Época Feudal

Cerca de 600 a. C., quando os príncipes das províncias de há muito se haviam tomado senhores feudais independentes, o estilo muda de novo e desenvolve uma magnificência profana como nunca se vira na China. As formas da época média Tcheu, consagradas pela tradição real, conservaram-se, sem dúvida, ainda por muito tempo, nos bronzes de sacrifício, mas os contornos e os pormenores obedecem agora a leis mais rigorosas e mais claras. Por outro lado, as formas da Antiguidade reaparecem em grande parte, mas interpretadas com um sentido novo, secular e quase racionalista. Surge uma multidão de outras novidades, quer nos motivos ornamentais quer nas representações, nos materiais ou nas técnicas. Já não é somente o bronze que está ao serviço do sagrado. Este material, outrora extremamente precioso, é agora utilizado em muitos objectos de uso pessoal, como espelhos, caixas de toucador, fivelas de cinturão e fíbulas. Ao mesmo tempo, associa-se o bronze a outros materiais e, em geral, procuram-se os mais variados efeitos de cor, graças a magníficas incrustações de ouro e prata, de jade, de turquesa e de malaquita. Exactamente como os príncipes europeus do século XVIII, os senhores chineses da época feudal (cerca de 600-200 a. C.) rivalizam entre si na profusão das riquezas, na aquisição de objectos preciosos de adorno, no esplendor dos seus palácios, jardins e parques de caça. Infelizmente, nada disto subsiste, exceptuando descrições que mencionam ainda uma rica pintura ornamental e figurativa.
Conhecemos, desde há pouco, finas pinturas sobre laca do século V a. C., por fragmentos decorados e representações figurativas em exemplares do século IV. A mais antiga peça de seda chinesa que se conhece, ornamentada com um motivo de losangos tecidos, data igualmente do século IV e foi encontrada no Altai. Surpreende ver-se aparecer, desde 600 a. C., uma série de motivos figurativos até então desconhecidos na arte chinesa, mas correspondendo a uma antiquíssima tradição da Ásia Menor: faixas entrançadas ou entrelaçadas, rosáceas, círculos de pontos, motivos de virgulas, gotas e pinças. Em si próprio, cada um destes motivos não poderia ter grande significado, mas a aparição simultânea de um número tão grande de temas novos não pode explicar-se senão pelo contacto com a Asia Menor. O aparecimento do motivo da planta, por exemplo, é inteiramente novo na China. Entre os milhares de bronzes sagrados antigos é impossível encontrar a mínima alusão a uma planta, embora se tenha de admitir que é um motivo desde sempre oferecido aos artistas de todo o Mundo.
Nos bronzes vêem-se pela primeira vez, ao mesmo tempo que os motivos decorativos, combates de animais - motivo que pode seguir-se sem interrupção da Acádia do final do terceiro milénio até ao Irão sassânida. Este motivo é completamente desconhecido da Antiguidade Chinesa, e as circunstâncias precisas da sua difusão na arte do Mundo Antigo, a oeste até à Etrúria, como a leste até à China, devem ser ainda objecto de investigações mais aprofundadas, de que muito se tem a esperar. Para mais, na China encontram-se então cenas de caça e de batalhas, nas quais pode o observador menos treinado pode traçar alguma relação com a arte da Ásia central.[...]
Até cerca de 600 a. C., os Chineses lutaram duramente contra os seus vizinhos do Norte; parece que então se estabeleceu a paz, seguida de trocas muito activas. Ora bem, sabemos que um contacto, ou somente a “sugestão” de novas formas, não produz frutos, a menos que estas formas sejam julgadas dignas de imitação. A disposição de aceitar as influências é bastante admissível na China desta época, porque pela sua própria evolução progredia num caminho de secularização, de apreensão racional das coisas e de um gosto acentuado pelos ricos enfeites de cor. Nada indica melhor esta direcção e o carácter deste estilo novo sob o aspecto puramente chinês do que a “caligrafia” das linhas desenhadas pelos artistas e artesãos. Nunca, e em arte alguma do Mundo, se inventaram jogos de linhas tão cheios de fantasia e de espírito como na época do feudalismo chinês.

W. Speiser e E. v. Erdberg-Consten “Extremo Oriente”. Lisboa: verbo, 1969


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