Escola Yin - Yang

por Ricardo Joppert em O Alicerce Cultural da China. (1979), Editora Avenir, Rio de Janeiro.
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Escola do Yin- Yang: Os primeiros cosmogonistas chineses
Escola do Yin- Yang é uma denominação tradicional, herdada da dinastia Han, mas que não coincide com a realidade dos fatos. Com efeito, já durante os Han imperava uma confusão que reuniu sob um mesmo nome pelo menos duas linhas de pensamento, análogas, é bem verdade, mas cuja evolução se fizera por caminhos diversos. A chamada “Escola do Yin- Yang” originou-se nos meios ocultistas que trataram, durante os Zhou, e, talvez, até antes, de mágica, adivinhação, astrologia e numerologia. Tais ocultistas eram globalmente conhecidos como “Fang Shi ou Fang Shui Zhi Shi”. Eram todos praticantes de artes ocultas, mas o ângulo sob o qual as abordavam e as exploravam diferia de um para outro circulo de especialistas. Desse modo temos hoje duas linhas principais de pensamento, englobadas indistintamente por alguns estudiosos modernos e entre as quais convém, por motivos de clareza, estabelecer uma fronteira.
Durante o feudalismo, cada família aristocrata abrigava especialistas hereditários em artes ocultas, consultados antes de decisões importantes a serem tomadas. A desintegração do sistema feudal trouxe o desemprego a tais praticantes do oculto e, como tantos outros intelectuais, viram-se eles obrigados a dispersar-se no meio do povo e a vender seu trabalho a quem o solicitasse. Pouco a pouco certos sistemas perderam toda influência, mas outros suscitaram interesse a ponto de serem suas doutrinas registradas por escrito e mesmo, posteriormente, incorporadas aos próprios clássicos confucionistas.
As artes ocultas compartilham com a ciência, de que foram talvez a origem, um certo desejo de interpretar a natureza e forçá-la a servir o homem. Primeiramente de uma forma muito rudimentar, mas depois com progressiva evolução, elas procuram analisar a estrutura e a origem do Universo e dão, numa fase última de pensamento, uma explicação aos fenômenos em termos de forças naturais. Colocam-se então muito próximas da ciência, que, na verdade, constitui a compreensão racional do mistério, em contrapartida ao medo do ignorado, fundamento de toda religião. Enquanto o confucionismo não se preocupou com o sobrenatural, apesar de aceitá-lo, enquanto o taoísmo procurou passivamente anuir-se às forças maiores da Natureza, os praticantes da magia e das artes ocultas desenvolveram, por sua vez, uma doutrina muito mais dinâmica, que acreditava ser possível ao homem impor-se ao Universo, reduzir o macrocosmo e o Destino à condição de escravos, através de uma investigação das leis cósmicas, realizada não para curvar-se diante delas, mas para dominá-las.
No “Tratado de Literatura”, apêndice à História (oficial) da Dinastia Han anterior, enumeram-se seis classes de artes ocultas: astrologia, almanaques, teoria dos Cinco Elementos Básicos da Natureza, adivinhação por ossos e carapaças de animais e pelos ramos da planta do milefólio (achillea ptarmica), adivinhações por outros processos e fisiognomonia, ao lado do sistema a que se chamou mais tarde de “Feng Shui” (“Vento e Água”). Esse último é baseado no conceito de que o homem é o produto do Universo. Sua casa, seu túmulo, tudo, enfim, que lhe diz respeito deve ser construído em harmonia com as forças naturais.
Chegaram até nós somente duas linhas principais do pensamento referente às artes ocultas, ambas eivadas de fragmentos de outras doutrinas ocultistas e mesmo combinadas entre si. O primeiro sistema interpretou a estrutura do Universo. Consubstancia-o a chamada “Teoria dos Cinco Elementos” (Wuxing). “Wu” é o número 5 e já mostra a que ponto a numerologia também estava envolvida na questão. “Xing” quer dizer “agir”, “fazer”, “caminho”. Assim, poderíamos dizer, com Feng Youlan, “5 Agentes” ou “5 Atividades”, uma vez que “Xing” se refere a forças dinâmicas e interagentes, elementos formadores do Universo e entre os quais o total desse último se acha decomposto. Segundo a teoria, as mudanças históricas interpretam-se de acordo com as revoluções e transformações dos “Cinco Elementos”. A sucessão das dinastias harmoniza-se com o predomínio natural de determinado Elemento, ao qual se identificam os novos governantes. A teoria dos Cinco Elementos está registrada em duas obras da filosofia chinesa: num tratado chamado “Hong Fan” (“A Grande Norma”), incorporado posteriormente ao Shujing (“Anais da China” ou “Clássico dos Documentos Escritos”), e num pequeno almanaque, o “Yue Ling” (“Determinações Mensais”), agregado, numa de suas versões, ao “Liji” (“Livro dos Ritos”).
No “Hong Fan”, os Cinco Elementos são: a água, o fogo, a madeira, o metal e a terra. Tais elementos mudam e agem sem cessar e constituem o todo do Universo. A eles dão-se correspondentes numéricos (1, 2, 3, 4, 5). 5 é o número da “terra”, emblema do centro e não deve ser contado, mas a soma dos valores restantes (1 + 2 + 3 + 4) é igual a 10, número da unidade total, que corresponde a 1, unidade simples. Os elementos também correspondem às estações, aos pontos cardeais e às cores. São, pois, categorias espaço- temporais. A água simboliza o norte, o inverno e a cor negra; o fogo, o sul, o verão e o vermelho; a madeira, o leste (onde nasce o sol), a primavera e o verde; o metal, o oeste (onde o sol se põe), equivalente ao outono e ao branco, cor do luto. A terra, elemento central, é neutra. Segundo o Hong Fan, os elementos sucedem-se por destruição: uma dinastia em decadência, que tivesse o símbolo da água, só seria substituída por uma cujo emblema fosse o fogo, pois, diz o Hong Fan, a água tem a propriedade de molhar e descer; o fogo, de queimar (isto é, secando a água) e elevar-se. Transporta ao plano político, a teoria dos Cinco Elementos revezados por sucessiva destruição serviu para justificar o espírito de conquista na época do declínio da Casa de Zhou e foi identificada à “Teoria das Cinco Virtudes” (Wude), cuja ascensão e cujo declínio correspondiam ao início e ao fim do direito de governar de uma dinastia.
A Teoria dos Cinco Elementos, tal como se acha no Hong Fan, teria sido esposada por Zou Yan, figura maior da chamada “Escola do Yin - Yang” no século III antes da nossa era, o patrono da filosofia da História acima explicada. Zou Yan, segundo o historiador Sima Qian, teria escrito livros que totalizavam mais de cem mil caracteres (6). Toda essa obra foi praticamente perdida e o que dela sabemos está registrado em citações de outros autores.
O segundo texto que trata da teoria dos Cinco Elementos é o almanaque chamado “Yue Ling” (“Determinações Mensais”). O Yue Ling contém uma série de prescrições, relativas a cada mês, tendentes a harmonizar aos ciclos celestes os da existência terrestre. Corno o Soberano era o mediador entre o Céu e a Terra, ele deveria, num palácio chamado Mingtang (“Assembléia da Luz”), símbolo de seu Reino, acompanhar o curso das estações. O Mingtang compunha-se de nove salas, que formavam um quadrilátero e correspondiam às nove províncias da China. Em cada uma delas, o Soberano cumpria mensalmente ritos sazonais adequados. Assim, o Imperador fazia eco ao ciclo sucessório dos Elementos e mantinha a harmonia do macrocosmo e microcosmo. Segundo o Yue Ling, os Elementos sucedem-se por produção e na seguinte ordem: madeira, fogo, terra, metal e água. A madeira é consumida pelo fogo e produz terra (= cinza); os minerais são, por sua vez, produzidos pela terra, pois nela se encontram e, liqüefeitos pelo fogo, tomam a aparência da água (isto é, produzem líquido). Cada Elemento, correspondente a uma estação do ano (menos a Terra, elemento neutro, colocado no centro e equivalente a um mês ideal de repouso), gera atividades que não devem ser as mesmas para todos os meses. Assim, por exemplo, no primeiro mês de primavera (do ano lunar, que era o vigorante na China), toda diligência deveria voltar-se para trabalhos de semeadura. O próprio Soberano mune-se de um arado e sulca a terra, simbolizando a desfloração da virgindade do solo, a abertura do caminho à sua fecundação e à influência geradora do Céu, influência essa representada pela chuva, o sêmen divino. Preparam-se os trabalhos agrícolas. Proíbe-se o corte de árvores e a destruição de ninhos. Nenhuma cria ou fêmea animal devem ser mortas, a fim de não atrapalhar o fluxo positivo de vida na Natureza. Na época de germinação toda guerra fica interdita.
Durante cada mês de primavera, o Filho do Céu ocupa um dos três quartos do Mingtang situados a leste e neles circula ritualmente num carro em forma de fênix ornamentado de bandeiras verdes, ao qual se atrelam dragões verdes. O Soberano veste-se de verde, cor da Primavera, e adorna-se de jade, a fim de estar em harmonia com a cor dos bosques. Nos meses de verão, o Filho do Céu passa a morar nas salas do lado sul do Mingtang (na China antiga, a posição do sul era invertida em relação à. que lhe atribuímos no Ocidente, isto é, os aposentos do sul, no Mingtang, ficavam no ápice do quadrilátero do edifício). O carro em que circula é então vermelho, bem como as vestes do Soberano e os jades ornamentais. Os cavalos são ruços, de caudas negras. O fogo, elemento do verão, tem a propriedade de elevar-se: proibidos são, pois, os trabalhos que impliquem em aplainar a terra, bem como em cortar árvores altas. Indultos são concedidos aos criminosos. Recomenda-se o retiro e evita-se o excesso de agitação. É o momento da separação máxima entre o Yin e o Yang e, portanto, tudo convida à meditação e não às atividades corporais. A vida sexual, própria da primavera, deve reduzir-se ao mínimo. O sopro vital deve ser conservado e não sofrer agitações através de paixões. No verão não se fazem guerras. Seguindo-se ao terceiro mês de verão, há um período intermediário em que o Filho do Céu, no aposento central do quadrilátero do Mingtang, simboliza estar no eixo de seu reino. De lá ele observa o “ciclo dos astros em torno da Viga Celeste (Tianji)”, constituída essa pela constelação da Ursa Maior. O Filho do Céu veste-se então de amarelo (cor da terra), circula num grande carro feito de uma prancha quadrada (símbolo da Terra), a qual cobre um pálio arredondado (símbolo do Céu). O Imperador, colocando-se entre um e outro símbolos, representa o Intermediário Supremo no eixo do mundo. O Outono, por sua vez, é uma estação de justiça e repressão. É quando o Yang, força positiva, declina e perde terreno para o Yin, pólo negativo. O Filho do Céu, acompanhando o ritmo natural do Universo, passa a viver a oeste do Mingtang, lado do sol poente. O gavião lança-se, no outono, à caça e à morte. O Soberano imita-o e circula no seu carro de guerra, ao qual se atrelam cavalos brancos de crinas negras. O Filho do Céu veste-se de branco, cor do luto na China. Seus jades são brancos e ele alimenta-se de plantas fibrosas e carne de cão. Impera o metal, elemento de que se fazem as armas. No Outono é propício castigar os opressores e os negligentes. As prisões são reparadas. O Céu e a Terra começam a mostrar seu rigor. A pena de morte pode, então, ser aplicada aos crimes sérios. Não há mais liberalidade e feudos não podem ser distribuídos aos vassalos: a época é de recolher e não de conceder. Devem construir-se muralhas e edificar-se cidades. Os depósitos de cereais devem estar repletos, à espera do Inverno. No último mês do Outono, há o retorno dos campos, onde se passa a vida na primavera e no verão; o fogo, que se acendera nas regiões do plantio, “é levado às cidades e vilas”. Interrompem-se as atividades nos campos. No Inverno, o Filho do Céu retira-se para a “Sala Escura” (Xuantang) no Mingtang, situada ao norte do Palácio (isto é, na parte inferior do quadrilátero, pois como o norte corresponde ao elemento água, sua propriedade é descer e não elevar-se, como o fogo). “O Sopro Celeste ausenta-se da Terra; o Sopro Terrestre afunda num abismo”. Como no Verão, quando existe um afastamento entre Céu e Terra, também no Inverno (já que os opostos se tocam) “não há mais comunicação entre um e outro”. “Tudo está finalizado, tudo está fechado: é então que o Inverno se instala”. Para aumentar a energia vital e renovar as alianças humanas, organizam-se grandes festas, em que todos se alcoolizam. O Soberano, no Xuantang, circula num carro de cor escura, ao qual se atrelam corcéis cinza - ferro. Suas roupagens são negras, ornamentadas de jade azul - escuro. Como no verão, o sábio, no momento em que Yin e o Yang estão em conflito, retira-se e permanece em repouso. Ele procura atingir urna paz interior que auxilia o Yin e o Yang a reencontrarem tranqüilidade. Sacrifícios são realizados no último mês de inverno, a fim de que o novo ano, já próximo, seja propício. Finalmente, o Rei promulga um novo calendário.
Se os “Cinco Elementos” explicam a estrutura da Universo, nada elucidam sobre a origem das coisas. Coube a segunda linha de pensamento cosmogônico chegada até nós o mérito de fazê-lo. Partindo do Dao, “Não- Ser” primordial, gerou-se o “Ser” básico (simbolizado pela Unidade). A Unidade bifurcou-se, já que era o Absoluto mostrado em seu aspecto dinâmico e produtor. Nessa divisão estabeleceram-se os dois princípios fundamentais da criação diversificada, o Yin, princípio feminino e o Yang, princípio masculino. Já vimos um esboço de explicação a respeito dos dois conceitos, quando tratamos do Laozi e de sua numerologia (capítulo 42 do Daodejing). Através da ação conjunta do macho e da fêmea essenciais, produziu-se todo o Universo. Embora constituam noções comuns a todo o pensamento chinês, no contexto especifico da cosmogonia o Dao, o Yin e o Yang exprimem especialmente as regras essenciais encontradas na origem de toda mutação operante no Universo. O Dao preside ao conjunto das transformações e é então encarado como um Princípio Ordenador; o Yin e o Yang são suas manifestações e Nele se confundem. “Yi Yin yi Yang zhe wei Dao” – “Um aspecto Yin, um aspecto Yang, eis o Dao” – é a definição dos dois conceitos em relação ao Princípio que os gerou. O Dao é o todo que se constitui desses dois aspectos, ora referentes, na arte da adivinhação, a noções espaciais (inspeção de locais propícios ao estabelecimento de uma cidade, por exemplo), ora referentes a noções temporais (ocasiões favoráveis). Para representar o princípio Yang, os chineses imaginaram uma linha reta e una, pois os números do Yang são sempre impares. O Yin seria composto de uma linha quebrada em duas, pois os seus números são sempre pares. Acredita-se hoje que a origem de tais representações teriam sido as rachaduras provocadas pela introdução de um bastonete de metal sob a ação do logo, nos ossos de animais e carapaças de tartaruga, durante o processo de adivinhação através desse método, praticado na dinastia Shang. As rachaduras unas dariam uma resposta positiva do oráculo e as fendas duplas seriam equivalentes a “não”. Pouco a pouco, os chineses desenvolveram o sistema e os traços simples deram origem a combinações por redobramento, às quais um terceiro elemento se acrescentou. Produziram-se assim, oito trigramas fundamentais (bagua), cada um deles formado de superposições de três linhas, divididas ou unas:


Combinando-se ainda dois trigramas de maneira a formar diagramas de seis linhas, constituíram-se 64 hexagramas (chonggua), que, segundo Maspero, não são representações simbólicas de uma coisa, mas a coisa ela mesma em sua realidade. O todo da vida e dos seres são os hexagramas. Tais trigramas e hexagramas mostram a passagem das realidades de um estado a outro; são, efetivamente, realidades que se transformam sem cessar e mostram os movimentos dos latos do Universo em suas evoluções. Através dos hexagramas podemos saber as tendências do movimento natural das coisas do mundo. Cada situação na vida exige um comportamento apropriado e, através dos hexagramas, transposição sintética de todas as realidades da vida, pode-se saber qual a conduta a seguir em determinado caso concreto. A adivinhação por ossos de animais e carapaças de tartaruga dava um “sim” ou um “não” como resposta a urna pergunta. Os hexagramas desenvolveram algo muito mais complexo, mostrando um curso certo para as atitudes. São uma forma de mostrar ao homem qual a verdadeira maneira de integrar-se no ritmo do Universo e, assim, projetar seu futuro.
“Nem os fenômenos da Natureza, nem os da sociedade humana são estáticos”, diz Max Kalternmark, “eles estão era constante mutação (yi); graças aos símbolos divinatórios, a simplicidade pode ser reencontrada detrás da complexidade das coisas, e a não - mudança, detrás da mudança, pois as mutações realizam-se era obediência a ritmos imutáveis”.
O sistema está consubstanciado no “Clássico das Transformações” (Yijing, Yiching ou Yiking), no qual cada hexagrama vem acompanhado de um texto breve que dá a explicação do mesmo chamado Tuan; cada linha do hexagrama recebeu, também, uma interpretação própria – Yao – palavra que significa “mudar, entrecruzar”. É a forma exterior do hexagrama que domina sua análise. Os hexagramas de linhas simétricas são funestos, A posição relativa das linhas ocupa, também, papel importante em sua interpretação. Acreditava-se que os espíritos ancestrais davam a cada linha um sentido especial e a reunião dos significados particulares consistia no significado total. O texto do Yijing, os Tuan e os Yao constituem uma fonte de conselhos para a conduta correta do homem e associam-se à formação de seu destino; pois suas ações intervêm nos acontecimentos como fatores decisivos. Pelo Yijing o homem conhece o germe dos fatos e, enquanto esses permanecem num estado incipiente, ainda é possível governá-los, antes que se tornem realidades poderosas demais. Os hexagramas apresentam o emblema dos movimentos e transformações do mundo e da vida; graças à consulta ao Yijing chega-se ao todo de uma situação antes que ela ocorra. Uma vez obtido esse todo, o oráculo indica o que é necessário fazer, a fim de adaptar-se às exigências do momento. A idéia fundamental é, pois, a de um Universo em constantes transformações que se refletem no homem. Os sábios que reconhecem essa noção não vêem mais as coisas individualmente, mas consideram-nas no plano da lei eterna que cinzela cada mutação. Conhecedor dos emblemas do Yijing, o sábio imerge nos mistérios da vida e da morte e atinge uma serenidade que o distingue das pessoas vulgares, sempre incertas ou inquietas.
Na verdade, o Yijing primitivo não menciona os termos Yin - Yang. Ele descreve o mecanismo dual, mas chama a cada um dos componentes de “flexível, maleável” (o elemento Yin) e “duro, rígido” (o elemento Yang). Yin e Yang são nomes que vieram posteriormente ao texto do Yijing e pertence, com mais propriedade, ao sistema divinatório já despido de seu fundo religioso e interpretado de um ponto metafísico, cosmológico e ético pela Escola Confucionista, que, com suas tendências ateizantes, tinha uma aversão básica a toda forma de superstições irracionais. Essa transposição do Yijing religioso para um plano filosófico materialista tem seus princípios consubstanciados nos chamados “Apêndices” do “Livro das Mutações”.
No “Grande Apêndice” (Xici), o mais importante de uma série de dez, o Yin e o Yang são descritos como aspectos do mundo invisível e visível e suas alternâncias constituem o Dao, Princípio Cósmico. O Yin e o Yang, em suas manifestações concretas, consistem no Céu (Yang) e na Terra (Yin).
O “Dao”, na concepção da Escola Taoísta, era unitário, como vimos, a fonte “sem nome” na qual se originam as produções e as mutações das coisas do Universo. O “Dao” dos Apêndices do Yijing é múltiplo: há vários “Dao”, cada um governante de uma categoria separada das coisas do Universo. Doutrina social por excelência, o Confucionismo transpôs a idéia de Dao para o sistema político-social e, assim, concebeu o “Dao” do Soberano, o “Dao” dos Ministros, o “Dao” dos pais e dos filhos. Em última análise, o “Dao”, nesses casos, era uma noção ética, consistia na forma ideal ou perfeita de exercer um papel na sociedade humana. O Confucionismo considerava os 64 hexagramas do Yijing, explicados por seus comentários globais do texto (tuan) e individuais de cada linha (yao), como representantes de todos os Dao do Universo. Ao contrário do objetivo do Yijing religioso, a interpretação filosófica ateizante confuciana do “Livro das Mutações” via na obediência a uma conduta prescrita pelos textos em questão apenas uma maneira de portar-se bem ou mal dentro da sociedade, e não uma forma de conseguir boa sorte ou evitar má sorte. O dever social importava, não a felicidade ou a desgraça pessoal. Há, pois, uma grande diferença, compreender-se-á certamente, entre o Yijing original religioso e individualista e a interpretação do Yijing consignada em seus “Apêndices”, humanista por excelência.
Na prática, consulta-se o “Livro das Mutações” de duas maneiras. Na primeira, lança-se mão de cinqüenta galhos da planta do milefólio (achillea ptarmica), os quais são separados em dois grupos. Em seguida, um dos galhos é retirado, a fim de que um dos grupos some um número ímpar e o outro, um número par. O adivinho (Shiren) coloca o galho que separou entre o quinto e o quarto dedos de sua mão esquerda. Abandonando um dos montículos, divide o outro, contando seis vezes os bastonetes quatro a quatro. O número de bastonetes restantes em cada contagem dá-lhe uma resposta: se o número é par, tem-se uma linha dividida (Yin negativa); se o número é ímpar, a linha é Yang (positiva). Recomeça-se a operação três vezes para cada uma das seis linhas (para confirmar). O método de construir um hexagrama, como se vê, é trabalhoso e, assim, criou-se um outro sistema, no qual se usam três moedas; Geralmente são peças de cobre, inscritas de um lado e lisas do outro. As três são jogadas ao mesmo tempo e o lado inscrito considera-se como Yín, com valor 2. O lado liso é Yang e vale 3. Se a soma das três moedas for 9, a linha é chamada de “velho Yang”, isto é, ela é madura bastante para ocasionar uma mutação em Yin. Se o resultado for 6 (isto é, as três moedas deixaram ver seus lados inscritos = 2), a linha é um “velho Yin”, que passará a Yang. Dois lados inscritos (2 + 2) e um liso (3) dão 7, linha dita do “jovem Yang”, dois lados lisos (3 + 3) e um inscrito (2) dão 8, linha do “jovem Yin”. As linhas jovens não se transformam. Quando houver linhas “velhas”, haverá mutação e teremos, ao lado do primeiro hexagrama tirado, um outro, com tais linhas substituídas pelo aspecto oposto ao que tinham (velho Yin transforma-se em Yang jovem e velho Yang em Yin jovem).
Vejamos um exemplo prático. Suponhamos que as moedas, jogadas seis vezes, resultassem na seguinte sucessão de números: 7, 8, 8, 8, 6, 6. Contando-se de baixo para cima, teremos um hexagrama de uma linha Yang “jovem” (7) e cinco Yin (8, 8, 8, 6, 6). Dessas últimas, as três primeiras são “Yin jovem” e as duas finais, “Yin velho” - móveis, portanto. Forma-se um novo hexagrama, em que quatro das linhas permanecem iguais (uma “Yang jovem” e três “Yin jovem”), mas as duas do topo tornam-se “Yang jovem”: 7, 8, 8, 8, 7, 7):

Primeiro hexagrama Mutação do hexagrama

6ª linha _ _ 6 ___ 7

5ª linha _ _ 6 ___ 7

4ª linha _ _ 8 _ _ 8

3ª linha _ _ 8 _ _ 8

2ª linha _ _ 8 _ _ 8

1ª linha ___ 7 ___ 7

Estará pronto, dessa maneira, o esquema da realidade da vida do consulente no momento da investigação. O primeiro hexagrama chama-se “Fu” (“Retorno”) e tem o número 24; o segundo representas “Yi” (“Aumento”) e seu número é 42 no Yijing. Consulta-se, então, no texto do Yijing, o “Tuan” que os acompanha e os “Yao” correspondentes somente ás linhas móveis (Yin velho). A interpretação seria a seguinte: depois de as linhas da escuridão (Yin) terem empurrado para o exterior do hexagrama todas as linhas da luz (Yang), uma nova linha positiva (Yang) aparece na parte inferior e indica o retorno da claridade, após a fase de negrume. Terminado o exílio da luz, tem inicio uma mutação positiva. Essa ocorreu de uma maneira totalmente natural, no momento propício e mostra-se sem subterfúgios. O “Retorno” (da luz = Yang) baseia-se no curso da Natureza e não há como evitá-lo. A analogia é com o final do inverno, quando a primavera forçosamente chega. As duas linhas superiores são móveis, isto é, o valor das moedas, tendo em ambas somado seis, indica linhas do “velho Yin”, que se transmutarão em “Yang jovens”. Assim cumpre que se leiam os “yao” a elas referentes:
1º yao (linha 5 no primeiro hexagrama): “seis na quinta linha quer dizer: chegado o momento do “Retorno”, um homem deve olhar para dentro de si mesmo e reconhecer os erros do passado”;
2º yao (linha 6): “seis na sexta linha significa: se alguém perde o momento propício para o “Retorno”, ocorrerá uma desgraça, cuja causa indireta é uma atitude errada perante o mundo; a causa direta será sempre conseqüência dessa atitude”. O que se deseja é evitar uma obstinação cega.
Uma vez que a quinta e sexta linhas do primeiro hexagrama indicam uma mutação (isto é, uma das realidades é menos imediata), constitui-se uma nova figura de seis linhas, das quais as duas superiores serão agora “Yang” (indivisas). Ter-se-á, pois, formado o hexagrama no. 42, “Yi” (o “Aumento”). Sua interpretação completará a leitura do futuro. “Yi” constitui-se dos trigramas “sun” (vento) e “zhen” (trovão). A idéia de “Aumento” é dada pela linha “Yang” na parte inferior do hexagrama. Ela indica um sacrifício do elemento superior (Yang) a fim de que se produza um benefício (isto é, um “aumento”) para o elemento inferior. Em termos de política, um bom governante tira de si mesmo para dar ao povo e “aumentar” a prosperidade dos súditos. O Homem Superior “aumenta” suas virtudes eliminando vícios e tomando a excelência de conduta por modelo. Com relação ao segundo hexagrama, não se interpretam as linhas, pois a mutação ocorreu para elementos “jovens”, isto é, linhas imóveis, que ainda irão amadurecer, para estarem aptas a transformar-se.Concluindo, convém esclarecer que, no Yijing, apenas o primeiro hexagrama (qian – o “Criador”), formado de seis linhas indivisas e o segundo (kun – o “Receptivo”), construído de seis linhas divididas, são absolutamente homogêneos, isto é, “qian” é, em sua totalidade, Yang (masculino positivo); “kun” é Yin (feminino negativo). Todos os outros hexagramas combinam linhas masculinas (Yang) e femininas (Yin). Os antigos chineses haviam muito bem compreendido a relatividade dos fatos da vida. Na maioria das vezes, nada é totalmente positivo, nem absolutamente negativo. Em última analise, é a presença do masculino no feminino e vice-versa que deseja consignar o velho “Livro das Mutações”.
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