O Islã Chinês, por D. H. Smith

Desde os seus verdadeiros começos na China, o islão seguiu um caminho diferente do do cristianismo. Os missionários cristãos tinham vindo para a China, como vimos, tentar a conversão dos chineses ao cristianismo. Os muçulmanos vieram como imigrantes ou mercadores que se casaram com mulheres chinesas e se contentavam em que lhes fosse permitido seguir os seus próprios costumes e religião e criar os filhos na fé muçulmana. Não tinham aparentemente “urgência em espalhar a sua fé e influência política por meio dos métodos guerreiros usualmente associados ao seu credo”.(21) Depressa se tornaram completamente aclimatados, e afora os indivíduos que serviam o governo com distinção, pouco intervieram na cultura chinesa em geral.
O governo chinês tem, no total, sido tolerante quanto a crenças e práticas religiosas que não ameaçassem nem a autoridade suprema do estado sobre as vidas dos seus súbditos, nem os padrões estabelecidos da moralidade pública. Através dos séculos e naturalmente até aos tempos modernos, o islão na China esteve praticamente isolado do resto do mundo islâmico, e assim a interferência do exterior por parte dos muçulmanos na China nunca constituiu uma ameaça ao governo. Os muçulmanos eram, em geral, industriosos e fiéis às leis, tomavam conta dos seus próprios pobres e o seu código de comportamento era pelo menos tão alto como o dos seus vizinhos chineses.
No ano 651 AD chegou à capital de T’ang, Ch’ang-an, uma embaixada do califa Otomano que foi recebida com toda a distinção pelo imperador. Esta data é geralmente aceite como a entrada do islão na China. Afora, contudo, alguns comerciantes árabes, não há prova de alguma considerável fixação de muçulmanos na China antes dos meados do século VIII. Embora fossem construídos na China, no século VII, templos zoroastrianos e igrejas nestorianas, não há registro de qualquer mesquita muçulmana.
Entre os anos 705 e 713, Kutaiba, o general do califa Walid, iniciou a conquista da Ásia central. Isto perturbou muito o imperador chinês que tinha dependências nessa área. Um exército chinês enviado para se lhe opor foi decisivamente derrotado. Seguiu-se mais uma embaixada à corte T’ang em 713 AD, e, embora eles se recusassem, como muçulmanos, a realizar a costumada prostração diante do imperador, foram cortesmente recebidos. Felizmente para a China, as discórdias internas do mundo muçulmano afastaram todo o perigo de ataque árabe.
Foram mercenários árabes, enviados pelo califa Adu Jafar aí Mansur, que em 756 AD ajudaram na derrota do rebelde tártaro An Lu-shan, e, em gratidão pelos seus serviços, uns quatro mil muçulmanos tiveram permissão de se fixar na China. Estes casaram com mulheres chinesas e depressa se aclimataram. Observavam rigidamente os princípios da sua religião, mas não há nenhum registro autêntico de terem construído edifícios religiosos permanentes até à dinastia Sung (960-1275).
Durante a dinastia T’ang, Cantão no sul da China foi o centro de um comércio florescente, produzido pelo mar, com o Golfo Pérsico, comércio especialmente levado a cabo por marinheiros árabes. Na grande comunidade estrangeira estabelecida nessa cidade, os muçulmanos tinham um Kadi, eleito por eles próprios, e estavam sujeitos à lei do Alcorão. Ch’uan-chou parece ter tido também uma considerável comunidade muçulmana, pois, conforme os Registros de Fukien (Min Shu Chi Tsai), foi fundado um cemitério muçulmano ainda na dinastia T’ang. Foi durante a dinastia Yiian que se deu uma grande infiltração muçulmana. Escolares muçulmanos, comerciantes e artistas foram encorajados a estabelecer o seu lar na China. Vários funcionários distintos da dinastia eram muçulmanos. Estes introduziram a ciência muçulmana e provaram ser particularmente úteis em astronomia e na preparação do calendário. Foi provavelmente nessa ocasião que ganharam o nome de Hui-hui. Espalharam-se por todas as províncias mas em especial nas províncias ocidentais de Kansu, Szechuan e Yunnan. Na maior parte das áreas viviam em comunidades separadas, freqüentemente chamadas ying ou barracas, que revelavam a sua origem militar. Distinguiam-se pelo vestir, pela alimentação e pelos hábitos. Cumprimentavam-se uns aos outros em persa ou árabe e muitos usavam um turbante branco. Praticavam a circuncisão e tinham os seus próprios costumes de casamento e de funeral. Evitavam a avareza, a adivinhação, a geomancia e a representação no palco. Construíam as suas mesquitas e escolas onde se ensinava a língua árabe e o Alcorão era a base da instrução. Muitos chegaram a distinguir-se no serviço imperial. Talvez o mais famoso muçulmano da época fosse o grande eunuco Chêng-ho, enviado imperial e comandante-em-chefe de uma importante expedição a Ormuz no Golfo Pérsico. Um padrão numa colina fora da cidade de Ch’uan-chou marca o lugar onde ele pediu a divina proteção para a sua perigosa empresa. (22)

Notas
21. E. R. e K. Hughes, Religion in China, Londres, 1950, p. 98.
22. Pelliot, Tang Pao, n.0 31(1935), pp. 274-9, 314, n.0 32 (1936), pp. 211-12.Duyvendak, Toung Pao, n.0 34 (1939), p. 381.


Voltar para Religião e Mitologia