O Rito do Calendário, por Ricardo Joppert

Como o Soberano era o mediador entre o Céu e a Terra, ele deveria, num palácio chamado Mingtang ("Assembléia da Luz"), simbolo de seu Reino, acompanhar o curso das estações. O Mingtang compunha-se de nove salas, que formavam um quadrilátero e correspondiam às nove províncias da China. Em cada uma delas, o Soberano cumpria mensalmente ritos sazonais adequados. Assim, o Imperador fazia eco ao ciclo sucessório dos Elementos e mantinha a harmonia do macrocosmo e microcosmo. Segundo o Yue Ling, os Elementos sucedem-se por produção e na seguinte ordem: madeira, fogo, terra, metal e água. A madeira é consumida pelo fogo e produz terra (= cinza); os minerais são, por sua vez, produzidos pela terra, pois nela se encontram e, liquefeitos pelo fogo, tomam a aparência da água (isto é, produzem liquido). Cada Elemento, correspondente a uma estação do ano (menos a Terra, elemento neutro, colocado no centro e equivalente a um mês ideal de repouso), gera atividades que não devem ser as mesmas para todos os meses. Assim, por exemplo, no primeiro mês de primavera (do ano lunar, que era o vigorante na China), toda diligência deveria voltar-se para trabalhos de semeadura. O próprio Soberano mune-se de um arado e sulca a terra, simbolizando a desfloração da virgindade do solo, a abertura do caminho à sua fecundação e à influência geradora do Céu, influência essa representada pela chuva, o sêmen divino. Preparam-se os trabalhos agrícolas. Proibe-se o corte de árvores e a destruição de ninhos. Nenhuma cria ou fêmea animal devem ser mortas, a fim de não atrapalhar o fluxo positivo de vida na Natureza. Na época de germinação toda guerra fica interdita. Durante cada mês de primavera, o Filho do Céu ocupa um dos três quartos do Mingtang situados a leste e neles circula ritualmente num carro em forma de fênix ornamentado de bandeiras verdes, ao qual se atrelam dragões verdes. O Soberano veste-se de verde, cor da Primavera, e adorna-se de jade, a fim de estar em harmonia com a cor dos bosques. Nos meses de verão, o Filho do Céu passa a morar nas salas do lado sul do Mingtang (na China antiga, a posição do sul era invertida em relação à que lhe atribuímos no Ocidente, isto é, os aposentos do sul, no Mingtang, ficavam no ápice do quadrilátero do edifício). O carro em que circula é então vermelho, bem como as vestes do Soberano e os jades ornamentais. Os cavalos são ruços, de caudas negras. O fogo, elemento do verão, tem a propriedade de elevar-se: proibidos são, pois, os trabalhos que impliquem em aplainar a terra, bem como em cortar árvores altas. Indultos são concedidos aos criminosos. Recomenda-se o retiro e evita-se o excesso de agitação. É o momento da separação máxima entre o Yin e o Yang e, portanto, tudo convida à meditação e não às atividades corporais. A vida sexual, própria da primavera, deve reduzir-se ao mínimo. O sopro vital deve ser conservado e não sofrer agitações através de paixões. No verão não se fazem guerras. Seguindo-se ao terceiro mês de verão, há um período intermediário em que o Filho do Céu, no aposento central do quadrilátero do Mingtang, simboliza estar no eixo de seu reino. De lá ele observa o "ciclo dos astros em torno da Viga Celeste (Tianji)", constituída essa pela constelação da Ursa Maior. O Filho do Céu veste-se então de amarelo (cor da terra), circula num grande carro feito de uma prancha quadrada (símbolo da Terra), a qual cobre um pálio arredondado (símbolo do Céu). O Imperador, colocando-se entre um e outro símbolos, representa o Intermediário Supremo no eixo do mundo. O Outono, por sua vez, é uma estação de justiça e repressão. É quando o Yang, força positiva, declina e perde terreno para o Yin, pólo negativo. O Filho do Céu, acompanhando o ritmo natural do Universo, passa a viver a oeste do Mingtang, lado do sol poente. O gavião lança-se, no outono, à caça e à morte. O Soberano imita-o e circula em seu carro de guerra, ao qual se atrelam cavalos brancos de crinas negras. O Filho do Céu veste-se de branco, cor do luto na China. Seus jades são brancos e ele alimenta-se de plantas fibrosas e carne de cão. Impera o metal, elemento de que se fazem as armas. No Outono é propício castigar os opressores e os negligentes. As prisões são reparadas. O Céu e a Terra começam a mostrar seu rigor. A pena de morte pode, então, ser aplicada aos crimes sérios. Não há mais liberalidade e feudos não podem ser distribuídos aos vassalos: a época é de recolher e não de conceder. Devem construir-se muralhas e edificar-se cidades. Os depósitos de cereais devem estar repletos, à espera do Inverno. No último mês do Outono, há o retorno dos campos, onde se passa a vida na primavera e no verão; o fogo, que se acendera nas regiões do plantio, "é levado às cidades e vilas". Interrompem-se as atividades nos campos. No Inverno, o Filho do Céu retira-se para a "Sala Escura" (Xuantang) no Mingtang, situada ao norte do Palácio (isto é, na parte inferior do quadrilátero, pois como o norte corresponde ao elemento água, sua propriedade é descer e não elevar-se, como o fogo). "O Sopro Celeste ausenta-se da Terra; o Sopro Terrestre afunda num abismo". Como no Verão, quando existe um afastamento entre Céu e Terra, também no Inverno (já que os opostos se tocam) "não há mais comunicação entre um e outro". "Tudo está finalizado, tudo está fechado: é então que o Inverno s'e instala". Para aumentar a energia vital e renovar as alianças humanas, organizam-se grandes festas, em que todos se alcolizam. O Soberano, no Xuantang, circula num carro de cor escura, ao qual se atrelam corcéis cinza-ferro. Suas roupagens são negras, ornamentadas de jade azul- escuro. Como no verão, o sábio, no momento em que Yin e o Yang estão em conflito, retira-se e permanece em repouso. Ele procura atingir uma paz interior que auxilia o Yin e o Yang a reencontrarem tranqüilidade. Sacrifícios são realizados no último mês de inverno, a fim de que o novo ano, já próximo, seja propicio. Finalmente, o Rei promulga um novo calendário.


Voltar para Religião e Mitologia