Os primeiros taoístas, por D. H. Smith

As origens do que é conhecido por tauísmo perderam-se nos nevoeiros da antiguidade. Na última metade da dinastia Chou o tauísmo desenvolveu-se com o confucionismo para assim formar uma das principais correntes de pensamento filosófico e religioso. Foi só nos primeiros séculos da era cristã que o tauísmo se desenvolveu como religião organizada, influenciando as vidas e reclamando a aliança de milhões do povo comum. No entanto, as crenças e práticas que caracterizam o tauísmo religioso podem ser atribuídas, pelo menos em gérmen, a tempos muito anteriores, às atividades do adivinho xamanista, às técnicas mágico-religiosas para a cura das doenças, e a um interesse pela longevidade e pela existência depois da morte. Básicas, contudo, do pensamento tauísta, são duas obras filosóficas da maior importância: o Tao-tê-ching e o Livro de Chuang-tzu. (1).
Estas duas obras têm sempre sido de grande fascinação para os chineses. O Tao-tê-ching, atribuído a Lao-tzu, foi tradicionalmente designado como do século VI antes de Cristo, antedatando assim Confúcio. A erudição crítica, no total, embora querendo admitir que o livro contém material dos primeiros tempos, atribuiu o Tao-tê-ching a um escritor anónimo que viveu nos séculos IV ou III antes de Cristo (2). O Livro de Chuang-tzu baseia-se nos ensinamentos de um filósofo desse nome que viveu entre 399 e 295 antes de Cristo. Embora muito do livro fosse indubitavelmente compilado mais tarde, os primeiros sete capítulos são geralmente aceites como da mão do próprio Chuang-tzu (3).
Os primeiros começos do tauísmo vêem-se nesses homens que, suspeitando de uma filosofia ativista que procurava controlar a sociedade humana para seu próprio bem, decidiram escapar das atrações e perigos do posto político e das responsabilidades da vida social a fim de alimentarem a sua vida interior em comunhão com a natureza e em obediência à lei cósmica. No seguimento desse objetivo, muitos tornaram-se eremitas ou ascetas. Acreditando que, por trás de todos os fenômenos complexos levantados pelas transformações incessantes das operações cósmicas, havia uma Grande Unidade (Taiji) ou um princípio eterno, imutável, chamado Tau, esses homens procuravam o significado da vida numa compreensão ou mesmo numa completa identificação com Tau.
Os “Analectos de Confúcio” falam do yin che, isto é, aqueles que se obscureciam a eles próprios procurando fugir do mundo:
Confúcio disse (para Tzu Lu, discípulo de Confúcio): “Debaixo do céu não há ninguém que não seja arrebatado pela mesma corrente. Assim é o mundo, e quem pode mudá-lo? Quanto a ti em vez de seguires os que fogem deste homem e daquele, seria melhor seguires os que evitam toda esta geração de homens”. E com isto ele continuou a tapar a semente. Tzu Lu foi contar ao mestre, que disse tristemente: “A gente não pode juntar-se a pássaros e a animais. Se eu não hei-de ser um homem entre outros homens, então o que hei-de ser? Se o Caminho prevalece debaixo do céu, não devo tentar alterar as coisas”.
(Ana. 18 :6)
Uma vez, quando Tzu-lu seguia (o mestre) ele ficou para trás e encontrou um velho com um cesto pendurado da sua vara. Tzu-lu perguntou-lhe: “Senhor, vistes o meu mestre?” O velho respondeu: “Vós que com os vossos quatro membros não trabalhais, que não peneirais os cinco grãos, quem é o vosso mestre?” E com isto ele espetou a vara no chão e começou a tirar as ervas más, enquanto Tzu-lu ficava perto, de mãos juntas. Ele deu abrigo a Tzu-lu durante a noite, matou uma galinha e apresentou Tzu-lu aos filhos. Tzu-lu disse: “Não está certo recusar servir o nosso país. As leis da idade e da juventude não se podem banir. E como pode estar certo um homem pôr de lado o dever que liga o ministro ao príncipe, ou, no desejo de manter a sua própria integridade, subverter as Grandes Relações? O serviço de um cavalheiro para com o seu país consiste em cumprir tal direito conforme puder. Que o Tau não prevalece, ele sabe-o bem de antemão”.
No dia seguinte Tzu-lu continuou o seu caminho e contou o que acontecera. O mestre disse: “Ele é um asceta”.
(18:7)
Conquanto que muito cedo o tauísmo possa ter sido influenciado por esses homens, o escritor do Tao-tê-ching não foi certamente um deles. O Tao-tê-ching, conforme nós o possuímos, podia quase ser descrito como um tratado político para a época, embora nas profundidades do seu discernimento filosófico fosse certamente muito mais do que isso. Era, contudo, tão interessado no bom governo como o era Confúcio. Os seus ensinamentos não eram para os ascetas mas para os reis sábios. É aniquilador na sua oposição ao governo opressivo e nas tentativas legais ou morais para fazer todos os homens segundo um modelo. Na sua tentativa para libertar os espíritos dos homens de todas as sujeições e artificialismos feitos pelos homens, ensinava a conformidade com a natureza, a relatividade do bem e do mal, e a força da não-ação.
Duas idéias fundamentais caracterizam os primeiros tauístas. Eles desprezavam a pompa, a glória, o prestígio, a riqueza e o poder pelos quais os outros homens lutavam. Isto pode ser mostrado por uma história que se conta de Chuang-tzu (4) o qual, quando convidado pelo Príncipe Wei de Chu para seu primeiro ministro, sorriu e disse aos mensageiros:
Vós ofereceis-me grande riqueza e uma posição orgulhosa, claro; mas não tendes visto o boi do sacrifício? Quando, depois de ter sido engordado durante alguns anos, é ataviado com panos bordados e conduzido ao altar, não trocaria ele de boa vontade o seu lugar pelo de algum desprezado porco ...? Fora! Não me corrompais! Divirto-me mais na lama do que sendo escravo do chefe do estado. Nunca tomarei cargos. Conservar-me-ei assim livre para seguir as minhas próprias inclinações.
Em segundo lugar, os tauístas acreditavam que a vida em si era o maior de todos bens. Por isso, devia ser alimentada e preservada a fim de alcançar a sua finalidade natural. A este respeito, os tauístas foram talvez muito influenciados pelos ensinamentos de Yang-chu, um contemporâneo de Mo-tzu, cuja vida praticamente não se conhece. Ele e os seus sequazes frisavam a importância de conservar a própria vida e guardar o interesse pessoal.
Estas idéias são explicadas, repetidas vezes, na literatura tauísta. O Lu-shih-chu’n-ch’iu diz (5): “A nossa vida é a nossa única possessão e o seu benefício é muito grande. Considerando a sua dignidade, nem a honra de ser imperador se podia comparar com ela. Considerando a sua importância, nem a riqueza de possuir o mundo se trocaria por ela. Considerando a sua segurança, se a perdermos durante uma manhã nunca mais a podemos reaver”. O Tao-tê-ching tem a mesma idéia: “Àquele que, no seu comportamento, se avalia mais do que avalia o mundo, pode-se-lhe dar o mundo. Àquele que, no seu comportamento, ama mais a si próprio do que ama o mundo, pode-se-lhe confiar o mundo” (capítulo 13). “O que é que uma pessoa ama mais, a sua própria vida ou a fama? O que vale mais, a vida de cada um ou a riqueza?” (capítulo 44). E em Chuang-tzu: “Quando fazeis alguma coisa boa, tende cautela com a reputação. Quando fazeis algum mal, tende cautela com o castigo. Segui o meio do caminho, e tomai isto como vosso constante princípio. Depois podeis guardar a vossa pessoa, sustentar os vossos pais, e completar o vosso curso normal de vida” (capítulo 3). “As árvores da montanha são inimigas de si próprias, e o fogo a causa da sua própria extinção. A canela é comestível, por isso a árvore da canela é cortada. O óleo de Chi é útil, por isso as árvores de Chi são golpeadas” (capítulo 4).
O conceito fundamental do Tao-tê-ching é o do Tau, mas o Tau não tem a mesma conotação que tinha para Confúcio. Para os tauístas, é a unidade imutável debaixo de toda a mutável pluralidade do universo, o ímpeto a dar origem a todas as formas de vida e movimento. No Tau todos os opostos estão misturados, todos os contrastes harmonizados. Os tipos mais elevados de homens praticam o Tau, procuram o Tau como um empenho de vida e, tornando-se firmemente estabelecidos no Tau, nunca mais se podem separar dele.
Há uma coisa sem forma e contudo completa. Existia antes do céu e da terra. Sem som, sem substância, ergue-se só, imutável. É dominante e infalível. Podemos imaginá-la como a mãe de todo o céu. Não sabemos o seu nome, mas chamamos-lhe Tau. Obrigado a designá-la, diríamos que é Grande.
(Tao-tê-ching, cap. 25)
Quando um homem da mais alta capacidade escuta o Tau, faz o possível por o pôr em prática.
(Cap. 41)
Porque o Tau realiza todas as coisas, não de propósito mas espontaneamente, e é a norma fundamental de todas as coisas, os que modelam pelo Tau devem igualmente aprender a ser naturais e espontâneos. Não há necessidade de lutar ou de se defender.
O sábio, pondo-se no fundo, está sempre à frente; conservando-se de fora, está sempre ali.
(Tao-tê-ching, cap. 7)
Ele não se mostra, no entanto é visto em toda a parte. Não se define, no entanto é distinto. Não se defende, no entanto aguenta-o. Não luta, no entanto ninguém no mundo pode lutar com ele.
(cap. 22)
Até onde é possível chamar aos filósofos do primeiro tauísmo religioso? Certamente, quanto à expressão formal de religião, eram indiferentes. Eles viam pouco valor nesses ritos e cerimônias tradicionais amados pelos confucionistas. Eles ultrajavam o senso confucionista de decoro com o seu desinteresse pelo cerimonial. A sua falta de respeito pela convenção é apresentada no caso de Chuang-tzu que, quando a mulher lhe morreu, foi encontrado à porta de casa a cantar e a bater o compasso numa tigela de madeira.
“Viver com a esposa” exclamou Hui-tzu “e ver o filho primogênito crescer e fazer-se homem, e depois não verter uma lágrima sobre o cadáver -seria bastante mau. Mas tamborilar numa tigela e cantar, de certeza que é de mais!” “De modo algum” replicou Chuang-tzu. “Quando ela morreu não pude deixar de ser afetado pela sua morte, mas em breve me lembrou que ela tinha já existido num estado prévio antes do nascimento, sem forma nem mesmo substância, que, enquanto nessa condição incondicional, a substância foi reunida ao espírito, que essa substância depois assumiu forma, e que a próxima fase foi o nascimento. E agora, por virtude de mais uma mudança, ela está morta, passando de uma fase para outra, como a seqüência da Primavera, Verão, Outono e Inverno. E enquanto ela está assim, adormecida na eternidade, se eu chorasse e gemesse seria proclamar-me ignorante dessas leis naturais. Por isso, contenho-me”.
(Chuang-tzu, cap. 18)
A citação acima é interessante no que mostra de crença na vida como um incidente dentro de um processo eterno e constante de transformação, e conforme Chuang-tzu aponta algures, as experiências da alegria e da felicidade nesta vida dão fé e esperança para crer que as experiências de transformações futuras serão igualmente alegres.
Os tauístas criticavam os padrões aceites do certo e do errado, do bem e do mal. Eram agnósticos quanto a uma divindade pessoal e à vida depois da morte, e refugiavam-se numa forma extrema de naturalismo. No entanto, na sua procura da harmonia perfeita com o Tau, eles entraram com toda a seriedade, no que era da natureza de uma procura religiosa. No seguimento do seu objetivo comprometeram-se em feitos de auto-disciplina e ascetismo, o que, por vezes, parece ter resultado em profundo conhecimento místico. Falavam do “jejum do espírito”, em “sentar-se em esquecimento” e em “regressar à raiz” (Tau). Há passagens em Chuang-tzu. por exemplo, não só famosas pela sua beleza lírica, mas revelando um espírito que, enfrentado pelo mistério impenetrável do universo, persiste na procura da serenidade e da paz interior, pelo conhecimento do Eterno e do Absoluto e pela perfeição no Tau.
Wing-tsit Chan alvitrou que o naturalismo de Chuang-tzu é tão forte que qualquer Deus pessoal ou alguém que dirija o movimento das coisas está nitidamente fora de harmonia com a sua filosofia (6). Todavia, embora Chuang-tzu seja agnóstico, ele sugere que existe uma Individualidade que, apesar de não ter forma física, se manifesta em atividade humana e que, do mesmo modo, existe uma Individualidade do universo, um “Verdadeiro Senhor” que se manifesta dentro das atividades da natureza.
Sem eles (isto é, sentimentos de ira, prazer, dor, alegria, etc.) não existiria Eu. E sem Mim quem os experimentaria? Eles estão junto de nós, mas não sabemos quem os originou. Parece que há um Verdadeiro Senhor que faz isso, mas não há indicação da sua existência.
(Chuang-tzu, cap. 2)
H. A. Giles (7) escreve a respeito de Chuang-tzu que ele “concebe a alma como uma emanação de Deus, passando para a terra, e da terra, através dos portais do nascimento e da morte”. Várias vezes ele usa o termo “Deus” na sua tradução, como, por exemplo, “Somos abrangidos na unidade destruidora de Deus” (p. 46), “Aquele que sabe o que Deus é e o que o homem é, vence. Sabendo o que Deus é, sabe que ele próprio procedeu daí” (p. 71); “Verdadeiramente, Deus é grande! Pergunto a mim mesmo o que é que ele fará de vós agora? Pergunto a mim mesmo para onde sereis enviado”. (p. 80); “Os antigos que compreendiam o Tau, primeiro compreendiam Deus. O Tau vinha a seguir, e depois a caridade e o dever para com o próximo” (p. 135); “Se o meu corpo não é meu, dizei-me de quem é. É a imagem de Deus” (p. 212); “Aqueles que são constantes são procurados pelos homens e assistidos por Deus. Os que são procurados pelos homens são gente de Deus. Os que são assistidos por Deus são os seus filhos escolhidos” (p. 225); “O conhecimento de um homem é limitado, mas do que ele faz e não do que ele sabe é que depende a sua apreensão de Deus. O conhecimento de Alguém Grande, do grande Negativo, da Grande Nomenclatura, da grande Uniformidade, do grande Espaço, da grande Verdade, da grande Lei -isso é a perfeição” (p. 246). Supondo que o caráter chinês traduzido por Giles é Tien, que os comentadores chineses têm geralmente considerado como um princípio puramente natural, já vimos que no tratamento de Confúcio e de Mo-tzu este caráter designa algo que não está longe da divindade antropomórfica da religião primitiva, e em Chuang-tzu é quase impossível, por vezes, dar ao caráter qualquer outra conotação senão a de “Deus”.
Embora Chuang-tzu acreditasse na relatividade de todo o conhecimento e experiência, e comparasse a vida a um sonho, parece reter uma esperança de que depois da morte há-de vir um grande despertar. Ele ensina que não há necessidade de temer a morte, visto que é uma transformação perfeitamente natural.
Como sei que amar a vida não é uma ilusão? E como sei que temer a morte não é como um homem que perdeu o seu lar em menino e não sabe o caminho de volta para lá?
(Chuang-tzu, cap. 2)
Finalmente vem o grande despertar, e então saberemos que a vida é um grande sonho.
(cap. 2)
Os homens puros da antiguidade nem sabiam amar a vida nem odiar a morte. Não se regozijavam com o nascimento nem repeliam a morte. Sendo assim o homem puro, o seu espírito está perfeitamente sossegado.
(cap. 6)
A morte e a vida estão destinadas, e o fato de elas serem reguladas como a sucessão das noites e dos dias deve-se ao céu, para além da interferência humana e da natureza das coisas. Alguns homens consideram o céu como um pai e amam-no com todo o seu ser. Quanto mais eles não amariam o que ultrapassa o céu! Alguns homens consideram o governante como superior a eles próprios e estão preparados para morrer por ele. Quanto mais não deviam estar preparados para morrer pelo verdadeiro governante (do universo)!
(cap. 6)
É assunto de especial prazer ter atingido a forma humana. Mas se a forma humana atravessou dez mil transformações sem limite, quão incomparável não seria essa alegria! Por isso o sábio vagueia livremente no reino onde nada se perde mas tudo permanece. Os que consideram igual a morte prematura, a velhice, o começo e o fim são seguidos por outros. Mas muito mais devia ser seguido aquilo de que todas as coisas dependem e a causa de todas as transformações.
(cap. 6)
Nas duas citações anteriores Chuang-tzu mostra uma fé religiosa, fé em Alguém que dirige o universo e também o destino dos homens. Esse Supremo Ser deve ser o objeto do amor, da obediência e do serviço dos homens, e um ser de quem os homens podem depender absolutamente. Depois, ele iguala esse Ser Supremo a Tau.
Tau tem realidade e evidência, mas é sem ação ou forma. Pode ser transmitido mas não recebido. Pode ser obtido mas não visto. Antes de o céu e a terra existirem, o Tau existia desde toda a eternidade. Deu a divindade aos espíritos e aos reis divinizados. Deu origem ao céu e à terra.
(Chuang-tzu, cap. 6)
O Tao-tê-ching revela um sentimento de medo e espanto diante da grandeza daquilo que está por trás do universo, a majestade do ilimitado Tau. No primeiro capítulo fala do Tau como o Mistério, o Mistério dos Mistérios, a Porta de todas as Maravilhas. O tema é continuado por Chuang-tzu. O homem e uma criatura fraca e a sua vida evanescente como um sonho. O homem deve aceitar o seu destino e procurar cumprir esse destino agindo sempre em conformidade com Tau.
Eis um fundidor a fundir metal. Se o metal salta e diz: “Eu devo ser feito numa espada especialmente temperada (mo-yeh)) o fundidor considerará o metal como de mau agouro. Ora, ao formar-se um homem, suponhamos que ele grita: “Fazei de mim um homem, fazei de mim um homem”, então o criador considerá-lo-á mau. Se imaginarmos o universo como uma grande fornalha e o criador como um fundidor, poderei objetar quanto ao modo como fui manufaturado?
(Chuang-tzu, cap. 6)
Há um elemento de misticismo em Chuang-tzu que derivou do seu anseio pela liberdade espiritual, pela espontaneidade e pela harmonia perfeita com as forças cósmicas que sustentavam e transformavam constantemente o mundo da natureza. Este misticismo, que caracterizou muitos dos primeiros tauístas, é exemplificado numa história que o autor do Livro de Chuang-tzu inventa relativamente a Confúcio. De acordo com a história, Tzu-kung, um discípulo de Confúcio, choca-se por encontrar homens a cantarem e a brincarem na presença da morte, e pergunta ao mestre se tal conduta pode estar em conformidade com a conveniência.
“Que espécie de homens são aqueles?” pergunta Tzu-Kung. “Não há nada apropriado na sua conduta e eles consideram o seu corpo como externo a eles próprios. Aproximam-se do cadáver e cantam sem mudarem de cor. Não sei como lhes chamar. Que espécie de homens são eles?” Confúcio replicou: “Eles viajam no mundo transcendente e eu viajo no mundo mundano. Não há nada em comum entre os dois mundos. E mandei-te lá para prantear a morte! Que estúpido! Eles são companheiros do Criador, e vagueiam no universo da única e original força criadora (chi). Consideram a vida como um fardo, como um tumor, e a morte como a extração de um abscesso. Sendo estas as suas idéias, que lhes importa a vida e a morte, o começo ou o fim? Para eles a vida é apenas uma existência temporária de vários elementos num corpo comum que lhes foi emprestado. Não têm consciência de sensações nem de emoções. Vão e vêm, começam e acabam, e nenhum sabe quando todas essas coisas pararão. Sem qualquer apego, vagueiam para além do mundo poeirento e divagam no estado original da não-ação”.
(Chuang-tzu, cap. 6)
O verdadeiro sábio habita como uma codorniz e alimenta-se como uma avezinha. Viaja como um pássaro, sem deixar rasto. Se houver Tau no império, ele e todas as coisas estão em harmonia. Se não houver Tau, cultiva a virtude em solidão. Após mil anos deste fatigado mundo, sobe às alturas, e, montando as nuvens brancas, passa para o Reino de Deus onde os três males não chegam e onde descansa seguro na eternidade.
(cap. 12)
O verdadeiro sábio, tomando o seu lugar sobre a beleza do universo, penetra o princípio das coisas criadas. Dai o dito de que o homem perfeito não faz nada, o verdadeiro sábio não realiza nada, além da contemplação do universo. Pois o intelecto do homem, por mais esperto, face a face com as evoluções sem fim das coisas, a sua morte e nascimento, a sua forma quadrada e redonda -nunca pode alcançar a raiz. Ai está a criação e aí tem estado sempre.
(capítulo 22)
Se o Tau é todo o ser e todo o fim da existência do homem, a base do seu ser e a meta do seu esforço, como pode ele atingir o conhecimento do perfeito Tau? É esta uma pergunta que os tauístas fazem repetidas vezes. Chuang-tzu tem a certeza de que a pergunta só pode ser respondida após uma intensa disciplina espiritual e profunda meditação. O homem tem de aprender a arrancar o véu que esconde o Tau e a derrubar as barreiras que o orgulho, o amor-próprio, a moralidade convencional e o decoro erigiram contra o Tau. Deve tornar-se como um “bloco não talhado”, como um “menino desamparado”. “Deve voltar à raiz”.
Não pode ser conhecido por meio de extenso estudo, nem por habilidade dialética se pode tornar claro. O verdadeiro sábio não possui nada disso. É na adição sem ganho, na diminuição sem perda, que o verdadeiro sábio encontra a salvação. Insondável como o mar, acabando maravilhosamente para começar outra vez, dando forma a toda a criação sem se fatigar, o Tau do homem perfeito é espontâneo nas suas operações.
(Chuang-tzu, cap. 22)
Purificai o vosso coração com jejum e disciplina. Lavai a vossa alma até ficar branca como a neve. Bani os vossos conhecimentos. Tau é obscuro e difícil de discutir.
(cap. 22)
O Tau não pode ser ouvido, não o Tau. Tau não pode ser visto. Visto, não é Tau. Não pode ser falado. Falado, não é Tau. Aquilo que dá forma às formas é ele próprio sem forma. Por isso Tau não pode ter nome. (cap. 22)

Notas
1. Conforme Holmes Welch, The Parting of the Way, Boston, 1957, pp. 4-5, o Tao Tê Ching foi traduzido para inglês trinta e seis vezes. Proclama ele que “nenhuma tradução pode ser em si mesma satisfatória porque nenhuma tradução pode ser tão ambígua como o original chinês”. Uma tradução mais útil por Arthur Walley, The Way and its Power, Londres 1934, contém uma introdução excelente e notas auxiliares. Necessita-se duma tradução nova e atualizada do Book of Chuang-tzu. A tradução de H. A. Giles, Chu-ang-tzu: Taoist Philosopher and Chinese Mystic, Londres, 1889, foi reeditada em 1961. A tradução de J. Legge, Texts of Taoism, vol 1, Londres, 1891, é ainda de grande valor para o estudante.
2. Para uma discussão da proveniência e data do Tao Tê Ching ver A. Waley, The Way and its Power, pp. 86 ff.; W. T. Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, Londres, 1963, pp. 136 ff.; C. Burton Day, The Philosophers of China, Londres, 1962, pp. 16-18; Fung Yu-lan, History of Chinese Philosophy, vol. 1, Prínceton, 1951, p. 172.
3. Ver W. T. Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, p. 179, nota.
4. Ver H. A. Giles, Chuang-tzu, pp. 11-12.
5. O Lü-shih-ch’un-ch’iu (séc. III AC?) foi indubitavelmente grande-mente influenciado pelo pensamento tauísta. A citação é extraída do capítulo sobre “A Importância de Viver”.
6. W. T. Chan, A Source Book in Chinese Philosophy, p. 181.
7. H. A. Giles, Chuang-tzu: Taoist Philosopher and Chinese Mystic, p. 36.


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