, verificamos que uma mudança notável e mesmo revolucionária teve lugar cerca de 1000 antes de Cristo tanto no pensamento religioso como ético, e conforme tantas vezes aconteceu na história, esta mudança foi de grande alcance, ocasionado pela necessidade política.
Nos meados do século XI antes de Cristo, os clãs fortes e viris Chou, que ocupavam os territórios do noroeste da hegemonia chinesa, chefiados por um chefe hábil chamado Fa, e subseqüentemente conhecido por Rei Wu, revoltaram-se vitoriosamente contra os seus dominadores Shang. Cerca do ano 1027 antes de Cristo, a grande capital chamada Yin foi tomada e saqueada. O último rei da dinastia Shang foi morto, e o rei Wu estabeleceu-se como cabeça dos estados chineses. Parece que ele tratou os que capitularam com notável clemência. O filho do último rei Shang teve permissão de governar a antiga capital Yin e os territórios que a cercavam, mas dois dos irmãos do rei Wu receberam feudos vizinhos para agirem como cães de guarda. Enquanto o rei Wu continuava a exercer o governo pessoal sobre o antigo patrimônio Chou a ocidente, colocou um primo da sua confiança, o duque de Shao, como soberano dos novos territórios conquistados a leste e concedeu feudos aos seus próprios oito irmãos mais novos e àqueles que o tinham ajudado nas campanhas. Por um tempo, tudo correu bem, mas à morte do rei Wu, levantaram-se discussões entre os irmãos. O rei Wu tinha seguido o costume Chou de designar o seu filho, Ch’êng, para o suceder, mas como a dinastia Shang seguira um sistema de herança fraterna, entre os irmãos do rei que se lhe seguiam em idade, o duque Hsien considerou-se com todos os direitos de sucessão ao titulo real, especialmente porque o filho do rei Wu era novo e inexperiente. Ganhando para o seu lado outro irmão, e aliando-se com o filho do deposto rei Shang e certas tribos bárbaras do leste, Hsien ergueu o estandarte da revolta.. Seguiu-se um período de luta amarga, o qual terminou finalmente com a derrota de Hsien e dos seus associados. Isto levou à destruição completa da capital de Shang, Yin, e à pacificação do país sob a regência hábil do duque de Chou, tio do jovem rei. Foi este o famoso Tan, duque de Chou, que, mais tarde, se considerou um modelo de virtude real, e, aos olhos de Confúcio, um grande herói e sábio estadista (5).
A queda da dinastia Shang e a pacificação do país tinha sido conseguida com a maior das dificuldades, mas ainda mais difíceis foram os problemas do governo que enfrentaram os novos governantes. Eles podiam reter o poder nas suas mãos somente se fossem capazes de persuadir os nobres, os numerosos funcionários e administradores, que haviam dado a sua aliança aos Shang, de que o seu título de realeza era justo e razoável. E isto fizeram-no, enunciando uma doutrina de realeza e uma filosofia de história que se tem atribuído ao duque de Chou (6). Essa doutrina, que está claramente afirmada nos sete autênticos capítulos do Shu Ching, baseava-se firmemente na moralidade e na religião. Foi essa doutrina, que veio a ser geralmente aceite na China, que levou à famosa revolução do pensamento religioso e provou ser um passo significativo rumo a um monoteísmo ético. Os Chou, menos cultos do que os Shang que tinham derrotado, apossaram-se das instituições Shang. Conservaram a antiga estrutura de clãs e as idéias religiosas e o sistema cerimonial dos conquistados, mas infundiram uma nova perspectiva e uma nova moralidade.
Desde o início, o princípio governante da administração Chou era o de que o governo se fundava na religião. Todos os grandes assuntos do estado, mesmo a fundação do próprio estado, associavam-se, não só, como com os Shang, aos espíritos deificados dos antepassados mortos, mas ao Deus supremo a quem chamam T’ien ou Shang Ti. Este Deus, que se tornou o objeto máximo do culto, não era mais um primitivo espírito de antepassado mas um alto Deus, independente e superior, que graciosamente reunia os espíritos dos antepassados consigo, no céu.
Como é que essa mudança momentânea se deu? O Deus, que fora o original espírito antepassado da dinastia Shang durante quinhentos anos, não podia ser facilmente posto de lado. Geração após geração, todos tinham adorado Ti como o mais poderoso dos deuses e superior a todas as outras deidades. Os reis Chou não podiam retirá-lo da sua posição suprema substituindo-o pelos recentes fundadores divinizados da sua própria dinastia, os reis Wen e Wu. Nem tampouco podiam permitir que o seu culto continuasse imutável, porque ele era o antepassado fundador da dinastia Shang, e a sua rebelião era equivalente à rebelião contra o Deus supremo. Não podiam nem rejeitar Ti completamente, nem permitir que o conceito de Ti e o seu culto se mantivessem como antes. A necessidade política tornava a mudança imperativa. Assim, eles transformaram o conceito de Ti de espírito ancestral primitivo, que tinha afinidades de sangue com os seus reais descendentes, num alto e supremo Deus cujos interesses eram a prosperidade e o bem-estar de toda a raça chinesa. Acentuaram o titulo Shang Ti, isto é, o Ti do alto, ou o “supremo Ti” e igualaram-no com T’ien (7), uma divindade que parece ter sido, juntamente com a Terra, um objeto supremo de adoração num culto primitivo da Natureza. Além disso, insistiram em que esse supremo Deus exigia retidão e bom governo. Por tal vazão é que a dinastia Shang fora destruída. Esse Deus escolhia quem ele queria que governasse e depunha aqueles que, como o último rei da dinastia Shang, se tinham revoltado contra ele por desgoverno e libertinagem..
A importância dessa mudança não pode ser demasiado acentuada. De acordo com a nova teologia Chou, fora o Deus supremo que apontara os reis da dinastia Shang para governar em primeiro lugar, e uma vez que eles tivessem governado bem, ele aprová-los-ia. De fato, fora ele que, quinhentos anos antes, elegera o primeiro rei Shang, T’ang o Conquistador, para destruir a dinastia anterior Hsia quando esta se lhe tornara desagradável devido ao mau governo e à conduta errada. Sempre que um rei falhava, por mau governo persistente, nos seus deveres para com Deus, Deus rejeitava-o e procurava um substituto apropriado. Depois de muitos avisos, e por meio de procura diligente por todo o país, Deus tinha encontrado no rei Wu um homem do seu agrado e tinha transferido para ele o mandato. Esta interpretação da história fornecia uma justificação teológica para a usurpação do poder pelos reis Chou, guardando também em si a implicação de que, se eles, por sua vez, deixassem de governar com justiça e sabedoria, T’ien disporia igualmente deles. Assim, a crença numa deidade suprema acarretava fortes compromissos éticos.
Algumas citações dos autênticos capítulos do Shu Ching tornarão este ponto bastante claro:
Eu digo constantemente a mim próprio. T’ien projetou destruir Yin como um agricultor (destrói as ervas ruins). Como ousarei descuidar-me em completar o trabalho dos meus campos! T’ien procura deste modo abençoar-me (levando a cabo o trabalho dos antigos pacificadores do país).
(Shu: Ta Kao 14)
A fama dele (do rei Wên) chegou ao Shang Ti que o abençoou. T’ien por isso conferiu o seu grande comando ao rei Wên, para extirpar a dinastia de Yin, receber o mandato e se apossar dos seus territórios e povo, para que estes fossem bem governados.
(K’ang Kao 4)
A capital de Shang estava cheia de crimes. (O Rei) não se afligiu por o reino de Yin estar perdido. Nem fez nada para que a fragrância da virtude se erguesse dos sacrifícios, e intercedesse junto de T’ien. Em vez disso, as queixas do povo e o odor fétido das orgias dos bêbedos sentiram-se nas alturas. Assim, T’ien determinou destruir Yin. Ele já não amava Yin por causa dos seus excessos. Não foi T’ien que foi cruel. Foram as suas gentes que trouxeram o mal sobre elas próprias.
(Chiu Kao 11)
O rei disse: “Vós numerosos oficiais que sobrevivestes da dinastia de Yin, não lamenteis que o compassivo T’ien tenha lançado a destruição sobre Yin, e nós, os príncipes de Chou, protegidos por meio do mandato e dotado com os vivos terrores de T’ien, temos cumprido a tarefa real do castigo e recebido (às mãos de T’ien) o mandato de Yin, e aperfeiçoado a obra de Ti”.
(To Shih 2)
O nosso pequeno país não teria ousado apossar-se do mandato de Yín. Foi T’ien que o não deixou ficar com eles. Naturalmente que ele não podia tolerar o seu desgoverno. Ele ajudou-nos. Como ousaríamos nós sozinhos aspirar ao trono?
(To Shih 3)
Eu ouvi-o dizer: “Shang Ti conduz os homens à tranqüilidade”. Mas o soberano de Hsia (Chieh) não procurava a tranqüilidade, e assim Ti enviou cá para baixo correções para mostrar a sua vontade a Hsia por meio de oportunos avisos. Ele não queria ser aconselhado por Ti. Mergulhou em maiores excessos e desculpou-se da sua conduta. Então, T’ien recusou-se a ouvi-lo, retirou-lhe a nomeação e infligiu-lhe um castigo extremo.
(To Shih, 5)
Então ele (T’ien) encarregou o vosso primeiro antepassado, T’ang o vitorioso, de destruir Hsia, e homens capazes governaram a terra. Vós próprios sabeis que os vossos precursores Yin tinham os seus anais e arquivos que relatavam como Yin tomara o mandato de Hsia.
(To Shih, 6, 19)
Sem piedade, T’ien trouxe a destruição sobre Yin, visto Yin ter perdido o seu mandato para governar, o qual nós, os da casa de Chou, recebemos. Não ouso afirmar que aquilo que estabelecemos continue para sempre em prosperidade. Contudo, se T’ien ajudar aos que são sinceros, não ousarei afirmar que acabe em desgraça.
(Chun Shih 2)
O mandato de T’ien não era fácil de guardar. É difícil confiar na constância de T’ien. Aquele que perde o mandato fá-lo porque não é capaz de continuar as virtudes ilustres que caracterizavam os homens de idade.
(Chun Shih 4)
Até os sábios, por descuido, se tornam negligentes, e os negligentes, sem pensarem, tornam-se sábios. T’ien, durante cinco anos, deixou o descendente (de Yin) em paz para ver se ele seria um (verdadeiro) governante do povo. Mas ele não refletiu nem escutou. Então, T’ien procurou através de numerosas regiões, acordando tudo com os seus terrores de modo a comover alguém que olhasse para cima para T’ien. No entanto, em todas as regiões, não encontrou ninguém. Só o nosso rei de Chou tratava bem o seu povo e era capaz de agüentar o encargo da prática da virtude. Ele presidia (aos sacrifícios) para com os espíritos e T’ien, portanto, ensinou-nos, abençoou-nos, e escolheu-nos para tomarmos conta do mandato de Yin e governarmos as numerosas regiões.
(To Fang 17-19)
Nas citações acima vemos claramente enunciada a idéia de que o governo do povo era do interesse de Deus, pois não tinha Deus dado nascimento a toda a gente? (Shih: 3: 3,6). E por causa do seu amoroso interesse e cuidado pelo povo é que Deus escolhera e designara um homem qualificado para governar com justiça e sabedoria. Quando a literatura primitiva fala do rei “recebendo (shou) o povo e a terra”, significa recebê-los da mão de Deus, que representa um conceito importante na religião Chou, deriva de um pictograma que simboliza o vassalo feudal a receber as patentes do cargo no templo ancestral do seu senhor. Assim acreditava-se que Deus entregava a um governante a autoridade de governar. Ele era, por isso, o vassalo de Deus, o vice-rei de Deus, e a autoridade podia-lhe ser retirada, se necessário fosse.
O primitivo espírito-antepassado já não é mais, como no tempo da dinastia Shang, a suprema deidade. Quando a literatura contemporânea fala dos antepassados da dinastia Chou, dos reis Wên e Wu, ou mesmo do fundador original dos clãs Chou, o mítico Hou Chi, deus do milho, fala deles como “associados com” o Deus supremo nas alturas, como descendo com ele para partilhar dos sacrifícios e como tendo poderes legados por ele para dar tranqüilidade e prosperidade aos seus descendentes filiais. O testemunho do Shih Ching (Livro das Odes) é absolutamente claro:
O soberano T’ien conferiu o seu mandato. Os dois governantes (Wên e Wu) receberam-no. O rei Chêng (o sucessor deles) não ousou ficar ocioso, antes trabalhou dia e noite para instituir o seu cargo.
(Shih: 4 1,6)
A seu tempo, o rei Wu deu a volta aos estados. O soberano T’ien considerava-o como um filho. T’ien ergueu a casa dos Chou acima de todas as famílias principescas... O rei Wu atraiu a si uma hoste de seres espirituais, os deuses dos rios e das montanhas, e assim ficou o governante soberano de toda a terra.
(4 :1; 8,1-2)
Perfeito sois vós, Hou Chi (o primitivo antepassado dos clãs Chou), digno de se associar com T’ien. Devido à vossa grande generosidade o nosso povo possui o grão. Vós tendes dado o trigo e a cevada que T’ien destinou para todos. Sem considerar limites territoriais, vós tendes ensinado e feito com que sejam observados os direitos sociais do homem.
(4: 1,10)
Nos estados há paz. Ano após ano, as colheitas são abundantes. O mandato de T’ien não cessa. O valoroso rei Wu guarda a confiança de todos os seus oficiais, os quais, dispersos por todo o reino, mantêm a sua casa. Como ele brilha no céu, tornado rei para pôr fim ao governo dos Shang.
(4 : 3,9)
Trago e apresento a minha oferta, um boi castrado e um carneiro. Oxalá que T’ien desça e os aceite. Eu, fielmente, observo os estatutos do rei Wên, mantendo a tranqüilidade através do reino. Do rei Wên vêm grandes graças. Ele desce e partilha do meu sacrifício. Dia e noite eu reverencio a majestade de T’ien, preservando assim constantemente o favor concedido à dinastia Chou.
(4: 1, 7)
Na terceira seção do Livro das Odes, os Ta Ya, os poemas relativos ao rei Wên, são odes sacrificais em que se faz sempre a distinção entre Deus (T’ien ou Shang Ti) e o antepassado divinizado, o rei Wên, embora o último se conceba como vivendo nas alturas com Deus e descendo com ele para partilhar dos sacrifícios:
O rei Wen está nas alturas, a brilhar no céu. Embora Chou seja um estado antigo, o seu mandato para governar é novo. Não são os reis de Chou ilustres? Não era o mandato de Ti oportuno? O rei Wên sobe e desce, acompanhando Ti aos sacrifícios.
(Shih: 3:1,1)
Esta associação íntima dos antepassados mortos com o Deus supremo, juntamente com a recusa de os identificar com Deus, é uma marca da primitiva religião Chou.
É provável que, originalmente, Shang Ti e T’ien fossem duas deidades completamente diferentes, mas na época do Chou ocidental os conceitos de Shang Ti de T’ien fundiram-se para formarem um Deus supremo. Com o decorrer do tempo, o termo Shang Ti foi usado menos freqüentemente para designar este supremo ser, e quando chegamos aos Analectos de Confúcio verificamos que o caráter T’ien é usado invariavelmente. Até ao tempo de Confúcio e de Mo- tzu este Deus foi considerado antropomorficamente como um Deus pessoal que ficava à frente de uma estrutura hierárquica no mundo espiritual, onisciente e onipotente. Como tal, ele exigia obediência implícita e era rápido em punir e abençoar. Deliciava-se com os sacrifícios que lhe eram oferecidos em ritos caros e complicados. No entanto, reconhecia-se que os sacrifícios mais suntuosos e os protestos mais sonoros de inocência não o podiam desviar do castigo dos maus. Acima de tudo ele amava a virtude, de modo que a virtude do governante tornava-se a garantia da paz e da prosperidade da terra. Os textos seguintes ilustram o caráter e os atributos de Deus como ele era adorado na China pré-confucionista:
a)T’ien vê e ouve; tem visão clara e não pode ser enganado.
T’ien vê como o meu povo vê,
T’ien ouve como o meu povo ouve.
(Shu: T’ai Shih Chung 7)
T’ien vê e ouve como o nosso povo vê e ouve.
T’ien mostra a sua majestade como o nosso povo mostra a sua reverência.
(Kao Yao Mu 7)
T’ien vê e ouve tudo. O rei-sábio toma-o por modelo. Os seus ministros seguem respeitosamente o seu exemplo, e o povo é bem governado.
(Shuo Ming Chung 3)
O augusto T’ien tem uma visão bem clara.
(Shih: 3: 3; 2,11)
Como é brilhante T’ien lá em cima a olhar para baixo com interesses sobre a terra!
(2 : 6,3)
T’ien inspeciona o povo cá em baixo, tomando nota da sua retidão, e regulando conseqüentemente o seu arco da vida. Não é T’ien que destrói os homens. Estes, pelas suas más ações, encurtam as suas próprias vidas.
(Shu: Kao Tsung 3)
b)T’ien é onisciente e onipresente.
Temei a ira de T’ien e não vos entregueis à dissipação.
Temei para que T’ien não mude para convosco, e não ouseis seguir os maus caminhos.
O majestoso T’ien tem visão clara e prolonga-se onde quer que vós ides.
O majestoso T’ien vê tudo, como o sol, e alcança-vos em todas as vossas vadiagens licenciosas.
(Shih: 3 : 2; 10,8)
Sede reverentes! Sede reverentes! T’ien revelou a sua vontade. O seu mandato não é fácil de conservar. Não digais que T’ien está distante. Ele desce e sobe, interessando-se pelos nossos afazeres, e examina diariamente todas as nossas ações.
(4 : 3; 3,1)
c) T’ien abençoa, protege e envia felicidade.
Que T’ien vos proteja e vos estabeleça, tornando-vos perfeitamente seguros. Se fordes verdadeiramente virtuosos, que felicidade é que ele vos recusa? Ele faz-vos receber muitas graças. Estas não numerosas, naturalmente.
(2 : 1; 6,1)
d) T’ien castiga os perversos.
Como T’ien abrange tudo lá de cima, soberano de todo o povo!
Como T’ien está vestido de terrores lá em cima! Ele decreta muitos castigos.
(3: 3,1)
e) T’ien criou as gentes e deu-lhes as suas aptidões.
Ao dar origem a todas as pessoas, T’ien ordenou que as suas naturezas fossem independentes. Algumas começam bem, mas poucas se conservam boas até à morte.
(3 : 3,1)
Quando T’ien deu o ser a todas as pessoas, anexou a sua lei a cada faculdade constitutiva. A sua natural disposição era amar a virtude admirável.
(3:3,6)
Para o fim do período ocidental Chou, no século VIII antes de Cristo, o mau governo e a libertinagem dos governantes Chou mergulharam o país em anarquia e ruína. Os poemas escritos acerca desse tempo refletem o sentido de espanto pelo fato de T’ien parecer não se interessar pela felicidade do povo. Estaria T’ien indiferente aos sofrimentos do povo? Ou seria possível que T’ien estivesse impotente? Porque é que T’ien permitia que as calamidades e os sofrimentos caíssem sobre os inocentes? Porque é que os freqüentes e caros sacrifícios feitos a T’ien e aos espíritos dos antepassados provavam não ter valor? São perguntas desta natureza que ocorrem repetidas vezes nos escritos do período de Ch’un Ch’iu anterior a Confúcio e que levaram muitos espíritos previdentes ao agnosticismo e finalmente à crença de que T’ien era um princípio puramente naturalista, indiferente tanto ao bem como ao mal. Foi o aparecimento de uma filosofia naturalista que influenciou profundamente os escritores confucionistas, e tauístas, e isto, juntamente com a ênfase ética confucionista, tem levado muitos escolares a afirmar que os chineses não são fundamentalmente religiosos. Contudo, ainda que muitos pensadores individuais desde os tempos do período Ch’un Ch’iu por diante, aceitassem uma interpretação puramente naturalista ou humanista, a maioria do povo chinês imaginava T’ien como um Deus supremo que devia ser reverenciado e adorado, a quem se devia oferecer orações e sacrifícios, um ser transcendente profundamente interessado pelo bem-estar do povo que criara.
As seguintes citações revelam a profunda desorientação de espírito causada quando a fé na providência de uma divindade suprema é desafiada pelos problemas da dor e do mal:
Oh, extenso e vasto T’ien a quem chamamos pai! Eu sou inocente e sem culpa, contudo sofro de tão grandes desordens. Majestoso T’ien, vós sois demasiado severo; de verdade, eu sou inocente. Majestoso T’ien, vós sois demasiado cruel; de verdade eu não tenho culpas.
(Shih: 2 5,4)
Os orgulhosos regozijam-se. Os aflitos estão em grande tristeza. Oh, azul, T’ien! Oh, azul T’ien! Olhai para esses homens orgulhosos e tende piedade dos aflitos. Esses homens caluniosos, quem foi que projetou os seus planos? Eu tomava esses homens caluniosos e atirava-os aos lobos e aos tigres. Se os lobos e os tigres se recusassem a devorá-los, atirava-os para as terras do norte. Se as terras do norte recusassem recebê-los, atirava-os às mãos do Augusto T’ien.
(2 5; 6,5-6)
Contemplo o Augusto T’ien mas ele não nos favorece. Há muito que estas cruéis aflições que ele nos enviou nos desorientam. O estado está perturbado. Os oficiais e o povo sofrem.
(3 3,10)
Agora, o povo, no perigo, procura T’ien mas não encontra um guia claro. Deixemos, porém, que T’ien decida e não haverá nada que ele não possa dominar. Esse Augusto Shang Ti, lá em cima, poderá odiar alguém?
(2 : 4,8)
A rede que T’ien deita cá abaixo é cheia de calamidades. Os homens bons perecem, e o meu coração está amargurado.
(3 :3; 10,6)
O obscurecido T’ien está zangado. T’ien está realmente a mandar a destruição cá para baixo, afligindo-nos com fome. O povo morre todo. Terras estabelecidas e campos fronteiriços todos são uma ruína.
(3 : 3; 11,1)
Uma característica da religião Chou ocidental era o culto complicado de sacrifícios e cerimônias que se ligava intimamente a tudo que pertencia ao governo do país e ao bem-estar e à prosperidade de cada clã individual. Esse culto fora herdado, em grande parte, da antiga dinastia Shang e havia de conservar uma das principais feições da religião chinesa, com apropriadas modificações, até à abolição da monarquia em 1912 (8). O principal ministro nos grandes sacrifícios era o próprio governante; mas como as relações entre o mundo espiritual e o mundo dos homens era tão importante, os grandes sacrifícios também exigiam a participação de todos os senhores feudais ou os seus representantes. O ritual requeria serviço de especialistas, semelhantes aos que tinham funcionado na corte dos reis Shang (9). Daí derivou a classe dos escolares que representou um papel tão importante através da história chinesa.
As festas sacrificais onde os antepassados dos clãs eram honrados seguiam um modelo prescrito. Primeiro, era escolhido um dia auspicioso com a ajuda de adivinhos sábios. Os participantes submetiam-se a uma prévia purificação e jejum. Todas as oblações eram cuidadosamente selecionadas e preparadas, devendo as vítimas sacrificais ser de uma só cor e sem defeito. As orações, os rituais e a música seguiam um determinado padrão. Finalmente, os antepassados eram representados por atores vivos, os quais deviam ser escolhidos, se possível, entre os filhos do chefe do clã, que representava o primeiro suplicante e sacrificador. Esses “atores” eram conduzidos com grande cerimônia aos seus lugares de honra reservados aos espíritos dos antepassados, e eram tratados como se, daí por diante, os espíritos dos antepassados os habitassem. Assim, a festa do clã era uma festa que tanto os vivos como os mortos partilhavam numa refeição comum:
Vós escolheis um dia auspicioso, e tendo feito as purificações prescritas, preparais os sacrifícios para os vossos antepassados. Na Primavera, Verão, Outono e Inverno, fazeis as ofertas próprias aos antigos governantes da vossa família. Os vossos antepassados (através dos seus representantes) prometem-vos longa vida, sem fim. Os espíritos dos vossos antepassados estão presentes e obtêm para vós muitas graças.
(Shíh: 2: 1; 6)
Os textos seguintes, escolhidos de entre um grande número de poemas que Têm como tema as importantes festas sacrificais, ilustram a posição central do culto dos antepassados na religião da Chou ocidental.
Dentro do templo, solenes e serenos, em perfeita harmonia e reverentemente, os nobres assistentes e numerosos oficiais apóiam a virtude do rei Wên e fazem o seu responsório para ele no céu. Atentamente, eles apressam-se (a realizar o seu serviço) no templo.
(Shih: 4 1,1)
Trago a minha oferta, um carneiro e um boi castrado. Que T’ien os receba! Tomo os estatutos do rei Wên como minha lei e mantenho tranqüilidade constante em todo o meu reino. O rei Wên dá-nos prosperidade, e desce sobre a mão direita para partilhar dos nossos sacrifícios.
(4:1,7)
Uma colheita generosa, milho e arroz em abundância! Os celeiros estão empilhados de grão sem medida. Fazemos licor fermentado para oferecer aos nossos antepassados, tanto masculinos como femininos. Cumprimos com todas as nossas cerimônias para que eles nos enviem graças.
(4 : 2,4)
Os senhores feudais juntam-se em completa harmonia, reverente-mente reunidos para assistirem ao filho de T’ien, solene e majestoso. Ele oferece um nobre boi castrado e eles ajudam a preparar o sacrifício. Oh vós, grande antepassado real, auxiliai o vosso filho! (O antepassado rei Wên) era um homem de sabedoria compreensiva, um príncipe na paz e na guerra. A tranqüilidade que ele dá chega até ao Augusto T’ien, e assegura prosperidade aos seus descendentes. Ele (o atual rei) ganha para nós longa vida e muitas graças, uma vez que assim honra o seu augusto pai e a sua perfeita mãe.
(4 : 2,7)
Fazemos licor fermentado e preparamos viandas para as ofertas e para o sacrifício. Fazemos sentar os representantes dos mortos e pedimos-lhes que comam. Assim, procuramos aumentar a nossa felicidade. Com olhares graves e atitude reverente, escolhemos as nossas vítimas sacrificais sem mancha, bois e carneiros, para servirem no Outono e nos sacrifícios do Inverno. Uns matam os animais. Outros tratam de os cozinhar. Alguns põem a carne em estrados. Outros arranjam-na para o sacrifício. O mestre de cerimônias (chu) fica de pé à porta do templo para esperar a chegada dos espíritos dos antepassados. Os sacrifícios, todos prontos em brilhante arraial. Os espíritos dos antepassados chegam e aceitam as nossas ofertas. O seu descendente filial recebe a bênção deles. Os espíritos recompensam-no com felicidade e longa vida. Alguns, reverentemente, velam pelo lume, enquanto outros colocam em posição os grandes estrados (para a carne). A rainha, reverentemente, expõe uma grande quantidade de iguarias menores. Os hóspedes e visitantes aproximam-se, e faz-se um brinde. Todas as cerimônias são meticulosamente observadas; cada sorriso, cada palavra, em perfeito decoro. Os atores dos espíritos dos antepassados chegam e prometem todas as graças e dez mil anos de felicidade.
Temos feito tudo com o nosso poder e cumprido os ritos sem erro. O mestre de cerimônias transmite a mensagem dos antepassados ao seu descendente filial:
“O vosso sacrifício encheu o ar de fragrância. Os espíritos gozaram as vossas ofertas piedosas. Eles recompensam-vos com muitas bênçãos conforme os vossos desejos. Tendes sido respeitador, pronto, meticuloso e obediente. Os espíritos conceder-vos-ão favores memoráveis por uma miríade de anos”.
As cerimônias terminaram. Os tambores e os sinos proclamam o fato. O descendente filial regressa ao seu lugar. O mestre de cerimônias informa-o de que todos os espíritos beberam até se satisfazerem. Os atores dos espíritos levantam-se e partem com o acompanhamento de sinos e tambores. A rainha e todos os servidores apressam-se a retirar as ofertas sacrificais. Depois, todos os parentes masculinos tomam parte numa festa especial.
(2 6; 5,1-5)
Uma pura libação é vertida e depois um boi castrado, vermelho, e levado para ofertar aos meus antepassados. Com uma faca, adornada de campainhas à roda do cabo, corto o pêlo e tiro para fora o sangue e os intestinos. Depois apresento as ofertas que exalam um fragrante odor. Que brilhante é o sacrifício! Os antepassados vêm e recompensam-me com grandes graças e longa vida.
(2 : 6; 6,5-6)
Pelas passagens acima vemos como o culto dos antepassados e a adoração do supremo Deus e da hoste de seres espirituais acharam expressão num ritual altamente desenvolvido onde a meticulosa observância de ações apropriadas era de suprema importância. Os deuses e os antepassados pediam serviço e sacrifício, e uma vez que estes fossem oferecidos reverentemente e respeitosamente, com cuidadosa observância da etiqueta prescrita, os espíritos eram obrigados a cumprir a sua parte do negócio, concedendo longa vida e felicidade aos crentes. Para mais, estas grandes cerimônias forneciam uma base de união numa sociedade em que a categoria e a precedência precisavam ser cuidadosamente preservadas.
No entanto, as exigências éticas de T’ien e dos antepassados nunca eram perdidas de vista. O rei ficava em relação a T’ien como o filho mais velho vivo em relação aos antepassados mortos do clã. O titulo dele era T’ien tzu, isto é, “filho do céu”. A sua atitude para com T’ien devia ser de obediência filial. É curioso que desde o começo da dinastia Chou os títulos do reinado pelos quais os reis se tornavam conhecidos eram títulos com uma conotação ética.
De um estudo de muitas passagens no Shu Ching e Shih Ching, vemos que a qualidade que tornou possível aos primeiros reis receber e manter o mandato de T’ien, por meio do qual eles eram considerados dignos de tomar lugar com Deus nas alturas, essa qualidade que, de fato era a base da majestade de T’ien, era Tê. Este caráter, nos seus primeiros usos, significa “poder”, o poder de personalidade que os deuses invariavelmente possuem, e com o qual algumas pessoas eram dotadas até um grau extraordinário. Uma qualidade algo igual a “mana” ou “baraka” que todos os deuses e espíritos possuem em certa medida e que, num homem importante, o leva a submeter os seus inimigos, ganhar uma carreira, impor a sua autoridade e influenciar os seus camaradas. Esse “poder” ou “força” podia agir tanto para o bem como para o mal; podia manifestar-se em benevolência ou ira. Indubitavelmente, esse conceito mais antigo de Tê não foi inteiramente substituído, mas durante este período teve um novo significado ético. Tê era “virtude”. O poder divino ou real usado para o bem do povo e da terra. Acima de tudo, o que tornava o rei aceitável e digno diante de T’ien. Dimanava do rei para todos os seus territórios, trazendo paz, prosperidade e graças. Apenas mantendo a sua “virtude” poderia um rei reter o seu mandato de governo.
O vosso ilustre e distinto pai, o rei Wên, manifestando o seu Tê, era cuidadoso no uso dos castigos... A sua fama chegou a Shang Ti e Shang Ti aprovou-o. T’ien deu-lhe o encargo de exterminar Yin e receber a nomeação.
(Shu: K’ang Kao 3-4)
O rei disse: “Oh Feng, sê reverente! Não faças nada para excitar agravos. Não sigas maus conselhos ou maneiras iníquas. Com constante cuidado imita o Tê dos antepassados, para que o teu coração esteja em paz. Fixa o teu coração em Tê, traça bem os teus planos, deixa que a tua benevolência traga sossego ao povo. Não faças nada que te mereça censura ou degradação”.
(K’ang Kao 22)
Que os jovens escutem com atenção a instrução de seus pais e antepassados, e que pratiquem Tê tanto nas coisas pequenas como nas grandes.
(Chiu Kao 5)
O próprio T’ien aprovará o vosso grande Tê e vós nunca sereis esquecidos na casa real.
(Chiu Kao 7)
Oh Rei, só pelo exercício do vosso Tê trazeis harmonia ao povo enganado e assim agradais aos antigos reis que receberam o mandato de governar.
(Tzu Ts’ai 7)
Desde a vossa ocupação desta nova cidade, vossa majestade tem assiduamente praticado Tê. Que vossa majestade continue no cultivo de Tê procurando assim o mandato permanente de T’ien.
(Chao Kao 20)
Outro conceito de grande significado ético entrou em uso freqüente: o conceito da piedade filial ou Hsiao. Este caráter, tanto quanto sabemos, não se encontra nos ossos de oráculo da dinastia Shang, mas nos primeiros bronzes da dinastia Chou, e também no Shu Ching e Shih Ching, para designar a atitude de respeitosa obediência que um filho deve aos seus pais e aos seus antepassados. Os reis Wên e Wu, os fundadores da dinastia, eram apontados como modelos de piedade filial.
O Rei disse: “Os grandes criminosos devem ser detestados, mas muito mais os que não têm piedade filial nem amor fraternal; o filho que não atende às necessidades de seu pai reverentemente e que fere o coração dos seus antepassados”.
(Shu: K’ang Kao 16)
O Rei disse: “Tio Yi Ho, vós trouxestes mais glória aos vossos antepassados. Vós sois o primeiro a seguir o exemplo de Wên e Wu, renovando outra vez as bem-próximas tradições rompidas da nossa linha. Vós revivestes de novo a piedade filial dos nossos dotados antepassados”.
(Wên Hou 3)
Eu ofereço este majestoso touro, assistido pelos nobres em expor os sacrifícios. Oh, augusto pai, abençoai o vosso filho.
(Shih: 4:2;7,2)
Oh, meu augusto pai, através de toda a tua vida tu praticaste a piedade filial.
(4 : 3; 1,1)
Ele ganhou a confiança do povo e era um exemplo para todos abaixo dele. Sempre considerando em ser filial, a sua piedade filial era um modelo.
(3: 1; 9,3)
Os dois conceitos Tê e Hsiao relacionaram-se intimamente e formaram os princípios morais para o controle da sociedade. Tê era mais freqüentemente relacionado com T’ien; Hsiao com os antepassados. Dois pequenos extratos de poemas escritos quando o poder dos reis Chou declinou e o país estava dilacerado pela desordem política e econômica, revelam a força da piedade filial e da afeição familiar. Eles falam por si:
Oh meu pai que me geraste!
Oh minha mãe que me criaste!
Tu acariciaste-me, deste-me de comer,
Desenvolveste-me, criaste-me.
Olhaste por mim. Não me podias deixar,
Em toda a parte me levavas nos braços.
Oh, se eu pudesse recompensar tal bondade!
É como o Grande T’ien, ilimitada.
(Shih: 2 : 5,8)
De todos os homens do mundo não há nenhum igual aos irmãos. Nas terríveis ocasiões da morte e do enterro são os irmãos que sentem mais. Quando os fugitivos se reúnem nas alturas, ou nos terrenos baixos, são os irmãos que se procuram por todos os lados.
(2: 1; 4,1-2)
A crença na adivinhação, nos dias auspiciosos, na influência dos eclipses do sol sobre os afazeres humanos e nos prodígios estranhos da natureza, herdados do passado distante, foram ainda feições importantes da religião Chou e haviam de continuar a exercer um forte poder sobre o povo até aos tempos modernos, apesar do desprezo e do ridículo lançados sobre essas idéias mágico-religiosas pelos filósofos cépticos e racionalistas. Para fins de adivinhação, as hastes da erva mil- folhas, que se consideravam próprias para isso, entraram em uso em vez das omoplatas de carneiros e bois. Em grandes e importantes ocasiões, e para quem podia pagá-la, a concha da tartaruga continuou a ser usada. Os seguintes extratos ilustram a variedade das ocasiões em que os homens se voltavam para a adivinhação.
As carroças não vieram. Grande era a tristeza do meu coração aflito. Pois ele não chegou quando devia, pelo que estou cheia de aflição. No entanto, adivinhei através da concha de tartaruga e das hastes e elas concordam em dizer que ele está perto. O meu soldado (marido) está a chegar.
(Shih: 2: 1; 9,4)
Um dia feliz foi Mao e nós sacrificamos ao antepassado dos cavalos e rezamos.
(2 : 3,6)
Adivinhai para mim os meus sonhos. Que sonhos são felizes? Sonhei com ursos e cobras. O principal adivinho adivinha nisto. Os ursos são presságios de filhos do sexo masculino. As cobras presságios do sexo feminino.
(2 : 4; 5,6-7)
O Rei deliberou e adivinhou se devia habitar na capital de Hao. (O local) foi determinado pela concha de tartaruga. Assim, o Rei completou a cidade.
(3:1; 10,7)
No décimo mês, na conjunção (do Sol e da Lua) no dia de Hsin Mao, no primeiro mês, o sol eclipsou-se. Foi um acontecimento de grande mal. Em ocasiões anteriores a lua tem-se eclipsado. Mas agora o sol eclipsou-se e grandes serão os sofrimentos do povo.
(2:4; 9,1)
O Sol e a Lua anunciam notícias más. Eles não seguem as suas carreiras prescritas. Em todo o reino o governo falha porque os homens dignos não estão empregados. Para aqueles, o eclipse da lua é apenas um acontecimento ordinário; mas o eclipse do sol é muito lamentável.
(2:4; 9,2)
Vimos que durante o período próspero da Chou ocidental a religião centralizava-se no conceito de um Deus todo poderoso e dominador chamado T’ien ou Shang Ti cujo cuidado e solicitude para com o povo e a terra se evidenciavam no “mandato de T’ien” concedido a governantes sábios e poderosos. Associados com T’ien estavam os poderosos e benéficos espíritos dos antepassados que presidiam à vida e ao destino dos seus próprios clãs. A religião estava assim intimamente ligada ao governo e à organização dos clãs. Como é que a religião ia ser afetada quando o rei perdeu o seu poder e autoridade e se tornou um simples boneco nas mãos de usurpadores sem escrúpulos? Qual ia ser o efeito sobre o pensamento religioso da quase contínua luta civil, quando as famílias antigas se arruinaram e adventícios sem pretensões à nobreza agarraram o poder pela força das armas e a terra se encheu de violência? Na primitiva religião Chou havia as sementes de um monoteísmo ético que se podia ter desenvolvido em linhas semelhantes, em certos aspectos, às seguidas pela religião profética do Velho Testamento. Tal desenvolvimento não havia de suceder na China. Não havia na China nenhuma tradição profética ou sacerdotal que devesse obediência única ao supremo Deus e que estivesse preparada em seu nome para desafiar a autoridade política. As funções do padre, do adivinho e do cronista, estavam, da primeira à última, sob a supervisão dos governantes. A religião era um complemento do estado. Sempre que um estado declinava, o culto sacrifical por meio do qual os seus deuses e antepassados eram honrados declinava com ele. Através de todo o período de Ch’un Ch’iu (c. 720 -481 antes de Cristo) e imediatamente anterior ao advento de Confúcio, a tendência do pensamento chinês ia cada vez mais para essas filosofias naturalistas e materialistas que haviam de achar expressão mais completa em tempos posteriores nos escritos tanto dos confucionistas como dos tauístas.
Os primeiros sinais dessa atitude mudada para com a religião podem observar-se em muitos dos poemas Ya do Shih Ching, produtos de uma idade de anarquia social e de desespero. Deus é não só censurado pelas aflições que caíam sobre ricos e pobres igualmente, mas as dúvidas a seu respeito quase se aproximam de uma negação dele. Esse Deus que mandava o mal cá para baixo era um oponente que devia ser blasfemado. Os apelos mais apaixonados que lhe eram dirigidos pareciam cair em ouvidos surdos. A observância mais meticulosa dos rituais falhava em trazer algum alívio. No meio de uma situação tão aflitiva nenhuma ajuda vinha do mundo do espírito. O homem devia portanto ajudar-se a ele próprio, e, ao fazer isso, era a força bruta que dir-se-ia ser toda poderosa.
Levanto os meus olhos para o Augusto T’ien, mas ele não tem pena de nós. Manda grandes aflições sem pausa. Não há estabilidade na terra. Tanto os oficiais como o povo sofrem.
(Shih: 3 : 3; 10,1)
O compassivo T’ien encoleriza-se enviando-nos a morte e a fome. O povo vagueia e perece. Por toda a parte reina a destruição.
(3 : 3; 11,1)
Oh, grande T’ien, a quem chamamos pai e mãe! Embora sem culpa, esses males caiem sobre mim. Grande T’ien, sois demasiado severo. Tenho-me examinado e não encontro culpas. Grande T’ien, mandais infelicidade mas eu sou inocente.
(2 : 5; 4,1)
T’ien está a mandar calamidades para pôr fim ao país.
(3 : 3; 2,12)
O vasto, extensivo T’ien não estende a sua virtude (Tê) mas envia cá para baixo morte e fome para destruir a terra. O compassivo T’ien agora aterroriza sem tom nem som. É verdade que os pecadores deviam ser punidos pelos seus crimes, mas porque havia o povo inocente de ser oprimido com a desgraça?
(2 :4; 10,1)
O Augusto T’ien não é justo em enviar desgraças.
O Augusto T’ien não tem piedade em nos enviar estes males...
O Augusto T’ien é impiedoso. As desordens são sem fim.
Mês após mês elas crescem e os homens não têm repouso.
(2 : 4; 7,5-6)
O período conhecido por Ch’un Ch’iu assistiu ao declínio da autoridade centralizada. Os descendentes lineares da casa real de Chou tornaram-se meros beques, retendo os seus títulos, uma semelhança de autoridade, e as suas funções religiosas. Estas últimas eram mesmo muitas vezes usurpadas por poderosos senhores feudais que “faziam o que estava certo aos seus próprios olhos”, e que consideravam o esplendor dos seus próprios sacrifícios e culto religioso como indicação da sua força. A destruição dos estados mais fracos pelos mais fortes foi assinalada pela profanação dos templos ancestrais e dos altares de terra.
As formas da antiga religião observavam-se meticulosamente como se de necessidade política, mas eram, na maioria, despidas de conteúdo ético ou espiritual. À superfície, a religião parecia representar um grande papel na vida da nobreza. Os compromissos militares começavam com um sacrifício solene e com os serviços de um adivinho especializado. As alianças eram sancionadas pelos sacrifícios animais aos deuses e aos espíritos sobre os quais se faziam os mais solenes juramentos. As partes contratantes apelavam para os deuses e para os espíritos para que fizessem com que alguém que violasse os termos de um acordo sofresse o mesmo destino da vítima sacrifical. Além de sacrifícios regulares nos templos ancestrais e nos altares de terra, cada eclipse, cada acontecimento desusado, cada sinal de calamidade, eram uma ocasião para sacrifícios. Cria-se universalmente que uma relação íntima existia entre o mundo natural e o mundo dos afazeres humanos, e cada corte feudal tinha os seus especialistas para observarem os fenômenos celestiais e terrestres e para descobrirem por meio de artes mágicas e adivinhação a vontade dos espíritos. As seguintes citações ilustram as crenças e as práticas religiosas do século anterior ao nascimento de Confúcio.
“No sexto mês, no dia Hsin Wei, o primeiro dia da Lua, o Sol eclipsou-se. Batemos tambores e oferecemos sacrifícios nos altares de terra (10).
No ano terceiro do Duque Hsuan, na Primavera, no primeiro mês do rei, a boca do boi que ia ser usado no sacrifício da fronteira recebeu injúria. Foi mudado e o oráculo consultado. O boi morreu e assim o sacrifício da fronteira foi cancelado (11).
(O ministro Chi Liang) disse: “O que eu chamo o caminho (para um príncipe seguir) é ser fiel ao povo e devoto para com os espíritos. O governante é fiel quando pensa como há- de beneficiar melhor o povo. O invocador, nos sacrifícios, é devoto quando as suas palavras são sinceras. Presentemente o povo morre de fome, enquanto os príncipes se entregam ao gozo e os ministrantes dos sacrifícios dissimulam. O vosso servo não sabe como um tal estado de coisas há- de trazer sucesso”. O Duque disse: “As minhas vítimas sacrificais são lustrosas e gordas, e o grão está abundantemente empilhado nos vasos. Como pode pois haver falta de devoção?” Chi Liang replicou: “É o povo que importa, mais do que os espíritos. É por isso que os reis sábios satisfaziam o povo e somente depois se empenhavam no serviço dos espíritos” (12).
Para o fim do século VI antes de Cristo, Tzu Ch’an, primeiro ministro do pequeno estado de Chêng, imprimiu leis em bronzes acabados de fundir. Foi talvez essa a primeira tentativa de codificar as leis e na ocasião isso levantou forte oposição. Havia aí alguma coisa que feria a base da sociedade feudal. Não mais o povo se contentaria em aceitar a lei arbitrária dos que ficavam acima deles, antes apelaria para as leis e procuraria achar justificação para o seu ponto de vista no código escrito. Isto, foi argumentado, levaria a um governo mais fraco e a um maior declínio da sociedade.
“No terceiro mês (Tzu Ch’an) fez para o povo de Chêng um código penal fundido em bronze. Shu Liang enviou uma mensagem a Tzu Ch’an dizendo: ‘A princípio, eu estimei-vos muito, mas agora não posso mais continuar a fazê-lo. Antigamente os reis julgavam cada caso conforme os seus méritos, e não tinham código penal porque temiam que isso levasse à disputa entre o povo. Contudo, como não podiam impedir (o crime) por completo, dominavam o povo por meio da justiça, corrigiam-no pela administração, guiavam-no pelo decoro (li), mantinham-no pela boa fé, e serviam-no com benevolência. Instituíam recompensas para os encorajar a seguir, e várias penalidades para os intimidar quanto ao cometimento de excessos. Receando que os seus métodos ainda não fossem suficientes, instruíam-nos em lealdade, incitavam-nos pelo bom caráter, ensinavam-lhes as suas obrigações, serviam-se deles pacificamente, aproximavam-se deles respeitosamente, governavam-nos com força e faziam decisões com firmeza. Além disso, procuravam ter os bons e os sábios nas mais altas posições, davam emprego a homens de discriminação, faziam dos leais e dos verdadeiros, chefes, e dos bondosos e gentis, professores. Desta maneira o povo cumpria os seus deveres sem que qualquer desastre ou desordem sobreviessem.
Mas quando o povo chegar ao conhecimento dessas leis, não receará mais os que ficarem acima deles. Erguer-se-á a disputa à medida que eles procurarem justificação no código escrito, alardeando as suas injustiças ao encontrarem prova para o seu ponto de vista. Isto não é maneira de agir’ ” (13).
Em Tzu Ch’an, que foi primeiro ministro do estado de Chêng quando Confúcio estava a entrar na virilidade no estado perto de Lu, vemos prova da crescente tendência para o humanismo e uma interpretação mais racionalista. No ano 524 antes de Cristo, a planície central da China foi varrida por um tufão de violência excepcional, que foi seguido de incêndios destrutivos em quatro estados. O mestre adivinho do estado de Chêng, que proclamava ter predito os incêndios no ano anterior por indicações astronômicas, instou com Tzu Ch’an para procurar desviar a calamidade por meio de sacrifícios. Tzu Ch’an ignorou o seu conselho, dizendo:
“Os meios do céu estão distantes; são os meios do homem que nos ficam perto. Não podemos alcançar os primeiros; que maneiras temos de os conhecer?” (14) Aqui, na atitude de Tzu Ch’an, não temos uma negação da existência dos “Meios do céu”, antes a crença de que a compreensão de T’ien estava para além da competência do homem. As influências que vêm do mundo espiritual são impredizíveis. O homem emprega-se melhor em dirigir e regular os assuntos que afetam diretamente a felicidade do povo e o seu bem-estar. Esta mesma atitude é revelada em Confúcio, onde ele diz: “Respeita os espíritos, mas conserva-os à distância” (Ana. 6 : 20). Outra vez, quando interrogado por um discípulo relativamente aos espíritos e ao estado do morto, Confúcio replicou: “Se não aprendeste a servir os homens como podes servir os espíritos? Se não sabes dos vivos, como podes saber dos mortos?” (Ana. 11:11).
No entanto, apesar de uma crescente tendência para uma interpretação humanista e racionalista do lugar do homem no universo, tanto Confúcio como Mo- tzu, conforme veremos, aceitaram as idéias mais profundas da religião Chou, que haviam herdado. Em particular, ambos tinham profunda crença e reverência por T’ien como governante onipotente e onisciente do universo e autor da ordem moral. Só na obediência à vontade de T’ien e aos decretos de T’ien podia o homem esperar encontrar o seu próprio e verdadeiro caminho de vida.

Notas
1. Ver Chêng Tê-k’un, Archaeology in China. Chou China, Cambridge, 1964, p. 282.
2. Uma tradução corrente do Shu Ching é a de J. Legge, The Chinese Classics, vol. 3, Oxford, 1865. Para uma discussão da autenticidade do Shu Ching, cf. H. G. Creel, no Yen ching Journal of Chinese Studies, n.0 18, Dez. 1937; B. Karlgren, Book of Documents; H. O. Creel, Studies in Early Chinese Culture, 1937, pp. 55 ff.
3. Para traduções do Shih Ching, ver J. Legge, The Chinese Classics, vol. 4; B. Karlgren, The Book of Odes, Estocolmo, 1950; A. Waley, The Book of Songs, Londres, 1937. É aceite geralmente por estudantes chineses e ocidentais que o Shih Ching foi usado por Confúcio e pelos seus epigonos para instrução moral, embora hajam sido expressas algumas dúvidas sobre se Confúcio teria colaborado na formação da coleção. Cf. A. Waley, The Book of Songs, p. 18.
4. M. Granet, Chinese Civilization. Tradução inglesa, Londres, 1930, p. 2.
5. A evidência desta rebelião é encontrada em vários dos capítulos autênticos do Shu Ching: The Tai Kao, To Shih, To Fang and Lo Kao. Ver Couvreur, Chou King, Hsien Hsien, 1927, pp. 220 ff.
6. Sobre o duque de Chou, Ver A. Waley, The Analects of Confucius, Londres, 1938, p. 47: “Para Confúcio, porém, o herói real da conquista de Chou, não foi nem Wên nem Wu, mas Tan, irmão de Wu”. Shizeki Kaizuka, Confucius, Londres, 1956, p. 24: “ A crença geral, mantida firmemente pelo povo da dinastia de Chou, e especialmente pelo de Lu, o estado de Confúcio, era que o duque de Chou criara o sistema dos ritos e música da dinastia, e que fundara toda a civilização Chou - com a sua organização administrativa individual, o seu sistema social, o seu código de moral e a sua arte”.
7. Para uma discussão do significado de T’ien, ver A. Waley, The Analects of Confucius, pp. 41 ff.
8. Em relação com isto, cf. Chinese Culture, vol. 3, no. 1, Out. 1960, um manifesto da reavaliação da cultura chinesa. “Os antigos clássicos chineses emitem um sentido profundo da reverência para com Deus e a verdadeira fé no céu... Missionários jesuítas, que visitaram a China há trezentos anos, notaram isto nos ritos solenes que rendiam tributo ao céu e à terra, considerados de extremo significado pelos últimos escolares chineses. Ritos como estes foram observados reverentemente por todos os legisladores chineses através de várias dinastias, até aos primeiros anos da nova república.”
9. Ver capítulo 1, p. 19.
10. J. Legge, The Chinese Classics, vol. 5, p. 109.
11. Ibid., pp. 291-2.
12. Ibid., pp. 47-8.
13. Ibid., p. 607.
14. Ibid., p. 607.


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