O Livro dos Rituais, por D. H. Smith

O Li Chi, ou “Registros sobre o Cerimonial” foi compilado durante o século I antes de Cristo de documentos de várias idades que tinham sido transmitidos da dinastia Chou. Contém seções que são idênticas às partes das Obras de Hsun-tzu, e parece haver poucas dúvidas de que essas passagens fossem copiadas para o Clássico dessa obra do filósofo. O Li Chi está indubitavelmente em grande débito para com ele. Também contém muito que é transparentemente legalista ou tauísta, e também incorpora teorias de Yin e Yang e das cinco forças elementares que formam o universo. Assim, o Clássico explica as tendências sincretistas da dinastia Han, quando a ortodoxia confucionista recebia no seu sistema as idéias principais de outras escolas de pensamento.
Ê do Li Chi que obtemos um conhecimento dos usos cerimoniais, das práticas rituais e das crenças religiosas que eram correntes nos círculos oficiais durante as últimas décadas da dinastia Chou. O Li Chi refere-se à obrigação ritual do rei fazer uma viagem de inspeção pelos seus domínios de cinco em cinco anos. Era como “Filho do Céu”, vice-rei de Deus na terra, que ele cumpria o seu dever. Uma finalidade importante dessa inspeção era examinar a relação entre o mundo dos espíritos e os homens, corrigir quaisquer atos de irreverência, e em lugares apropriados, fazer sacrifícios aos deuses;
O Filho do Céu, de cinco em cinco anos, fazia uma viagem de inspeção pela terra. No segundo mês do ano visitava os do leste, indo à venerada montanha de Tai. Ai ele queimava uma grande pilha de madeira e anunciava a sua chegada ao céu; e com os olhares dirigidos para eles, sacrificava à colina e aos rios. Se algum dos espíritos das colinas e dos rios não recebia atenção, era considerado um ato de irreverência.
(Li Chi, 3 2; 13-15)
No segundo mês, num dia afortunado escolhido pela adivinhação, o povo tinha ordens de sacrificar aos espíritos da terra.
(4 2; 1,7)
Eram dadas ordens (no segundo mês de Verão) aos oficiais, para rezarem pelo povo, e oferecer sacrifícios aos espíritos das colinas, das correntes e de todas as fontes. Isto era seguido pelo grande sacrifício de Verão, a Deus, a pedir chuva, em que se empregavam todos os instrumentos de música. Eram dadas ordens em todos os distritos para sacrificar ao (manes de) vários príncipes, ministros e oficiais que tivessem beneficiado o povo, rezando para que pudessem ter uma boa colheita.
(4 : 2; 2,8)
No primeiro mês do Inverno, o filho do céu reza aos venerados no céu para o ano que vem; sacrifica um boi, um carneiro e um boi castrado, nos altares públicos, aos espíritos da terra, e às portas das cidades e das aldeias; oferece um sacrifício, três dias depois do solstício de Inverno, com os espólios da caça, a todos os antepassados e aos cinco sacrifícios (da família).
(4 : 4; 1,19)
O filho do céu envia ordens aos próprios oficiais e sacrifica aos (espíritos que presidem nos) quatro mares, nos rios grandes com as suas famosas fontes, nos lagos profundos, nos pântanos, poços e fontes.
(4 4; 2,10)
As citações acima são suficientes para ilustrar a forte crença de que a vida humana e o bem-estar dos homens estavam intimamente ligados a um mundo populoso e ubíquo de espíritos cuja boa vontade tinha de ser mantida por ritos apropriados e por sacrifícios:
Como o sistema sacrifical com os seus rituais complicados era benéfico a toda a terra, era necessário que o povo comum entendesse o que estava a ser feito em seu nome pelo governante.
Os antigos reis preocupavam-se com medo de que os usos cerimoniais não fossem compreendidos pelos que lhes ficavam abaixo. Por isso eles sacrificam a Deus no subúrbio (da capital) e assim o lugar do céu ficava estabelecido. Sacrificavam nos altares de terra dentro da capital e assim eram iniciados os benefícios derivados da terra. O sacrifício no templo ancestral dava o seu lugar fundamental aos sentimentos da humanidade. Os dos altares das colinas e dos rios serviam para marcar a sua comunicação com o espírito que respirava (na natureza). Os seus cinco sacrifícios (do lar) provam um reconhecimento dos vários negócios a realizar.
Pela mesma razão, há oficiais que assistem à oração no templo ancestral; os três ministros ducais na corte; as três classes de homens velhos no colégio. Em frente do rei, havia os feiticeiros, e por trás dele os cronistas, os adivinhos da concha de tartaruga e dos caules, os músicos cegos e os seus ajudantes estavam todo à esquerda e à direita. Ele próprio ficava ao centro.
(Li Chi, 7 :4; 2)
Os altares erigidos para o culto dos espíritos da terra e das sementes (shê chi) parecem ter sido o ponto importante dessas cerimônias religiosas que se realizavam a fim de assegurar a prosperidade dos estados. Na enfeudação de um senhor vassalo, este recebia do seu rei um torrão para incorporar no altar shê. Se o estado fosse por qualquer razão destruído, o altar era coberto de modo a que não pudesse receber mais as influências benéficas do céu e da terra;
No altar shê eles sacrificavam aos espíritos da terra ... O grande altar shê do filho do céu estava aberto para receber a branca geada, o orvalho, o vento e a chuva e permitir que as influências do céu e da terra tivessem o seu completo desenvolvimento sobre ele. Por esta razão, o altar shê de um estado que tivesse perecido era coberto com telhado, para que não fosse tocado pelo brilho nem o calor do céu. Nos sacrifícios no altar shê eles lidavam com a terra como se esta fosse um espírito. A terra sustentava todas as coisas, enquanto que o céu arvorava os seus brilhantes signos. Eles derivavam da terra os seus recursos naturais; derivavam os governantes (para as suas carreiras de labor) do céu. Assim, eram induzidos a venerar o céu e a amar a terra.
(Li Chi, 9 : 20-1)
A relação íntima entre o bom governo e o culto do céu e da hoste de seres espirituais é indicada nas passagens seguintes.
O governo é o meio pelo qual o governante guarda e protege a sua pessoa, e portanto deve ter uma ligação fundamental com o céu. O céu usa um número de caminhos para enviar cá para baixo as intimações da sua vontade.
(Li Chi, 7 :2; 12)
O sábio forma um ternário como o céu e a terra, e fica lado a lado com os seres espirituais, para a boa ordem do governo.
(7 :2; 13)
Os processos pelos quais o universo é ordenado e governado são fixados e determinados. Tudo segue o seu modelo prescrito e a sua seqüência. A elevação do saber é, por isso, para o governante levar o seu povo a uma compreensão e uma perfeita conformidade com esses processos. O Li Chi foi muito influenciado pelas duas teorias as quais, embora tendo provavelmente a sua origem na obscura antiguidade, acharam formulação filosófica durante o século IV antes de Cristo. Uma é a teoria dos Cinco Agentes ou Elementos que formam a base do cosmos. A outra é a teoria das duas forças primárias e complementares, a Yin e a Yang, de cuja constante ação recíproca procediam todos os fenômenos.
De acordo com a teoria dos Cinco Agentes (wu hsing), os constituintes básicos do universo são: a madeira, o fogo, a terra, o metal e a água, e estes sucediam-se uns aos outros no exercício duma influência dominante tanto sobre os acontecimentos humanos como naturais. Conforme Wing-tsi Chan escreve (21):
Cada um dos cinco agentes sucede-se aos outros, de acordo com a sua função oficial, pela realização da sua capacidade. Assim, a madeira ocupa o quarteirão oriental e regula as forças da Primavera. O fogo ocupa o quarteirão sul e regula as forças do Verão. O metal ocupa o quarteirão ocidental e regula as forças do Outono, e a água ocupa o quarteirão norte e regula as forças do Inverno. Por esta razão, a madeira regula a produção; o metal, a destruição; o fogo, o calor; e a água, o frio ... A terra ocupa o centro e é um benfeitor natural ... Assim, entre os Cinco Agentes e as quatro estações, a terra inclui-os a todos.
A filosofia de Yin e de Yang foi compreendida na ortodoxia confucionista porque fornecia uma simples mas profunda explicação do mundo, abraçando todos os aspetos da vida, desde a constituição física do universo à vida pessoal, social e política do homem. Yin é o princípio fêmea, negativo, receptivo, passivo, aquiescente; Yang está em fluxo constante, e deriva da mistura e da harmonia dessas duas forças. Yin e Yang alternam-se em círculos de modo que um é dominante enquanto o outro é receptivo.
Na vida religiosa do povo chinês, há dois períodos do ano de especial significado: os solstícios de Verão e de Inverno, pois era nesses períodos que Yang e Yin respectivamente, tendo alcançado o máximo da sua influência, começavam a fundir-se um no outro. Essas ocasiões eram consideradas de excepcional perigo para a humanidade e conseqüentemente os homens deviam tomar precauções extraordinárias:
Nesse mês (o segundo mês do Verão) chega o dia maior. As influências, na natureza, da escuridão e da ruína (Yin) e as de brilho e desenvolvimento (Yang) lutam entre si. As tendências para a morte e para a vida estão divididas. Os homens superiores entregam-se à vigília e ao jejum. Conservam-se retirados nas suas casas, evitam os exercícios violentos, refreiam a sua tendência para a música e para vistas bonitas, fogem do convívio com as esposas, guardam dieta.
(Li Chi, 4:2; 2,15)
Não se deve fazer nada (no segundo mês de Inverno) nos trabalhos da terra. Deve-se ter cuidado em não expor nada que seja coberto, nem abrir apartamentos e casas, nem incitar as massas à ação; que tudo se conserve seguramente fechado. De outro modo, a influência da terra encontrará saída, o que se pode chamar o abrir da casa do céu e da terra. Nesse caso, todos os insetos morrerão, e o povo ficará de certeza doente com peste, e várias perdas se seguirão.
(4 : 2; 2,7)
A prática da adivinhação que se tornou profundamente enraizada nos chineses desde os primeiros tempos, apesar do desdém dos mais racionalistas escolares confucionistas, encontra justificação no Livro dos Ritos;
Os antigos reis faziam uso dos caules da planta de adivinhar e da concha de tartaruga, arranjavam os seus sacrifícios, queimavam as suas ofertas de seda, recitavam palavras de súplica e de ação de graças, e faziam os seus estatutos e disposições.
(Li Chi, 7 :2; 1)
Nos vários artigos de tributo as tartarugas eram colocadas em frente de todas as outras ofertas, porque a concha dava conhecimento do futuro.
(9 : 7)
Em todos os casos de adivinhação sobre um dia, quer por meio da concha de tartaruga quer por caules, se ele está para além de uma década (a antiga semana de dez dias), diz-se: “Em tal e tal dia”. Para assuntos de luto, é preferido um dia distante; para assuntos festivos, importa um dia próximo.
Diz-se: “Para o dia, dependemos de vós, oh grande concha de tartaruga que dais as indicações regulares. Dependemos de vós, oh grandes caules da adivinhação, que dais as indicações regulares”.
A adivinhação por meio da concha chama-se pu e pelos caules shih. Ambos eram métodos pelos quais os antigos reis sábios faziam o povo acreditar nas estações e nos dias, reverenciar os seres espirituais, temer as leis e as ordens; métodos pelos quais o faziam decidir as suas perplexidades e sossegar os seus pressentimentos. Daí dizer-se: “Se duvidavas e consultaste os caules, não precisas de pensar que errarás. Se o dia foi indicado, faz isso ousadamente (nesse dia)”.
(1 :1; 5, 6 (23-7)
A crença na correspondência intima dos afazeres humanos com os processos da natureza reflete-se não só no fato de que, através da adivinhação, o homem podia compreender e, de certo modo, predizer os acontecimentos futuros e, através das suas súplicas e sacrifícios, atrair a assistência de influências poderosas do céu, da terra e da hoste de seres espirituais, mas também que, através dos seus atos cerimoniais, podia impor mesmo sobre o mundo à sua volta uma certa harmonia e cooperação que levava à felicidade humana.
A qualidade que punha um rei virtuoso muito acima de todos os outros homens era esse poder de ação ritual pelo qual o céu e a terra e toda a natureza eram induzidos a responder aos seus desejos;
Quando o Grande Homem (o sábio governante) usar e exibir as suas cerimônias e música, o céu e a terra prodigalizar-lhe-ão, em resposta, as suas brilhantes influências. Eles agirão em união feliz, e as energias (da natureza) ora expandindo-se, ora contraindo-se, procederão harmoniosamente. O ar procriativo de cima e a ação correspondente de baixo espalhar-se-ão e alimentarão todas as coisas. Então as plantas e as árvores crescerão luxuriosamente; os rebentos e os botões desenvolver-se-ão; os animais cobertos de penas e com asas ficarão ativos; chifres e armações crescerão; os insetos chegar-se-ão à luz e reviverão, os pássaros criarão e chocarão; os animais cobertos de pêlos acasalar-se-ão e darão à luz; os mamíferos não terão abortos e nenhum ovo será quebrado ou gorado, e tudo será imputado ao poder da música.
(Li Chi, 17 : 3,3)
Por meio dessas cerimônias realizadas no subúrbio, todos os espíritos recebem os seus destinos. Por meio das cerimônias realizadas no altar de terra, todas as coisas alcançarão o seu completo desenvolvimento.
(7 : 4; 3)
O governante ficava de face para sul para mostrar que ele seria (na sua esfera) o que a influência da luz e do calor é (na natureza).
(9: 14)
Deve-se procurar a origem das leis e das cerimônias na Grande Unidade que se separou e se tornou o céu e a terra. Revolveu-se e tornou-se nas forças duais. Mudou e tornou-se as quatro estações. Foi distribuída e tornou-se os fôlegos (excitantes na estrutura universal). As suas lições transmitidas aos homens são chamadas as suas ordens; a lei e a autoridade dela está no céu.
(7 : 4; 4)
É nas cerimônias relacionadas com a morte e o luto que o Li Chi claramente indica muitas das idéias religiosas que animavam os espíritos dos chineses nesse período anterior à nossa era. Imediatamente após a morte, o corpo era deitado sobre a terra, para indicar que foi da grande alimentadora e sustentadora de todas as coisas que o homem nasceu e para ele deve voltar. A alma, por outro lado, deixou o corpo com a morte mas podia possivelmente ser chamada antes de viajar para longe, para alguma casa celestial. Várias seções do Li Chi são dedicadas a regulamentos meticulosos do enterro dos mortos, dos ritos do luto, e dos sacrifícios apropriados aos manes de pais e antepassados. Sacrificando ao espírito de um antepassado, o costume em voga era providenciar um ator vivo do antepassado morto, se possível um neto, mas tornou-se uso preparar uma tabuinha de madeira onde se escrevia o nome e a categoria do falecido. A tabuinha do falecido era colocada perto do caixão, e depois do enterro era enterrada e feita outra tabuinha permanente. Diante dessa tabuinha a família fazia sacrifícios em ocasiões próprias, desde que a família se conservasse uma entidade;
Mesmo antes da morte o corpo era colocado no chão. Fazia-se uma mudança de roupa. Não era permitido a um homem morrer nos braços de uma mulher ou vice-versa. O corpo era então transferido para um canapé.
(Li Chi, 19:1)
Quando uma pessoa morria, iam para o telhado da casa e chamavam pelo seu nome num som prolongado, dizendo: “Volta, fulano”. Depois disso, enchiam a boca do falecido com arroz cru e preparavam ofertas de pacotes de carne crua. Então, olhavam para o céu (para onde o espírito tinha ido) e enterravam o corpo na terra. O corpo e a alma animal (po) vão para baixo; e o espírito inteligente fica nas alturas. Assim também os mortos são colocados com a cabeça para norte, enquanto os vivos olham para o sul.
(7:1; 7)
Chamar a alma é a maneira pela qual o amor recebia a sua consumação e tem nela o espírito expresso pela oração. Procurá-la para ela regressar da região das trevas é uma maneira de a procurar entre os seres espirituais. O voltar da face para norte vem da idéia de que o norte é a região das trevas.
(2 : 2; 1,22)
Uma inscrição com o apelido, o nome e a categoria do morto era preparada e colocada sob as goteiras do telhado, a leste: Entretanto, arranjava-se uma tabuinha de madeira “A primeira tabuinha-do-espírito” e transferia-se o espírito para ela. Era posta em cima ou perto do caixão que agora tinha o corpo dentro. Mais tarde, era movida para leste da cova onde se conservava até depois do enterro. Depois do enterro, esta tabuinha enterrava-se e fazia uma tabuinha permanente (shên chu), diante da qual os sacrifícios familiares eram oferecidos de geração para geração.
(2:2; 1,25)
Depois do enterro, a tabuinha do espírito era colocada, com grande cerimônia, junto da do avô.
(2 : 2; 1,38)
Tsêng-tzu (um discípulo de Confúcio) perguntou: “É necessário que haja um representante do morto nos sacrifícios? Ou pode dispensar-se como quando as ofertas de satisfação são feitas ao morto?” Confúcio replicou: “Ao sacrificar a um homem adulto por quem se têm feito os ritos fúnebres, deve haver um ator, talvez um neto, e se o neto é novo de mais, alguém o deve levar ao colo. Se não houver neto, alguém do mesmo apelido devia ser escolhido para a ocasião”.
(5 : 2; 20)
Em ligação com o enterro, eram preparados objetos, vasos e utensílios para uso do morto no após-vida, mas esses objetos eram apenas representativos e não podiam ser usados pelos vivos. No enterro da nobreza esses objetos incluíam representações das esposas, das concubinas, dos criados e dos guardas, assim como de cavalos favoritos e outros animais. Vimos que na dinastia Shang, um rei ou nobre morto era acompanhado para o outro mundo por um cortejo de dependentes imolados. Nos últimos anos da dinastia Chou esse costume bárbaro tinha praticamente desaparecido, e era citada a autoridade de Confúcio para uma prática mais humana. Mesmo o uso de bonecos que pareciam vivos, de madeira, com partes móveis, foi condenado, por causa do perigo de que tal uso pudesse levar de novo ao sacrifício de homens e mulheres vivos;
Confúcio disse: “Aquele que fez os vasos, que são apenas imaginários, conhecia o princípio em que se baseavam os ritos do luto. Eram perfeitos, de aparência, e contudo não podiam ser usados. Se para os mortos tivessem usado os vasos dos vivos, não teria havido o perigo de que isso levasse ao enterramento dos vivos com os mortos?” Chamavam-se “vasos imaginários”, sendo os mortos tratados assim como inteligências espirituais. Dos tempos antigos havia carros de barro e figuras de palha... Confúcio disse que fazer figuras de palha era bom, e que fazer autômatos de madeira não era bom. Não haveria o perigo de isso levar ao uso de homens vivos?
(Li Chi, 2:2; 1,44-45)
A crença de que o homem é composto de dois elementos de “alma”, o p’o que depois da morte se torna kuei que desce com o corpo para a cova, e o hun que se torna chên e sobe ao mundo espiritual, parece ter sido geralmente aceite, nessa ocasião. Mais tarde essas idéias haviam de ser muito complicadas na religião tauísta;
Tsai-wo (um discípulo de Confúcio) disse: “Ouvi os nomes de kuei e shên, mas não sei o que significam”. O mestre (Confúcio) disse: “O espírito inteligente é de natureza shên, a alma animal é de natureza kuei. É a união de kuei e de shên que forma a mais alta demonstração da doutrina. Todos os vivos têm de morrer, e morrendo regressam ao chão; é isto que chamamos a natureza kuei. Os ossos e a carne desfazem-se cá em baixo e escondidos, transformam-se em terra dos campos. Mas o espírito sobe e é exposto nas alturas, em radiância gloriosa”.
(Li Chi, 21 :2; 1)
As palavras acima, postas na boca de Confúcio, mostram quão necessário se sentia proclamar a autoridade de Confúcio para assuntos relativos à natureza humana, à morte e à imortalidade, a qual tinha ganho aceitação geral mesmo entre os ortodoxos nas últimas décadas da dinastia Chou.
Deste pequeno estudo das passagens do Li Chi ou Livro dos Ritos, fica-nos a impressão de um povo cujas mentes estavam muito exercitadas no que eram idéias e problemas fundamentalmente religiosos. O cerimonial complicado nos templos ancestrais e nos altares de terra, o culto familiar dos espíritos da terra e das sementes, das colinas e dos rios, e a homenagem paga aos deuses do lar, tudo tendia a acentuar a influência penetrante do mundo do espírito. A paz, a prosperidade e a felicidade nesta vida e uma existência significativa na vida do além dependiam da promoção de uma relação harmoniosa com o reino espiritual governado pelo alto céu e cheio de uma imensa hoste de seres espirituais. No entanto, a ortodoxia confucionista ensinava que “é somente o sábio que pode sacrificar a Deus, e só o bom filho que pode sacrificar aos seus pais”. Este dito leva ao interessante resultado de que. através da história chinesa, tanto quanto dizia respeito à religião oficial, a grande massa do povo era de meros passivos espectadores de ritos realizados em seu nome. Claro que era uma ofensa que alguém, a não ser o “Filho do céu”, fizesse sacrifícios ao céu, e que alguém, a não ser o primogênito macho representante da família, fizesse sacrifícios aos antepassados.

Notas
21. W. T. Chan, A Source Book in Chinese Philosophy. Princeton, 1963, pp. 279 ff.


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