O Culto Taoísta, por D. H. Smith

A lenta desintegração da grande dinastia Han, no século II AD, foi acompanhada de miséria e sofrimento que levaram à inquietação e à deslealdade entre os camponeses. E ai estava um campo fértil para a pregação de esperanças milenaristas e apocalípticas e a promessa do estabelecimento de uma era de paz que viria não só pela força militar mas também pela intervenção de agentes sobrenaturais. Dois movimentos, muitíssimo separados, apareceram cerca dos meados do século II e cresceram rapidamente até proporções incríveis. Eram ambos de caráter revolucionário e religioso. Atraíram os camponeses às dezenas e centenas de milhares. Quase todos os chefes relacionados com a historia primitiva da igreja tauísta tinham o nome de Chang, o que tem ocasionado uma certa confusão, porque esses Changs pertenciam, pelo menos, a três famílias diferentes (15). Um dos movimentos começou em Szechuan e no sul de Shansi; o outro em Shantung.
Em Szechuan, pelo meio do século II AD, um mestre tauísta, a que se atribuía poderes mágicos, iniciou um culto de sanidade que atraiu um considerável número de sequazes. Ele curava os doentes e, ou como pagamento, ou como direitos de culto, pedia a cada família cinco medidas de arroz por ano. Dava-se a ele próprio o título T’ien Shih ou “Mestre Celestial” e expunha as suas doutrinas num livro que não pode ser agora identificado. Sucederam-lhe no cargo o filho e o neto. Este último, Chang Lü, tinha bastante capacidade militar e o governador de Szechuan entregou-lhe um exército, enviando-o para o norte para atacar os seus inimigos. Aí ele ligou-se com outro guerreiro vitorioso, Chang Hsiu, que também dirigia um culto de sanidade e seguia práticas semelhantes. Chang Hsiu, como parte do seu culto de sanidade insistia na expiação de pecados e em penitências. Os pecados e as penitências eram escritas em três pedaços de papel. Um desses pedaços de papel era queimado na terra, um exposto numa montanha, e outro lançado ao rio, informando assim os seres espirituais que dirigiam o universo. Para atender os seus numerosos sequazes, Chang Hsiu organizou uma complicada hierarquia de padres chamados “os das libações”. Um dos deveres deles era ver que os ensinamentos do Tao Tê Ching, grosseiramente mal-interpretados, fossem observados e praticados. Os padres eram também oficiais do exército, e os novos convertidos chamavam-se kuei-tsu ou “soldados demônios”, e os fiéis eram o “povo demônio” ou kuei-min. A conversão era também recrutamento. Abaixo dos libadores estavam os oficiais que reuniam o povo para a oração e as cerimônias da cura e da confissão, visto a doença ser considerada resultado direto do pecado. Chang Hsiu era chefe da hierarquia sob o grandioso título de T’ien Shih Chun ou “Instrutor Celestial”.
Chang Lu e Chang Hsiu rebelaram-se; mais tarde Chang Lu mandou executar Chang Hsiu e tomou conta da sua organização e culto de sanidade como sendo superior ao dele. Conservou o título de “Instrutor Celestial”, organizou uma teocracia, e ensinou aos seus sequazes os deveres da honestidade e da dignidade. Durante trinta anos governou um grande domínio fronteiriço e finalmente em 215 AD entregou-o ao grande capitão Ts’ao Ts’ao que o premiou com muitas honras.
Entretanto, em Shantung, uma figura pouco conhecida chamada Yu Chi, muito versada em feitiçaria e medicina, começou a pregar e a curar. Para curar os doentes usava água benta e incenso. Crê-se que ele incorporou os seus ensinamentos num livro, agora perdido, chamado T’ai P’ing Ch’ing Ling Shu ou “O Livro da grande Paz e Pureza” (16). Embora executado em 197 AD (a sua cabeça foi exibida no mercado), os seus sequazes continuaram a acreditá-lo e proclamavam que ele se tornara imortal. Cerca de 175 AD a sua influência inspirou Chang Chueh a fundar um novo movimento em Shantung conhecido como o T’ai P’ing Tao ou “O Caminho da Grande Paz”. Chang Chueh enviou missionários para o leste e o centro da China a fim de converter o povo. Ele realizava grandes cerimônias públicas, altamente dramáticas, onde os doentes eram curados por meio de fé e magia, confessando os seus pecados. Também organizou os seus sequazes numa hierarquia eclesiástica sendo ele próprio o chefe sob o título de “General Celestial”. O povo reunia-se para as suas cerimônias, aos milhares, e havia cenas de intenso fervor religioso. Em 184 AD o movimento tinha-se espalhado por oito províncias, e o governo decidiu tomar medidas ativas para o suprimir. Os tauístas, avisados de antemão, resolveram revoltar-se, e um grande número, avaliado em 360000, puseram coifas amarelas em sinal de revolta, dando assim origem ao nome de “Turbantes Amarelos”. Levou muitos anos a suprimir a rebelião, embora Chang Chüeh e os seus dois irmãos fossem apanhados e executados.
H. Maspero afirma que o alvo dessa organização não era simplesmente substituir o governo imperial por um governo de funcionários tauístas, mas dirigir os fiéis para uma vida religiosa, e levá-los, passo a passo, à realização de tais práticas que lhes assegurassem a imortalidade. Essa vida religiosa era acessível a pessoas de ambos os sexos, e as mulheres recebiam um lugar proeminente na hierarquia (17).
A hierarquia tauísta continuou a atender aos fiéis, e os libadores tornaram-se padres hereditários ou Tao Shih. O movimento adotou o Tao Tê Ching como suas escrituras, Huang-Lao como um deus supremo, a teoria dos cinco elementos como uma ciência, e o controle da respiração, a dieta e o jejum como meios de se atingir uma vida pura. A cura era dramatizada. O crente aprendia que, pela expiação dos seus pecados, a sua doença podia ser curada. Em todo o país se realizavam complicadas cerimônias e rituais, e os padres davam instruções. Certas cerimônias organizavam-se conforme fossem necessárias e outras tomavam lugar nos equinócios e nos solstícios. Em certos distritos, faziam-se orgias sexuais coletivas que escandalizavam os confucionistas e os budistas, mas o seu objetivo fundamental parece ter sido a prolongação da vida.
Em grande parte como resultado desses movimentos, o tauísmo tornou-se uma religião popular, altamente organizada entre as massas.
Notas
15. Holmes Welch, The Parting of the Way, pp. 133 ff.
16. Ibid., p. 117.
17. H. Maspero, Mélanges Posthumes, vol. 2, p. 155.


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