Conceitos Básicos

Bagua e Oito Trigramas


Entre os chineses, bem como entre os gregos, havia alguns conceitos científicos básicos usados para explicar o mundo natural. Dentre eles, comum a ambas as civilizações, o que se referia às propriedades básicas da matéria. Alguns filósofos gregos, como vimos, apoiavam a teoria atômica, mas o consenso geral não aprovava tal teoria; preferia-se pressupor quatro elementos básicos (terra, ar, fogo e água) e aliá-los às quatro qualidades (quente e frio, seco e úmido).
Os chineses nunca desenvolveram uma teoria atômica, pois essa visão não combinava com o conceito de um universo natural, um vasto organismo que funcionava de acordo com a interação do comportamento reto e natural. Os moístas, é verdade, parecem ter-se inclinado para uma perspectiva atômica, mas seus pontos de vista nesse sentido não tiveram qualquer influência. Como os gregos - os chineses em geral optavam por uma teoria que usava um pequeno número de elementos básicos - em seu caso, cinco e não quatro. Essa teoria dos cinco elementos vem do passado - entre 330 e 270 a.C. pelo menos - e foi estabelecida e sistematizada por Zou Yan (Tsou Yen), por vezes chamado de fundador de todo o pensamento científico chinês e membro mais destacado da importante Academia Zhi xia (Chi Hsia) do príncipe Xuan (Hsuan). Zou Yan era naturalista e pertencia à seita dos filósofos chineses que não desprezavam as cortes dos príncipes, como faziam os taoístas, mas, apesar disso, preocupavam-se em explicar o mundo natural.
Os cinco elementos originais chineses eram a água, o metal, a madeira, o fogo e a terra, embora eles não devessem logicamente ser considerados como meras substâncias (o que não eram), mas, antes, como princípios ativos. Os elementos eram relacionados com processas existentes na natureza ou em laboratório. Assim, a água era caracterizada por molhar, gotejar e pelo movimento descendente, e era associada com o sabor salgado; as características do fogo eram queimar, aquecer pelo movimento ascendente, e seu sabor era associado com o amargo. A madeira aceitava novas formas pelo corte e pela escultura, e a acidez a caracterizava; o metal também aceitava formas pela modelagem ou pela fundição, e era de sabor acre. Finalmente, a terra era caracterizada por produzir vegetação comestível, e era doce.
Em breve esses elementos foram organizados em um sistema cíclico que se tornou muito estilizado no período Han. Esboçaram-se várias "ordens" dos elementos. Uma delas mostrava a seqüência na qual se supunha que os elementos tinham surgido, com a água como elemento primitivo. Uma outra ordem, a da "produção mútua", acreditava mostrar como um elemento dava origem a outro. Havia também a ordem da "mútua conquista", em que cada elemento podia conquistar o outro. Por exemplo, a madeira conquista a terra (uma vez que uma pá de madeira pode cavar a terra); o metal, a madeira (pode cortá-la e esculpi-la); o fogo, o metal (pode fundi-lo); a água, o fogo (pode extingui-lo). Para completar, a terra conquista a água (pode represá-la e contê-la, como os chineses sabiam muito bem, com seus eficientes e muitas vezes elaborados sistemas de irrigação). A ordem da mútua conquista era usada não só na ciência como também no campo político, pois era crença amplamente difundida que o comportamento do príncipe ou imperador e de seus funcionarias da corte poderia, se fosse bom, ser guiado pela ordem da mútua conquista dos elementos, especialmente porque esses elementos eram associados com as estações e com as manifestações do mundo natural.
Os cinco elementos eram associados com todas as experiências. Constituíam símbolos de mudança, de quantidade (eram considerados responsáveis pelo controle de um processo, dependendo da quantidade do elemento presente) e, na ocasião oportuna, eram ligados aos cheiros, assim como aos gostos, aos pontos cardeais da bússola, às funções humanas, físicas e mentais, e aos animais. Eram também relacionados com o tempo atmosférico e com a posição das estrelas, com os planetas e até com aspectos de governo. Em suma, os cinco elementos eram associados a todas as atividades, tanto naturais quanto as realizadas pelo homem.
Uma segunda idéia básica da explicação chinesa sobre o mundo natural era a das duas forças fundamentais, o Yin e o Yang. Eram usadas de maneira filosófica no princípio do século IV a.C. o Yin era associado a nuvens e chuva, ao princípio feminino, a tudo o que está dentro, que é frio e escuro. O Yang, por outro lado, liga-se às idéias de calor e tepidez, luz do sol e masculinidade. Não podiam ser encontradas separadamente, já que um era o complemento do outro; o que acontecia é que, em cada situação, um ou outro tomava a precedência ou (idéia surgida paralelamente, muito mais tarde, em nossa própria época, na terminologia da genética), um fator era dominante e o outra, recessivo.
Reprodução do Taiji e do Bagua (Oito trigramas)

Os cinco elementos e as duas forças fundamentais podiam, juntos, apresentar uma multiplicidade de associações dentro do mundo natural. Podiam cobrir tudo o que era suscetível de um arranjo em cinco partes, e as coisas que não se enquadrassem no esquema eram, posteriormente, arrumadas em outras associações - em quatro, nove, 28 partes, e assim por diante. Em outras palavras, os chineses praticavam o que é chamado de "pensamento associativo"; procuravam associações, relacionamentos entre uma coisa e outra.
Os cinco elementos e as duas forças fundamentais auxiliaram a ciência chinesa, pois tornaram possível que relacionamentos fossem definidos e, uma vez definidos, examinados. Eles indicavam como as coisas podiam "ressoar" uma com a outra, ou, de acordo com os cientistas atuais, permitiram aos cientistas chineses propor ação a uma distância entre um corpo e outro. Contudo, o que não trouxe nenhum proveito foi o modo místico de encarar esses relacionamentos, que se difundiu e foi preservado no I Ching (O livro das mutações). Este provavelmente é uma compilação das profecias dos camponeses (relatos de acontecimentos extraordinárias notadas no homem e nos animais, histórias incomuns sobre o tempo e fatos semelhantes) e do material usado para a adivinhação, e se tornou um minucioso sistema de relacionamentos simbólicos e explicações que os utilizavam. Os cinco elementos e as duas forças fundamentais eram incorporados em seus extensos apêndices, embora a idéia das duas forças se tenha freqüentemente inserido no texto principal. A esse texto principal acrescentou-se uma coleção de padrões simbólicos, cada qual composto de conjuntos de três ou seis linhas cheias ou interrompidas. Cada um desses padrões é predominantemente ou Yin ou Yang, e são dispostos de tal modo a produzir esse resultado alternadamente. Em suma, trata-se de um texto repleto de implicações mágicas, e constitui o deleite daqueles que apreciam o misticismo relacionado com os números.

Reprodução do Taijitu, Articulação entre Yin, Yang e os Cinco Agentes

O texto data provavelmente do século III a.C., embora suas origens remontem a trezentos anos antes. Se se tratasse apenas de um texto utilizado para a adivinhação do futuro, não estaríamos discorrendo sobre ele, mas os apêndices, que estavam em um plano intelectual mais elevado que o restante do texto, a muitos parecem ter significação real. Apesar de sua natureza abstrata, talvez contenham uma quantidade tão grande de relacionamentos que poderiam lançar luz sobre todos os fatos observados na natureza e explicar cada fenômeno. O livro das mutações parecia ser o livro de referência natural dos estudiosos da época Han que procuravam decifrar os problemas das marés e dos efeitos do magnetismo; infelizmente suas explicações eram apenas pseudocientíficas, e não traziam nenhum esclarecimento à luz da ciência. Certamente, a despeito dessa obra, fizeram-se descobertas de valor científico, mas, muitas vezes, desestimulavam-se essas descobertas com a alegação de que elas já constavam do Livro das mutações. Isso, naturalmente, parecia estimular-lhe a validade.
O verdadeiro perigo do Livro das mutações residia no fato de ele agir como esponja, absorvendo toda observação nova, em busca de associações apropriadas para que os novos fatos pudessem ser classificados. Um dos efeitos dessa ação foi desencorajar observações posteriores; outro, ridicularizar idéias. Apesar disso, a ciência chinesa fez progressos. Nenhuma outra civilização parece ter sofrido tanto por causa de um Livro como o I Ching, mas talvez isso não seja surpreendente; ele era, essencialmente, um extenso e complexo sistema de arquivamento de relações e estava destinado a atrair a mente chinesa, que, afinal, desenvolvera a mais extensa - e eficiente - burocracia do mundo.

in Ronan, C. História Ilustrada da Ciência pela Cambridge University. Rio de Janeiro: Zahar, 1986


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