O século 15 - a escola de Chekiang e de Wu

Com o século XV parece que renasce na China a arte na época Song. O imperador Sinan-to (1426 - 1435), que também pintava, fez com que viesse para a corte de Pequim um grupo de mestres da antiga capital Song - Hang-Cheu e arredores -, que pintavam segundo o estilo da Antiga Academia. Quanto a escultura, a história da arte pouco se ocupou ainda com a “época tardia”, a pretexto de que as obras posteriores à época Tang não merecem ser consideradas. O que possuímos quanto a inscrições autênticas e a obras que podem datar-se não é muito importante e, entre as raras peças de que dispomos, uma figura de bronze representando uma divindade tauista ainda não determinada, de 1424, não incita de modo algum a combater o preconceito geral. Todavia, mostra que o sentido plástico não estava inteiramente morto na China e que ainda se sabia muito bem modelar uma forma e fundi-la depois no material suave e fluido que é o bronze. [...]
Estando a pintura volta a moda, na China, todavia, é impossível recomeçar literalmente uma arte, e mesmo um grande mestre não o conseguiria, ainda que o desejasse. Assim, as obras da Escola de Che-kiang, que floresce por volta de 1500, ganham em breve um aspecto diferente dos seus modelos dos anos 1200. A atmosfera, o assunto cheio de sentimento, esbatem-se perante os temas narrativos, que, contudo, podem ter desempenhado na época Song um papel mais importante do que se possa hoje imaginar.
Assinalemos, por exemplo uma pintura de Sin Lin, um dos grandes pintores de Chekiang, que cerca de 1500 vivia, muito respeitado, na corte de Pequim. Trata-se da Paisagem de Inverno, que faz parte da série perfeitamente conservada das paisagens nas quatro estações do ano, tendo cada uma a sua cena. Sin Lin não inventou esta, que, visivelmente, foi retomada fielmente de uma obra de Li Long-mien e transposta para o género em voga no seu tempo.
Trata-se da história, muito apreciada, de Yuan-An, que vivia nos tempos dos Han. Houvera então uma grande penúria, devido à queda de muita neve, e todas as comunicações estavam interrompidas, enquanto muitos habitantes morriam de fome. Fizeram-se esforços de auxílio e, numa dessas diligências, chegou-se a uma quinta bloqueada pela neve onde se não via nenhum sinal de pegadas. Com grande surpresa dos salvadores, Yuan-An estava na sua cama, lendo placidamente, embora sofresse com a fome. Perguntando-se-lhe por que não tentava, como todos, encontrar algo para comer, deu uma célebre resposta: “A escassez é tamanha que ninguém tem nada para dar; e, assim, é inútil diminuir ainda mais as magras rações alheias”. Yuan- An tornou-se pouco depois um alto funcionário e o modelo da isenção e da incorruptibilidade. Na pintura de Lin Sin lê-se esta quadra:
Dorme na neve e no vento, a sua porta está fechada,
Passou além da fome, de todo cuidado se libertou.
Porque iria fugir do frio, introduzir-se na idéia dos outros,
Porque iria à cidade pedir que se ocupassem dele?
Havia mil anos que os pintores cultivavam freqüentemente este tema - nomeadamente um mestre tão importante como Li Long-mien, cerca de 1100. A sua pintura perdeu-se, mas existe uma descrição datada de 1600, publicada por Song Tcheng-tsé, no seu Keng-tsu Hsiau-Hsia-tchi, e traduzida por A. E. Meyer, na sua exaustiva monografia sobre Li Long-mien. Eis a descrição:
Numa paisagem de inverno, com altas montanhas cobertas por árvores, vê-se Yuan-An deitado. O seu rosto manifesta a expressão de uma serena indiferença. O prefeito chega a cavalo. Um homem, perto dele, conduz a montada, enquanto outra personagem o abriga com um guarda-sol. Parecem estar já de partida, quando um homem bate à porta e volta a cabeça, pronto a segui-los.
Estamos habilitados a relacionar tão exactamente a representação e a descrição que nos seria possível fazer uma idéia, pelo menos aproximativa, da obra perdida de Li Long-mien e da pintura das personagens, tão apreciada então.
Além da Escola de Chekiang, havia na China, por volta de 1500, um grande número de outros mestres eminentes que se mantinha afastado de Pequim e da sua corte. São agrupados sob o nome de Escola de Wu, porque os seus mais notáveis representantes, os quatro grandes mestres da época Ming, viviam em Su-Tcheu, na antiga província de Wu, e, com uma excepção apenas, eram originários daí. Não possuíam decerto o desejo de pintar por encomenda do imperador ou dos seus amigos, segundo os princípios da Academia Song.
Chen Tcheu, T'ang Ying e Wen Tcheng-ming eram pessoas de alta cultura, independentes e ricos, suficiente- mente artistas e grandes senhores para admitirem no seu círculo e ajudarem Kieu Ying, pobre mas muito dotado, que não passara por exame algum e que primeiro tivera que ganhar o seu sustento como operário laquista.
Chen Tcheu e T'ang Ying contavam-se igualmente entre os melhores poetas do século XV. Os quatro mestres tinham um verdadeiro amor pelos versos de Sin Lin, que atrás citámos e não seguiam as idéias de qualquer outro. T'ang Ying contentava-se em pintar muito cuidadosamente personagens e figuras de mulheres; Kieu Ying era até considerado um especialista do género mas, como os outros, pintava excelentes paisagens no «estilo literário», ou seja, consoante as idéias dos membros deste círculo, para quem um poema valia mais do que um favor imperial. Gostavam ainda de pintar algumas flores ou rochedos - a que se dava o nome de «jogos de tinta», e que são mais exercícios gráficos do que representações objectivas.
Neste género dos «jogos de tinta» podem classificar-se os Crisântemos, de Wen Tcheng-ming; este tema simples e exacto é freqüentemente utilizado pelos pintores letrados, homens de grande cultura para quem a arte, de acordo com a exigência de Confúcio, era uma distracção, e que não concebiam nem a poesia nem a pintura como um modo de vida.
Na aguada de Tcheng-ming encontra-se este breve poema:
Pesam com a geada as flores no nono mês de Outono
E parecem abandonadas as estacas dos crisântemos.
Mas Yuan-ming gostava imenso de vê-Ias
E todos os dias passava em torno da sebe do leste.
No Extremo Oriente estes versos singelos não precisam de comentário, pois que todos, e não somente os letrados, conhecem o poema da Sebe do Leste de T'ao Yuan-ming (365-427):
Construí a minha casa no meio do país dos homens,
Mas não se ouve nela o ruído da sua passagem.
E, se me perguntas a razão, eu digo:
Tenho o coração muito longe - estiolou por si.
Na sebe do lado leste ociosamente apanho crisântemos;
Vejo do meu local tranqüilo a Montanha do Sul,
Com um sopro tão belo ao crepúsculo.
Filas de pássaros voam aos pares.
Tudo isto tem um profundo sentido,
E bem o queria dizer - mas esqueci a palavra.
Graças a estes versos, os crisântemos tornaram-se, desde há um milénio e meio, no Extremo Oriente, o símbolo da vida simples e natural, perpassada pela melancolia do Outono e da renúncia, afastada do vasto mundo.

W. Speiser e E. v. Erdberg-Consten “Extremo Oriente”. Lisboa: verbo, 1969


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