Interação entre Linguagem e Pensamento em Chinês

por Yu Kuang Chu em Campos, H. (org.) Ideograma. (1977), Cultrix, São Paulo.
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Que linguagem e cultura estejam intimamente relacionadas é observação corriqueira, para aqueles que tenham estudado uma língua estrangeira. São, entretanto, relativamente poucos os que esquadrinharam especificamente a possibilidade de a estrutura de uma linguagem condicionar os processos do pensamento e, vice-versa, a de mudanças radicais no pensamento acabarem acarretando reformas estruturais na linguagem.
Presidindo encontros acadêmicos, como decano de uma universidade chinesa dotada de um corpo docente internacional bilíngüe, descobri que, se pretendesse estimular a solução de um problema à maneira chinesa, com a ênfase que ela empresta aos meios indiretos e ao sentimento, bastava-me falar chinês para dirigir a discussão; ao passo que, se desejasse lidar com o problema de maneira objetiva e direta, segundo os regulamentos, deveria valer-me do inglês. Como os membros do corpo docente respondiam pensando e falando numa ou noutra das duas línguas, eles faziam apelo a duas séries algo diferentes de processos mentais e de hábitos conceituais. Isto era válido tanto para os docentes chineses, quanto para os ocidentais.
O autor deste ensaio é presidente do Programa de Estudos Asiáticos do Skidmore College, de Saratoga Springs, Nova Iorque. O Dr. Chu lecionou na Lignan University, na Yenching University e no National Teachers College, na China, antes de vir para a América como professor de Cultura Chinesa, em Pomona. É bastante conhecido em todo o país e no Extremo Oriente graças ao seu trabalho pioneiro no campo dos estudos interculturais. Este artigo foi originalmente publicado em Topic: A Journal 0f the Liberal Arts, Washington and Jefferson College, Washington, Pennsylvania.
Demonstrar uma interação entre linguagem e pensamento é urna coisa; outra bem diferente, apontar-lhe a causa e o efeito sob qualquer aspecto específico. É como a proverbial questão da galinha e do ovo. Para facilitar a análise, a primeira parte deste ensaio, que trata do pensamento tradicional chinês, adotará, de modo geral, o ponto de vista de que a estrutura da linguagem influenciou os processos mentais, embora se pudesse defender a tese contrária. Na parte final do ensaio, indicar-se-á de que maneira as concepções ocidentais que se conseguiram impor na China moderna levaram às diversas reformas que estão atualmente ocorrendo na língua.
Características do Discurso Chinês
Este artigo não pretende dar uma descrição panorâmica de todas as características distintivas da língua chinesa e de suas inúmeras variações dialetais. Tomaremos o dialeto principal, denominado "mandarim", que foi adotado como língua nacional e que é falado como língua materna por setenta por cento do povo chinês, excluindo-se as minorias étnicas. E descreveremos sucintamente apenas as características que parecem estar em interação evidente com o pensamento.
As palavras chinesas são monossilábicas; por exemplo, chung(1) significando "meio" e kuo "país". Chungkuo significa "China". Em virtude dessa qualidade monossilábica, o discurso chinês possui um ritmo de toque de tambor. Como existem cerca de 420 sílabas em mandarim, em contraposição às 1 200 do inglês, e como um dicionário chinês compIe to contém aproximadamente 50.000 palavras, há muitas palavras pronunciadas com o mesmo som ou sílaba. Como recurso para diferenciar algumas delas, usam-se tons. Cada um dos caracteres tem um tom fixo. Cada sílaba acentuada numa sentença em mandarim é pronunciada num dos quatro tons: "elevado-uniforme", "elevado-subindo", "baixo-subindo" ou "elevado-caindo" * indicados na romanização quer por um sinal diacrítico sobre a vogal principal, quer por 1, 2, 3 ou -1 subscritos. Temos como exemplo a sílaba mã que, pronunciada no primeiro tom, significa "mãe"; no segundo tom, é "fio flexível"; no terceiro, "cavalo"; e no quarto, "ralhar". De modo que, ao falar o chinês, cumpre dizer cada palavra acentuada não somente com o som correto como também no tom certo; caso contrário, não se é compreendido corretamente. Essa característica tonal das palavras chinesas confere ao chinês falado uma qualidade musical.
*[Em A Guide to Mandarin, por Y. C. Yuen, Shung Man Printing Press (Hong Kong, 1963), é apresentada a seguinte notação gráfica para os "tons": 1)à 2)ä, 3)æä 4) æ. Observe-se que o 3.° tom, descrito pelo Autor do presente ensaio como "low-dipping", é registrado na introdução prosódica ao Mathew's Chinese-English Dictionary, Harvard University Press (Cambridge, Mass., 1963) como "low-rising" (ou "rising tone"). Adaptamos a tradução a esta última fonte, por nos parecer mais clara, considerada a "notação gráfica" supra.]
Herrlee G. Creel comparou os quatro tons às quatro maneiras de pronunciar o "yes" em inglês (2). O primeiro tom é como o do modo de responder "yes" a uma lista de chamada (um tom alto, ligeiramente prolongado). O segundo é como o tom que se vai elevando, quando se diz "yes" para responder a alguém que está batendo à porta, enquanto se está ainda absorvido pelo que se está fazendo. O terceiro tom assemelha-se ao do "ye-es" pronunciado por alguém que concorde dubitativamente com alguma coisa enquanto ainda a vai considerando mentalmente, vindo o tom de elevado para baixo e subindo levemente no fim. Finalmente, o quarto tom é o de um yes pronunciado como réplica positiva, breve e segura, terminando incisivamente. Embora a maioria das autoridades lingüísticas afirme que as palavras inglesas têm apenas acentos e não tons fixos, um estudioso, pelo menos, sustenta ter identificado sete tons no discurso inglês, equacionando alguns deles com os do discurso chinês (3).
Mesmo com o emprego dos tons, muitas palavras são pronunciadas com som e tom idênticos. Num dicionário reduzido contendo 5 000 palavras, nada menos de quarenta e um caracteres são pronunciados yi quarto tom. Para apontar apenas alguns, os vocábulos equivalentes a "fácil", "intenção", "retidão", "diferença", e "arte" são todos eles pronunciados yi embora sejam escritos com caracteres inteiramente diferentes. A profusão de homófonos torna difícil escrever foneticamente o chinês com certeza quanto ao significado.
A fim de melhor diferenciar os homófonos, o discurso chinês recorreu ao uso de expressões compostas, consistindo cada uma em duas ou mais palavras, em lugar das palavras simples. Por exemplo, em lugar de usar a palavra simples yi significando "fácil", empregamos a expressão composta jungyi (significando literalmente "suportar fácil"). Da mesma forma, para "intenção", dizemos yi ssu (literalmente, "pensamento de intenção"); para dizer "retidão", kung yi (retidão pública); para "diferença", yi tien (ponto diferente); para "arte", yishu (técnica artística); etc. A grande maioria dos compostos constitui-se de apenas dois caracteres. Há alguns com três; por exemplo, t'u shu kuan (edifício catálogo de livros), para "biblioteca".
Os compostos de quatro caracteres são mais comuns que os de três, sendo freqüentemente formados por duas expressões binomiais. Por vezes, o significado de um composto não tem nenhuma relação com os significados das palavras isoladas que o constituem. Como ilustração, temos shou tuan cujos dois caracteres, tomados isoladamente, querem dizer "mão" e "seção" mas que, juntos, significam "método para fazer coisas". Os dois caracteres realmente formam uma palavra e, nesse sentido, algumas expressões compostas em chinês podem ser consideradas como palavras polissilábicas. Note-se que o chinês clássico usa muito menos palavras compostas que o discurso vernáculo de hoje.
Quando uma palavra composta aparece em forma escrita, não se colocam hífens entre os caracteres que a formam. Supõe-se que o leitor saiba ler o grupo de caracteres de modo adequado, com significados individuais ou como uma unidade, conforme o caso. A sugestão de que se coloquem hífens entre os caracteres de um composto parece simples, mas na realidade é embaraçosa. Os lingüistas não conseguiram chegar a um acordo quanto a um conjunto de regras que definam claramente os diversos tipos de compostos. É interessante notar que, na tradução mecânica do chinês para o inglês, o computador é programado para começar pela unidade léxica mais longa e, se isso não oferecer um significado coerente, ir procurando sucessivamente as unidades cada vez menores até chegar às palavras simples.(4) Isto se faz necessário para evitar os erros decorrentes da tradução isolada dos elementos de um composto.
Características da Gramática Chinesa
O chinês é uma língua não-flexionada. As palavras não sofrem modificações de acordo com o número, o gênero, o caso, o tempo, a voz ou o modo. Não há conjugação nem declinação. O que torna o aprendizado do chinês um dos mais fáceis do mundo. As relações gramaticais são indicadas sobretudo pela ordem das palavras e pelo emprego de palavras auxiliares. Por exemplo, diríamos em chinês: "Ontem ele deu eu dois literatura revolução livro”. A ordem das palavras indica claramente que "ele" é o sujeito, "eu" o objeto indireto e "livro" o objeto direto. De modo que, de acordo com a regra, todos os modificadores devem preceder as palavras por eles modificadas, "literatura revolução" deve significar "revolução literária" (e não "literatura revolucionária", embora isso também fizesse sentido), e a frase toda deve ser o modificador de "livro".
O outro recurso para indicar as relações gramaticais é o emprego de palavras auxiliares. O emprego de uma palavra ou frase referente a tempo sugere o tempo verbal. Um verbo de ação seguido da palavra auxiliar lei indica o sentido completado. "Eu" seguido de ti se transforma em "meu".
As palavras chinesas não são classificadas em partes do discurso, como as inglesas. Uma palavra pode ser usada como substantivo, adjetivo, advérbio ou verbo, dependendo de sua função na sentença. Elas, entretanto, se repartem em duas classes gerais: "sólidas" e "vazias". As palavras "sólidas" possuem um significado por si mesmas, enquanto as "vazias" são usadas apenas como preposições, conectivos, interjeições ou partículas interrogativas.
Por exemplo: a forma interrogativa em chinês não inverte a ordem do sujeito e do verbo. Numa das três maneiras de fazer uma pergunta, a ordem das palavras é exatamente igual à de uma afirmação, acrescentando-se porém a palavra "vazia" ma no final. Essa partícula auxiliar, por si mesma destituída de significado, transforma a afirmação em interrogação. Assim, em chinês, "Você é americano ma", quer dizer "Você é americano?" As palavras "vazias" como ma muitas vezes constituem a chave para a interpretação de urna sentença. Mostraremos adiante a significação de tudo isso para os processos mentais.
Características do Chinês Escrito
O chinês é escrito em termos de símbolos, chamados "caracteres". Os caracteres não são representações fonéticas e sim ideogramas. Cada um deles consiste em certo número de traços, escritos numa ordem determinada e projetados de modo a se inscreverem num espaço quadrado (quadrículo) imaginário. De fato, os cadernos destinados às crianças são pautados em colunas de quadrados, em cada um dos quais será escrito um dos caracteres. É preciso aprender de cor a reconhecer a forma de cada um deles individualmente, e a escrever os traços que os constituem da maneira e na ordem adequadas.
A despeito de todas as diferenças dialetais na China, os caracteres escritos são os mesmos para todos os grupos de dialetos. Sendo ideogramas, os caracteres têm o mesmo significado ou significados para todos os leitores, embora possam ser pronunciados diferentemente nas diversas regiões.
A construção original dos caracteres chineses baseou-se em quatro princípios. O primeiro é a representação pictórica. A forma arcaica de jih ("sol") é um círculo com um ponto no centro. Mais tarde convencionou-se que seria um retângulo na vertical, com um traço curto e horizontal no meio. Um crescente representa a "lua". Três picos representam uma "montanha". O símbolo para "árvore" tem uma linha vertical representando o tronco da árvore, dois traços que se abrem em baixo para representar as raízes e outros dois em cima sugerindo os ramos. O símbolo de "porta" é claramente a imagem de um par de portas de vai-e-vem e pouquíssimas alterações sofreu em mais de 3 000 anos.
Essa qualidade pictórica dos caracteres chineses levou Fenollosa (que escrevia no alvorecer do século) a afirmar que ela muito contribuiu para a imagética visual da poesia chinesa.(5) Admitia-se que, ao ver o símbolo da "lua", o leitor chinês não somente obtinha uma idéia da lua, como também via uma lua crescente. Tal concepção está hoje desacreditada, simplesmente por não ser verdadeira. Quase todos os caracteres pictográficos modificaram tão drasticamente suas formas que já não são imagens picturais. O leitor chinês simplesmente os considera como símbolos convencionalizados de idéias. É ainda certo, entretanto, que os chineses tratam os caracteres escritos como desenhos artísticos. Talvez não seja coincidência que a arte chinesa sobressaia no campo visual.
O segundo princípio de construção dos caracteres é o diagrama. Algumas idéias não podem ser representadas, podendo ser, entretanto, diagramadas. Por exemplo, um, dois e três são representados, respectivamente, por um, dois e três traços. Um ponto acima de uma linha horizontal representa "acima", e um abaixo dessa linha significa "abaixo".
O terceiro princípio é o da sugestão. Dois caracteres são colocados juntos para formar uma palavra que sugira uma terceira idéia. A palavra "brilho" é formada colocando-se juntos os caracteres que significam "sol" e "lua". Duas árvores lado a lado sugerem uma "floresta". Uma mulher segurando uma criança significa "amor", e como o amor é bom, a extensão do significado transforma a palavra em "bom".
O quarto e último princípio é o da combinação de um elemento significativo e de um elemento fonético. O primeiro indica a categoria geral de coisas a que pertence o significado da palavra, enquanto o segundo fornece o som do caráter. Por exemplo, as palavras equivalentes a "oceano" e "ovelha" são ambas pronunciadas yang, De modo que, para escrever "oceano", o símbolo de "ovelha" combinou-se com o de "água", tendo sido ambos originalmente palavras-pinturas. Essa combinação é para indicar que o novo símbolo tem algo a ver com água, sendo o elemento "ovelha" apenas fonético. A grande maioria das palavras chinesas pertence a tal tipo (6), Um dos inconvenientes atuais dos caracteres desse tipo é que, em muitos casos, sua pronúncia se distanciou da dos seus elementos fonéticos.
Os caracteres chineses se classificam num dicionário de acordo com 214 "radicais" ou partes identificadoras. Muitos desses radicais são elementos significativos que indicam categorias gerais de coisas e idéias. Os radicais são apresentados na ordem do número de traços neles contidos. Seguindo radical por radical, os caracteres que possuem o mesmo radical são apresentados na ordem do número de traços da parte restante do caráter ou do elemento fonético. É preciso, antes de tudo, identificar o radical contido num caráter, para poder saber onde buscar a palavra no dicionário. Trata-se de um processo fastidioso e por vezes difícil.
Os primeiros registros escritos em chinês remontam a cerca de 1400 anos a.C. Durante a Antigüidade, os escritos devem ter permanecido bem próximos da maneira de falar. Contudo, com o desenvolvimento e a difusão da língua por uma área mais vasta, a maneira de falar se modificou mais rapidamente e se tornou mais diversificada que a escrita. Por volta do ano 600 d.C., o chinês escrito já se tornara uma língua morta, mas os eruditos continuaram a usar o chinês clássico em todas as formas de escrita, tanto literárias como práticas. A partir de 1 000 d.C., aproximadamente, a ficção e o drama começaram a ser redigidos em vernáculo, mas os eruditos não viam com bons olhos esses escritos. Tal situação perdurou até 1919. O chinês clássico garantiu a continuidade lingüística do passado e a unidade para os instruídos acima das diferenças dialetais. A situação assemelhava-se à da Europa pós-renascentista, quando os sábios dos diversos países. falando várias línguas, podiam comunicar-se uns com os outros em latim. Embora o vocabulário, a gramática e a sintaxe do chinês clássico sejam algo diferentes em relação ao chinês vernáculo de hoje, a estrutura básica da língua e os caracteres escritos são os mesmos.
Linguagem e Pensamento Relacional Tendo examinado rapidamente as características da língua chinesa, representada pelo mandarim, passo agora a explorar alguns dos inter-relacionamentos entre língua e pensamento. Os caracteres ideográficos monossilábicos e não-flexionáveis proporcionam um instrumento congenial à reflexão relacional, que tem sido uma qualidade distintiva do pensamento e da cultura chineses. Em virtude da estrutura da língua, a atenção se volta para as relações entre as palavras, mais do que para as próprias palavras individualmente. Embora isto se aplique, em maior ou menor grau, a todas as línguas, é particularmente relevante no caso do chinês. Em inglês, um substantivo é um substantivo e conota uma espécie de "substância" real ou imaginária (7). Mas em chinês, quase todas as palavras, com exceção das partículas "vazias", podem ser substantivos, dependendo de sua posição e de sua função na sentença. A dependência da ordem das palavras e o emprego de palavras auxiliares para esclarecer os significados salientam inevitavelmente a importância das relações e do arranjo estrutural (pattern) das palavras.
Essa ênfase se exprime na literatura, particularmente em sua forma mais elevada - a poesia. Existe um tipo de poesia clássica no qual um poema é geralmente composto de quatro dísticos. Cada verso contém cinco ou sete caracteres. Os dísticos que intervêm entre o primeiro e o último do poema devem mostrar um paralelismo, obtido graças a um cuidadoso equiparamento das categorias e dos tons. Cada uma das palavras do primeiro verso de um dístico tem o seu paralelo numa palavra correspondente no segundo verso, pertencente à mesma categoria de coisas, como, por exemplo, aos fenômenos astronômicos, ao reino vegetal, ao domínio da casa e do jardim, da alimentação, ou de qualquer outra categoria estabelecida. Uma palavra usada como adjetivo no primeiro verso deverá encontrar um adjetivo correspondente na mesma posição, no segundo verso, e assim por diante. Além disso, a uma palavra no primeiro ou no segundo tons no primeiro verso, deverá corresponder uma palavra no terceiro ou no quarto tons no segundo verso, ou vice-versa. O primeiro e o segundo tons também podem entrar em correspondência. Nenhum tom corresponderá a si mesmo. E mais: o conjunto do poema deve ser conforme a um dos esquemas de rimas padronizados no final de certos versos.
O que vem a seguir é uma tradução literario do segundo dístico de um conhecido poema de Wang Wei, do oitavo século:
Bright moon amidst pines shines
Clear Spring over rocks flows
[Brilhante lua entre pinheiros reluz/ Clara fonte sobre rochas flui]
Os sons e tons são indicados pela seguinte versão romanizada, consoante a atual pronúncia do mandarim:
ming yüeh sung chien chao / ch'ing ch'üan shih shang liu
Os dois versos deste dístico foram cuidadosamente equiparados quanto à categoria material, à estrutura gramatical e ao esquema tonal. (9) Essa tendência a combinar e equilibrar as coisas ou idéias é exigida não somente neste tipo de poesia como também aparece freqüentemente em outros tipos de versos e até na prosa. Seria difícil, senão impossível, conseguir semelhante espécie de paralelismo com palavras polissilábicas, flexionáveis e não-tonais, como as inglesas.
A ênfase dada às relações entre as palavras tem provavelmente muito a ver com o pensamento relacional manifestado em numerosas áreas da vida e da cultura chinesas. Alguns exemplos serão suficientes. A arte e a arquitetura chinesas se caracterizam por uma acentuada noção de equilíbrio. A atenção se volta menos para os elementos separados que para a configuração total. As idéias são muitas vezes denotadas por expressões compostas, constituídas de antônimos; por exemplo: “comprar-vender" é “comerciar"; "avanço-recuo" é "movimento"; "norma-caos" é "condição política", etc. Os antônimos não são tidos como opostos irreconciliáveis, mas sim como suscetíveis de união para formar uma idéia completa. Um dos conceitos-chave da Filosofia chinesa se expressa através de um composto de antônimos, yin - yang. Esses dois termos denotam duas forças opostas porém complementares no universo, cuja interação produz todas as coisas e cuja unidade se baseia no Supremo. É do conhecimento geral que o Confucionismo, filosofia dominante na China durante mais de 2 000 anos, é em grande parte um código de ética para governar as relações humanas. Sua atenção se volta não para o indivíduo, mas sim para a teia das relações humanas. Sua preocupação é com a ordem e a harmonia na família e na sociedade, e não com a liberdade individual dos membros que as constituem. Assim, são enfatizadas as obrigações morais de um indivíduo para com os outros e não os "direitos individuais" de cada um.
Até a cozinha chinesa reflete esse pensamento relacional. No preparo dos alimentos, a maneira chinesa consiste em cortar as coisas e cozinhar os ingredientes em combinações e proporções adequadas. Uma longa experiência provou que determinadas combinações de ingredientes são mais agradáveis que outras. Até os pratos de um mesmo jantar devem estar agradavelmente relacionados uns com os outros. Cozinhar um prato apenas ou elaborar um menu, é tudo uma questão de construir um modelo configurativo. Por outro lado, uma refeição ocidental dá a impressão de ser o produto de uma mente analítica. Carne e legumes são cozidos separadamente. Come-se carne por causa da proteína, batata e pão por causa dos hidratos de carbono, manteiga pela gordura, legumes pelas fibras; bebe-se café em razão do líquido; e, finalmente, toma-se uma pílula por causa das vitaminas!
Estrutura da Sentença, Lógica e Filosofia
Há ainda um outro sentido, mais profundo e mais estrito. no qual a linguagem influencia o pensamento. Segundo Tung-Sun Chang, a Lógica e a Filosofia ocidentais são determinadas pela gramática ocidental, enquanto que as suas contrapartidas chinesas são determinadas pela gramática chinesa (10). A sentença inglesa deve ter sujeito e predicado. Esta estrutura leva, por si mesma, ao conceito de lei de identidade, que é o fundamento da Lógica aristotélica. A proposição com sujeito e predicado dá origem aos conceitos filosóficos de substância e atributo. O estudo da substância leva à concepção de ser supremo em religião e de átomos em Ciência. Do conceito de substância derivou a idéia de causalidade, que, por sua vez, dá origem à Ciência. De modo que as categorias do pensamento ocidental são identidade, substância e causalidade, determinadas talvez, todas três, pelo padrão das sentenças nas línguas ocidentais.
Por outro lado, uma sentença chinesa não exige nem sujeito nem Predicado, embora eles possam ser muitas vezes encontrados. Em muitas ocasiões, estando o sujeito claro no contexto, é omitido; outras vezes, o sujeito simplesmente inexiste. Por exemplo, "Gotejar chuva" é uma sentença perfeitamente correta em chinês, enquanto que em inglês seria necessário dizer "It rains". A possibilidade de dispensar o sujeito em chinês torna mais fácil imaginar o cosmo num perpétuo processo circular de transição, sem necessidade de postular um agente externo para atuar ou controlar o processo. É um conceito-chave da cosmologia chinesa.
Esta concepção reflete uma falta de interesse pela substância, pelo substrato das coisas. Os caracteres escritos são apenas signos e não substância. Os fenômenos naturais também são signos. Mas dos signos vêm as coisas. Os chineses não investigam o substrato das coisas, estando interessados unicamente nos signos e em suas relações. A língua chinesa nem sequer dispõe de uma palavra para "substância". Os chineses se interessam pela Vontade do Céu, não pela natureza do Céu. A Vontade do Céu se revela nas condições sociais e políticas. Confúcio concentrou portanto a sua atenção nos assuntos humanos.
Além disso, uma sentença chinesa não precisa de verbo. "Montanha grande" é uma sentença. Não é necessário usar o verbo "ser". Na realidade, o verbo "ser" não existe no chinês clássico. Em inglês, numa sentença de definição, é absolutamente indispensável esse verbo. No chinês clássico, uma definição emprega duas palavras "vazias", Che e yeh. Por exemplo, uma definição de jen (humanidade) assumiria a seguinte forma: jen che jen yeh. O segundo jen é um caráter diferente que significa "homem". Em outras palavras, a sentença define por analogia, dizendo, com efeito, "humanidade é a qualidade do homem".
Sem o padrão sujeito-predicado na estrutura da sentença, o chinês não desenvolveu a noção de lei da identidade na Lógica, nem o conceito de substância em Filosofia. E sem esses conceitos, não poderia haver noção de causalidade, nem de Ciência. O chinês desenvolve, em lugar disso, uma Lógica correlacional, um pensamento analógico e um raciocínio relacional que, apesar de inadequados para a Ciência, são extremamente úteis em teoria sociopolítica. (11) É por isso que, primacialmente, a Filosofia chinesa é uma Filosofia da vida.
Não tendo a sentença chinesa necessariamente sujeito nem verbo, pode-se perguntar "Qual é a sua estrutura básica?" Fique entendido que certos tipos de sentenças em chinês se assemelham, de modo geral, a determinados padrões das sentenças inglesas, existindo porém algumas que não têm similar em inglês, por sua singularidade. Como salientou Chao (12), um padrão comum de sentença em chinês consiste num tópico seguido de um comentário. A pessoa que fala primeiro menciona um tópico sobre o qual vai falar e diz em seguida algo a respeito do mesmo. A ação é apenas uma espécie de comentário e. o tópico não precisa ser agente dessa ação. Por exemplo: "Ele, coração bondoso, mente estúpida". Não seria estritamente exato traduzir essa sentença por "Seu coração é bondoso mas sua mente é estúpida". Seria melhor traduzir por: "Falando dele, seu coração é bondoso mas sua mente estúpida". Ou então: "América, muitas famílias têm dois carros" significa "Falando da América, muitas famílias têm dois carros". Chao compara esse tipo de sentença à sinalização nas estradas inglesas: "Terceira rua, conserve a direita". A Regra de Ouro chinesa também assume essa forma: "O que você não quer para si, não faça aos outros".
Tal estrutura de sentença sugere que o tópico é mais vasto e mais abrangente do que o comentário. O que está de acordo com a idéia de que o cosmo é infinitamente complexo e o que podemos dizer a seu respeito se reduz a comentários ínfimos, que mais distorcem a verdade do que a revelam.
Essa convicção está subjacente à atitude mística no Taoísmo, filosofia que agiu paralelamente ao Confucionismo e com ele interagiu na história do pensamento chinês. O Taoísmo também considera o "ser" e o "não-ser" como interdependentes, e insiste sobre o fato de que o ser extrai sua utilidade ou função do não-ser. A utilidade de uma tigela não está em suas paredes e sim em sua concavidade. Essa ênfase atribuída ao não-ser leva à idéia de não-ação, na conduta pessoal tanto quanto no governo, ao apreço pela quietude e pela meditação, à importância do emprego de espaços vazios para contrabalançar os objetos numa pintura chinesa, etc. Essa atração pelo não-ser talvez seja influenciada pelo fato de que, em linguagem, os chineses devem prestar uma atenção especial às palavras "vazias" que, embora destituídas de significado próprio, desempenham um papel crucial na estrutura de uma sentença. Uma vez dominadas as palavras "vazias" habituais, o estudante terá vencido a parte mais difícil da gramática chinesa.
Nesta análise, evidentemente, ficam definidas apenas algumas das maneiras segundo as quais a estrutura da língua chinesa pode ter influenciado a formação do pensamento tradicional na China. Passemos agora a considerar o outro lado da moeda; isto é, como as idéias ocidentais que se impuseram na China moderna levaram a modificações na linguagem.
A Criação de Novos Termos
Depois que as comportas se abriram em virtude da derrota da China na Guerra do Ópio (1839-42), o país se viu inundado por um afluxo de coisas e idéias ocidentais, algumas das quais não tinham nome em chinês. Era preciso criar novos termos. Havia duas soluções alternativas para o problema. A primeira seria usar os caracteres chineses ou símbolos fonéticos para a transliteração do som ou sons da palavra inglesa. A segunda seria forjar uma nova palavra ou expressão com caracteres chineses para traduzir o significado da palavra estrangeira. Os dois métodos foram utilizados tanto na China como no Japão; mas a China deu ampla preferência ao segundo método, ao passo que a moderna tendência no Japão é para a transliteração por meio da escrita fonética. [Os japoneses desenvolveram um silabário fonético especial, katakana, precipuamente destinado a transliterar palavras estrangeiras]
Não dispondo originalmente de uma escrita fonética, pareceu in- cômoda aos chineses a transliteração de sons estrangeiros em caracteres ideográficos. De modo que, na maioria dos casos, recorreu-se ao método da tradução. Por exemplo: um trem foi chamado huo ch'e (fogo carruagem); uma caneta-tinteiro. tzu lai mo shui pi (pena trazendo sua própria tinta líquida); átomo, yüan tzu (partícula original); etc.
Traduziu-se "democracia" como min chu chu yi (povo senhor senhor significado). Este composto de quatro caracteres é, na realidade, produto de dois caracteres compostos. O primeiro constituinte compósito significa "povo sendo senhor", e o segundo significa "uma doutrina ou ideologia mestra". A totalidade do composto de quatro caracteres significa "a ideologia que diz ser o povo senhor do país". Da mesma forma, "comunismo" é kung ch'an chu yi (propriedade comunal senhor significado).
Quando se descobriu o urânio, foi preciso criar um caráter inteiramente novo para designá-lo em chinês. Sua construção obedeceu ao quarto princípio de formação dos caracteres, já analisado, combinando-se um elemento significativo, ou radical, e um elemento fonético. O radical escolhido foi o caráter que significa "metal", escrito do lado esquerdo do recém-criado, e o elemento fonético é um caráter que se pronuncia "u", escrito à direita. A combinação resultante, considerada como um caráter simples, pronuncia-se u. [N. Curiosamente, U (ou yu) representa a germinação de um grão e, por extensão, "princípio", "origem", "ponto de partida", "causa" (cf. L. Wieger, Chinese Characters, Dover Publications, Nova Iorque, 1965); isto poderia levar o leitor a interpretar semanticamente (ainda que "a posteriori") a segunda parte do composto, já que o urânio, o mais pesado dos elementos naturais, é a "origem" ou "ponto de partida" da energia atômica...]
A Renascença Chinesa
Os contatos com o Ocidente trouxeram para a China as idéias de consciência nacional, lealdade nacional e independência nacional. Essas e outras noções ocidentais deram origem em 1917 a um movimento de libertação lingüística, intelectual, social e política, conhecido como Renascença chinesa, que empolgou o país durante uma década mais ou menos. (13) Uma das fases desse movimento preocupou-se com o fato de que, embora sempre tivesse havido na China uma unidade lingüística na escrita, não havia unidade no falar. Um número considerável de pessoas, particularmente no litoral sudeste da China, falava dialetos muitos diversos. Visando à unificação do falar, os líderes promoveram e finalmente garantiram a adoção oficial do mandarim como língua nacional, que seria ensinada nas escolas de todo o país. Como o mandarim já era falado como língua materna por cerca de setenta por cento da população chinesa, excluídas as minorias étnicas, sua adoção constituiu um objetivo exeqüível. Criou-se, e passou a ser utilizada nos manuais impressos, uma escrita fonética elaborada com partes dos caracteres chineses. Ela poderia ser colocada ao lado dos caracteres para indicar as pronúncias nacionais dos mesmos.
A unidade lingüística na escrita é dada por uma língua morta: o chinês clássico. Seu vocabulário e seu idioma, a gramática e o estilo são algo arcaicos. Embora constitua um excelente recurso para a poesia e outros escritos literários, ela se adapta com dificuldade às necessidades da descrição científica, do raciocínio preciso e até mesmo da literatura realista. De modo que uma outra fase da Renascença teve de se haver com a adoção do falar comum da maioria das pessoas (isto é, do mandarim) como meio de comunicação escrita para todas as finalidades. Esta proposição, que desencadeou a Renascença, suscitou uma grande controvérsia. Terminou com a vitória dos advogados do vernáculo, em 1922. A partir de então, todos os manuais das escolas elementares foram obrigatoriamente editados em mandarim e o chinês clássico vem sendo ensinado apenas nos cursos médio e superior. O objetivo desse movimento era a unificação do falar e da escrita, e a produção de uma literatura viva numa língua viva.
Tal reforma lingüística promoveu, de fato, uma grande emancipação da mente chinesa nos domínios literário, intelectual e cultural. Rompeu com as rígidas convenções do passado e deixou-se fascinar pelas idéias e pela expressão literária ocidentais. Os escritores experimentaram as formas ocidentais da poesia e do drama, escreveram versos livres, criticaram a herança cultural chinesa e enalteceram a Ciência e a democracia do Ocidente. Espocaram periódicos às centenas e uma enxurrada de livros novos, escritos no vernáculo, ajudou a aplacar a sede de novos conhecimentos: As transformações sociais (reforma do sistema familiar, emancipação das mulheres, aumento da mobilidade social, etc.) e os movimentos políticos (antifeudalismo, antiimperialismo, nacionalismo, etc.) começaram a manifestar-se e a vicejar. Esses aspectos da Renascença fogem ao escopo deste ensaio. Basta dizer aqui que as reformas lingüísticas não tiveram lugar num vácuo social; estiveram, pelo contrário, intimamente ligadas aos movimentos sociais e políticos. Os efeitos da Renascença ainda continuam.
Até a gramática e o estilo de escrever do inglês têm sido imitados. Alguns escritores adotaram o sistema de pontuação usado em inglês. O chinês clássico não tem sinais de pontuação e as citações não são realçadas por nenhuma marca. Considerava-se um insulto ao leitor não esperar que ele fosse capaz de fazer pausas nos lugares convenientes do texto, ou de identificar a fonte de uma citação. Essa ausência de pontuação leva por vezes à ambigüidade. Ao adotar a pontuação inglesa, passamos a nos desviar para o lado do supérfluo. Por exemplo: colocar um ponto de interrogação depois de ma, partícula interrogativa, no final de uma pergunta, é uma redundância.
A influência do Ocidente afetou até a gramática chinesa. Em chinês, raramente se usa a voz passiva. Com referência a objetos inanimados, a voz ativa tem significado de passiva. Por exemplo: "O címbalo e o tambor percutem forte", quer dizer "o címbalo e o tambor são percutidos fortemente”. Referindo-se a uma pessoa, a voz passiva é indicada pelo símbolo pei precedendo o verbo, como em pei sha (ser morto). A voz passiva é usada apenas em circunstâncias desastrosas. De modo que um purista dificilmente diria em chinês: "Fui convidado para jantar". Ele diria "Alguém convidou-me para jantar" ou então "Recebi um convite para jantar". Atualmente, sob a influência ocidental, o emprego da voz passiva está generalizando-se e é bastante comum dizer-se "Ele foi eleito presidente" sem ficar implícito que ele fez face a uma oposição! (14)
Outra pequena prova de ocidentalismo nos escritos literários sofisticados é a colocação de uma cláusula dependente depois da cláusula principal, ficando ambas separadas por um traço. Esta construção contraria as normas gramaticais do chinês. Ainda não é muito comum na redação corrente, mas parece que vai sendo cada vez mais praticada. Outro desenvolvimento é a tendência a imprimir o chinês em linhas horizontais em lugar do sistema tradicional, em que se escrevia e lia em colunas verticais. Isso é de uso particularmente comum nas revistas científicas para facilitar a incorporação de fórmulas e equações ao texto chinês. A impressão horizontal é hoje prática corrente em todos os jornais e revistas da China continental.
Reforma da língua e eliminação do Analfabetismo
A alfabetização universal é uma das características distintivas de uma nação moderna, mas a natureza ideográfica dos caracteres chineses representa um enorme empecilho à realização dessa meta. Alguns caracteres correntemente utilizados contêm muitos traços, e embora em outros os traços sejam poucos, a colocação errônea de um, por pequeno que seja, transformaria o caráter noutro muito diferente. Como na maioria dos casos a forma dos caracteres não tem relação alguma com a pronúncia deles, cada um tem de ser aprendido de cor. O que, evidentemente, retarda o ritmo do aprendizado e impede a educação universal.
Foram tomadas três providências diferentes, visando a diminuir essa dificuldade. A primeira foi a seleção dos caracteres mais habitualmente usados, a fim de formar uma lista das palavras básicas. Esses caracteres devem ser ensinados nas escolas elementares e nos cursos de alfabetização. O Comitê de Reforma da Língua da China Comunista publicou em 1952 uma lista de palavras comuns contendo 1010 caracteres na primeira classe com referência à freqüência de utilização, e 490 caracteres na segunda classe, totalizando 1500. Além disso, há uma lista suplementar de 500 caracteres na terceira ordem de freqüência. Calcula-se que, tendo aprendido os 1 500 caracteres básicos, uma pessoa esteja capacitada a ler cerca de noventa e cinco por cento dos "textos de leitura popular". Esta percentagem parece otimista, visto como um jornal médio utiliza cerca de 4000 caracteres.
A seleção dos caracteres básicos é apenas parte de uma tarefa mais vasta porque, lembre-se, o chinês moderno emprega um grande número de compostos, os quais têm de ser aprendidos como unidades. Em 1958, foi publicada uma lista de 20000 compostos correntemente usados em mandarim. Incidentalmente, há cerca de 400 desses compostos para cada um dos quais existe, pelo menos, um outro vocábulo compósito, pronunciado exatamente da mesma maneira e com o mesmo tom. Se fossem escritos foneticamente, só se poderia estabelecer uma distinção entre eles através do contexto.
A segunda tentativa de erradicação do analfabetismo consistiu em simplificar os caracteres complexos pela redução do número de traços de cada um. Conseguiu-se isso mantendo uma pequena parte do caráter complexo; ou então substituindo um elemento mais complicado por um mais simples; ou ainda adotando um homófono mais simples no caso dos caracteres intrincados; e de várias outras maneiras mais. Formas simplificadas de muitos caracteres vinham sendo usadas há muito tempo pelos homens de negócios, mas eram mal vistas pela elite educada da velha China. Elas têm agora a aprovação oficial e vêm sendo criadas novas formas simplificadas.
Um exemplo extremo de simplificação é o do caráter ch'ang (fábrica), cujos quinze traços foram reduzidos a dois. Em 1956, o governo da China Comunista promulgou oficialmente uma lista de 515 caracteres simplificados a serem utilizados em lugar das formas complexas originais em todas as publicações. Como muitos deles servem de radicais para numerosos outros, o efeito da simplificação vai muito além dos 515 caracteres oficialmente arrolados. A análise mostra que aqueles 515, em suas formas originais, tinham em média, cada um, 16,1 traços, ao passo que, depois da simplificação, o número de traços por ideograma desceu para 8,2 (uma redução, portanto, de 50%).
O terceiro esforço a favor dessa campanha de alfabetização consistiu na elaboração de um plano de transformação da escrita, que abandonaria os caracteres ideográficos para adotar um alfabeto. Depois de muitos estudos, a China comunista anunciou em 1958 a adoção das vinte e seis letras do alfabeto latino usadas em inglês, e de um sistema padronizado para escrever o mandarim com esse alfabeto - com exceção da letra "v" que seria usada apenas para reproduzir sons estrangeiros e das línguas minoritárias da China. Esse sistema (15) emprega letras simples, dobradas ou mesmo mais de duas em combinações, para representar vinte e uma consoantes, seis vogais, e vinte e nove ditongos. Há quatro sinais diacríticos para indicar os quatro tons e um sinal divisar para indicar, sempre que necessário, que duas vogais adjacentes, ao serem soletradas, devem ser pronunciadas isoladamente. Esse sistema está sendo usado (1) para indicar a pronúncia mandarim dos caracteres, e como auxiliar para o aprendizado do mandarim, língua nacional padrão; (2) para ajudar as minorias étnicas existentes na China, que não dispõem de sistemas próprios, a criar uma escrita para suas línguas; (3) na transliteração de nomes próprios estrangeiros e de termos científicos; (4) para ajudar os estrangeiros a aprenderem o chinês; (5) para compilar índices; e (6) para substituir eventualmente os caracteres. É linha de ação prevista pelo regime comunista utilizar este sistema em lugar dos caracteres em data futura, ainda não determinada.
Na verdade, a substituição dos caracteres por uma escrita alfabética encontraria no momento presente várias e sérias dificuldades. Uma delas diz respeito ao grande número de palavras homófonas. Por exemplo, os caracteres que significam "novo", "coração", "salário" e "prazer" são todos pronunciados hsin, no primeiro tom, embora os caracteres escritos sejam muito diferentes. Se a sua grafia alfabética correspondesse aos respectivos sons, eles seriam enunciados de maneira idêntica, e o leitor teria de adivinhar o sentido exato baseando-se no contexto.
A tendência do chinês moderno a usar expressões compostas, cada uma delas constituída por dois ou mais caracteres, tomando-se assim, em certo sentido, um idioma polissilábico, representa uma solução parcial para o problema dos homófonos. Entretanto, de acordo com uma análise preliminar, dos 14000 compostos, cerca de 790 grupos têm pronúncias idênticas e, por conseguinte, também são escritos alfabeticamente de maneira idêntica, implicando 1986 caracteres homofônicos. Quando o significado correto de um homófono não pode ser inferido através do contexto, a única maneira de elucidá-lo numa sentença redigida alfabeticamente é incluir imediatamente depois da palavra homófona o ideograma adequado, ou usá-lo em lugar da expressão alfabética. É o que se faz na transmissão de telegramas na China comunista entre as estações ferroviárias, onde boa parte do conteúdo dos telegramas diz respeito às operações de rotina da estrada de ferro. Cerca de cinco por cento das palavras nesses telegramas têm de ser transmitidas em símbolos de código numérico, conversíveis em caracteres ideográficos. Contudo, as agências públicas do telégrafo não usam de maneira alguma a escrita alfabética; seguem ainda o método tradicional da conversão de cada ideograma num número quadri-dígito, de acordo com um código para transmissão arbitrariamente convencionado, que será reconvertido em ideograma ao ser recebido. Significa isto que, pelo menos nas atuais circunstâncias lingüísticas, a escrita alfabética dos chineses carace de inteligibilidade, precisão e segurança quanto ao significado, e suas conseqüências são também aleatórias. Não obstante, o governo comunista adotou recentemente urna política de estímulo para que o povo empregue uma mistura de escrita alfabética e de ideogramas na escrita informal.
Outro problema sério na escrita alfabética é a união de elementos num composto para escrevê-los como uma só palavra. Até agora não existem regras que padronizem a definição ou a delimitação dos compostos. Esse problema fica esquecido quando se escreve chinês com os caracteres ideográficos, pois estes não se agrupam na sentença de modo a indicar os compostos. Mas escrever cada um dos componentes de um composto separadamente, em escrita alfabética, representa a perda da individualidade da expressão escrita. O resultado pareceria quase tão destituído de sentido quanto, entre nós, "A mér i ca é u ma de mo cra ci a." O correspondente em chinês de "pequena burguesia" é hsiao (pequena) tzu ch'an (propriedade) chieh chi (classe). Esta expressão pode ser escrita como uma palavra única e comprida, ou em duas ou três palavras, dependendo de como se delimitem os componentes internos do composto integral. A escrita terá de apresentar uma padronização muito maior no agrupamento dos elementos dos compostos, em relação ao estágio atual, antes que se possa escrever o chinês alfabeticamente de maneira inteligível.
Um terceiro obstáculo para que se escreva o chinês alfabeticamente vem da falta de uniformidade na pronúncia, no vocabulário e até na estrutura gramatical, não somente entre os dialetos, como até mesmo no mandarim. O símbolo para "irmão mais velho" pode ser pronunciado ko ou ke "Cimento" pode ser designado como yang hui ou shui ni.
"A não ser que a maioria concorde, então poderemos chegar a uma decisão" é hoje tão aceitável quanto "A não ser que a maioria concorde, não poderemos chegar a uma decisão". Essas variações já são bastante embaraçosas quando escritas em caracteres chineses, mas seriam ainda mais dificilmente reconhecidas em escrita alfabética. Normalmente, a sintaxe e a gramática chinesas já são suficientemente elásticas para provocar freqüentes ambigüidades. (16) A menos que se faça um maior acordo baseado num uso mais uniforme, a confusão e a ambigüidade talvez fiquem acrescidas pela escrita alfabética.
São essas as reformas que se estão processando na língua na China Comunista, e os problemas concomitantes. O governo nacionalista, antes de perder a parte continental para os comunistas, mostrou-se favorável à seleção dos caracteres básicos para o ensino às crianças e analfabetos, assim como à utização de uma escrita fonética como auxiliar para a pronúncia, mas não favoreceu a substituição dos caracteres. Havia duas formas de escrita fonética. Denominava-se uma Gwoyeu Romatzyh (Romanização Nacional), e utilizava o alfabeto latino para indicar a pronúncia mandarim dos caracteres. Como essa forma se assemelha à escrita ocidental e não pode ser convenientemente impressa ao lado dos caracteres, seu emprego jamais se tomou extensivo, nem foi oficialmente encorajado. A outra forma era chu yin tzu mu (as "Letras Fonéticas Nacionais"), e consistia em trinta e nove símbolos derivados de elementos de antigos caracteres chineses. Esta forma tem sido regularmente ensinada nas escolas elementares controladas pelo governo nacionalista e demonstrou ser um instrumento eficiente para ensinar o mandarim a pessoas que não o falam, e com um alto grau de precisão na pronúncia. Desde 1937, todos os livros de texto das escolas elementares têm de ser Impressos em caracteres chineses à cuja direita vem indicada a respectiva pronúncia em "Letras Fonéticas Nacionais". O receio de incorrer numa grave ruptura com a herança cultural chinesa impediu a China nacionalista de estimular oficialmente a simplificação dos caracteres, embora a maioria das pessoas recorra, dentro de uma certa medida, a formas abreviadas na escrita cotidiana. O governo nacionalista tem-se oposto energicamente - como era de supor - à escrita alfabética.
No continente, os defensores das reformas declararam que somente o pensamento marxista seria capaz de produzir as reformas da língua. (17) Sem ser necessário aderir a esse ponto de vista particular, é indiscutível que as concepções ocidentais provocaram mudanças lingüísticas na China moderna. Por outro lado, Hajime Nakamura demonstrou que a ideologia budista - elo comum entre os hindus, os chineses, os tibetanos e os japoneses - tem sido submetida a diversas interpretações por esses quatro povos em virtude das diferenças lingüísticas. (18) Assim sendo, não serão as idéias ocidentais, e as concepções marxistas em particular, modificadas na China, em virtude das peculiaridades lingüísticas dos chineses, muito embora estas últimas já estejam passando por transformações? A interação entre a linguagem e o pensamento em chinês, como nas outras línguas, é real e tem inúmeras ramificações. A consciência dessa interação liberta o indivíduo de uma espécie de prisão semântica e lhe torna possível evitar uma armadilha em que caiu Immanuel Kant. Desconhecendo línguas de tipo não-ocidental, provavelmente, Kant foi levado a admitir que as categorias do pensamento por ele formuladas eram universais no pensamento humano. Nada menos verdadeiro. A compreensão da interação entre a linguagem e o pensamento é sem dúvida algum um dos requisitos essenciais de uma educação liberal.
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1. Para uma descrição completa da língua chinesa feita por um lingüista ilustre, consultar Yuen Ren Chao Mandarin Primer (Cambridge, Mass., 1961), pp. 3-71.
2. Literary Chinese by the lnductive Method, 3 vols. (Chicago, 1939-1952), I, p. 3.
3. Sheng-hu-Chu, The Seven English Speech Tones, Analyzed and identified with Musical Tones and Chinese Speech Tones, by Jee Sane Woo (Nova Iorque, 1959).
4. Gilbert W. King e Hsien-Wu Chang, "Machine Translation of Chinese", Scientific American (junho, 1963) p. 130.
5. Ernest F. Fenollosa, The Chinese Written Character as a Medium for Poetry (Londres, 1936).
6. Histórias interessantes sobre a origem dos caracteres chineses individuais, ilustradas e contadas de maneira imaginativa, muitas das quais são etimologicamente verdadeiras, podem ser encontradas em Rose Quong, Chinese Wit, Wisdom, and Written Characters (Nova Iorque, 1944).
7. Benjamin Lee Whorf, Language, Thought, and Reality (Cambridge, Mass. 1956), pp. 140 55.
8. Em chinês, a preposição vem depois do nome, em lugar de precedê-lo como em inglês. Visando à inteligibilidade, inverti a ordem das terceira e quarta palavras em cada linha da tradução, mas não na versão romanizada.
9. Para urna descrição mais completa deste e de outros tipos de poesia chinesa e das técnicas literárias neles implicadas, consultar James J. Y. Liu, The Art of Chinese Poetry (Chicago, 1962).
10 . Tung-Sun Chang, “A Chinese Philosopher's Theory of Knowledge", ETC., IX, N.o 3 (Primavera 1952, pp. 203-226). 246
11. Consultar Harvard University, General Education in a Free Society (Cambridge, 1945), pp. 65-67). Esse trecho analisa três tipos de pensamento efetivo que, embora não mutuamente exclusivos, possuem cada qual a sua área de adequação na mente humana: reflexão lógica em Ciências Naturais, reflexão relacional nos Estudos Sociais e reflexão imaginativa em Humanidades. No pensamento Chinês, até a reflexão imaginativa tem laivos da reflexão relacional.
12. Yuen Ren Chao, "How Chinese Logic Operates", Anthropological Linguistics, I, N.o 1, pp. 1-8
13. Para uma descrição direta feita pelo mais notável líder desse movimento, consultar Shih Hu, The Chinese Renaissance (Chicago, 1934).
14. Para outras práticas gramaticais que estão aparecendo, consultar Yuen Ren Chao, "What is Correct Chinese?", Journal of the American Oriental Society, 81, N.o 3 (agosto-setembro 1961), pp. 171-177.
15. Este ensaio emprega o sistema Wade-Giles para a romanização dos caracteres chineses. Por conseguinte, as romanizações aqui não deverão ser tomadas como exemplos de escrita alfabética segundo o novo sistema.
16. Exemplos curiosos de ambigüidades podem ser encontrados em Yuen Ren Chao, "Ambiguities in Chinese", Studia Serica Bernhard Karlgren dedicata (Copenhague, 1959).
17. Para um sumário da discussão teórica referente à reforma lingüística na China, e seus antecedentes históricos, consultar Paul L.-M. Serruys, Survey of the Chinese Language Reform and the Anti-Illiteracy Movement in Communist China (Berkeley, Calif., 1962).
18. Ways of Thinking of Eastern Peoples: Índia, China, Tibet, Japan, ed. rev. (Honolulu, 1964).
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