Medicina Chinesa

Os chineses desenvolveram uma agricultura intensiva para alimentar uma população em constante crescimento. Mas como a mantinham saudável? Há aspectos do tratamento médico chinês e idéias chinesas sobre o funcionamento do corpo que merecem pelo menos um breve comentário, particularmente agora que a acupuntura é aceita pela medicina tradicional fora da China e é ocasionalmente usada como meio de tratamento em outros países.
As origens da acupuntura vão longe na história chinesa. A primeira documentação data de cerca de 600 a.C, e desde essa época a técnica não deixou de ser empregada, embora hoje os chineses a usem em conjunto com a moderna medicina ocidental - por exemplo, como anestésico durante uma cirurgia. Ela está sendo agora investigada à luz do conhecimento moderno, mas é um sistema sutil e parece um método prático de estimular as reações naturais do corpo ao ataque de uma doença. Na China, foi usada não apenas na medicina humana, mas também no tratamento veterinário. A idéia da acupuntura pode ser encontrada na crença chinesa de uma ligação íntima entre os homens e as coisas terrenas (o microcosmo) e o universo em geral (o macrocosmo). Em parte, ela reflete sua visão do universo inteiro como um organismo, resultando em que os pontos de acupuntura originais guardam uma relação especifica com os pontos da bússola e o arranjo do céu; reflete também a visão de uma espécie de "espírito vital" ou "ar" que se movia entre as coisas vivas e cujo movimento era facilitado pela implantação das agulhas. De fato, o espírito vital desempenhava papel importante na medicina chinesa, pois foi, mais tarde, desenvolvido na teoria de uma circulação "pneumática" dentro do corpo, movida pelos pulmões. Essa circulação era, porém, apenas uma das duas que os chineses reconheciam; a segunda era movida pelo coração e se referia ao sangue, que eles supunham carregar um "suco" vital. Ambas as idéias sobre circulação parecem ter sido baseadas em um exame cuidadoso do corpo, suas ramificações nervosas, veias e artérias. Tais idéias provavelmente se originaram no início do período Han e, portanto, precederam as idéias sobre a circulação do sangue aventadas no Ocidente mais de 1600 anos depois.
O interesse dos chineses nas "duas circulações" levou seus médicos a atribuírem grande importância à pulsação dos pacientes. Mas a pulsação não era todo o que interessava ao médico chinês; ele também investigava o estado geral do paciente, incluindo o cheiro da respiração, a limpeza e a cor da língua e os batimentos cardíacos. Para guiá-lo, o médico tinha um grande manual, o Manual da medicina corporal, equivalente, tanto em autoridade como em extensão, ao corpo das doutrinas de Hipócrates. Nele encontrava os tratamentos bem explicados, dentre os quais outro método ímpar chinês, a moxibustão. Essa palavra deriva da combustão do absinto (Artemísia Moxa), que podia ser queimado de várias maneiras, próximo à pele ou, em certos casos, em pontos específicos dela, como ocorria na acupuntura. A moxibustão pode ter sido usada na China pela primeira vez para aliviar o reumatismo nas juntas e outras dores, mas esta não foi sua única função. Os médicos chineses usavam-na também como forma de tratamento de certos distúrbios, e agora se sabe que ela realmente tem alguns poderes curativos especiais, sobretudo no que se refere às doenças da pele. A moxibustão e a acupuntura trabalham, naturalmente, em harmonia com a prescrição de drogas.
Como se podia esperar de um Estado altamente burocrático como a China, a prática médica era uma profissão estritamente regulamentada. Era necessário prestar exames de educação geral e de medicina, e no século V d.C. havia cargos acadêmicos em medicina, enquanto na época Tang existia uma Faculdade Imperial de Medicina. Parece que foi na China também que apareceu pela primeira vez a idéia de hospitais. Eles surgiram na época Han, mas, com a chegada dos budistas, seu número aumentou. Originalmente fundações taoístas e budistas, eles foram absorvidos pelo Estado desde o período Tang. Havia também regulamentos sobre quarentenas, certamente desde o século IV d.C. - se não antes - e duzentos anos depois estabeleceram-se colônias de leprosos.

in Ronan, C. História Ilustrada da Ciência pela Cambridge University. Rio de Janeiro: Zahar, 1986


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