A China e o Ocidente

Nem sempre é fácil determinar a quantidade de conhecimento científico que foi transmitida do Ocidente para a China, e vice-versa, pois linhas de pesquisa e invenções independentes mas paralelas poderiam aparecer e apareceram, em ambas as partes do mundo. Por exemplo, parece que a idéia de uma "escada de almas", que se encontraria em Aristóteles e Xuan zi (Hsuan Tzu), nasceu independentemente na Grécia e na China, pois, embora as idéias tenham aparecido com cem anos de diferença uma da outra, ocorreram em uma época em que as condições de viagem entre leste e oeste não eram propícias. Além disso, parece que todo o conceito - que constitui realmente uma expressão da complexidade das coisas vivas - poderia ocorrer muita naturalmente a uma pessoa preocupada em explicar e classificar o mundo da natureza. De qualquer maneira, a comunicação entre a China e o Ocidente não era tão rara quanto se poderia imaginar.
Já na Idade do Bronze (antes de 1500 a.C., isto é, antes da era Chang), houve contato em grande escala, como ficou provado pelas escavações arqueológicas, na forma de machadas, espadas, armaduras e outras objetos de desenhos impressionantemente semelhantes. Há ainda uma quantidade de plantas supostamente dotadas de poderes místicos que aparecem nas crenças de povos tão distintos como os da China, da Gália e do México. É claro que as informações foram difundidas pelas migrações, pelas conquistas e, sobretudo pelo comércio, que, com a China, foi estabelecido muito cedo, especialmente a exportação de seda para a Ocidente; de fato, a China foi conhecida, muitas vezes, como Seres ou Sina, nomes derivados do chinês si (ssu), que significa "seda".
O contato com a China podia ser feito, por terra ou por mar, através de rotas que passavam pela Índia: de fato, o primeiro conhecimento da China obtido pelos gregos aconteceu por meio da Índia, no século V a.C. O contato marítimo com a China propriamente dita pode ter tido início no século III d.C., e, certamente, não muito depois disso, navios chineses singraram os mares a caminho das Índias e talvez mais além. Maiores contatos foram feitos no século VIII, pelos árabes, os senhores dos mares de então, que no século IX estabeleceram suas próprias colônias de comércio em Cantão e Hangchow. No século XIII, o império dos mongóis facilitou o contato entre a China, a Ásia ocidental e mesmo a cristandade.
As rotas terrestres desenvolveram-se ao mesmo tempo que as marítimas. Por volta de 100 ªC., o comércio terrestre regular da seda foi estabelecido em certo número de rotas, seja para fora da China pelo noroeste e depois para oeste, por Tashkent e Samarcanda, ou de Lanchow para sudoeste, até Patna, e depois para noroeste, até Merv, que corresponde ao atual Turcomenistão, na URSS. Essa era a antiga Rota da Seda, que continuou em uso muito depois do século VI, quando a segredo da manufatura da seda foi roubado da China e levado para Bizâncio. Mas isso era de se esperar, pois a seda não era o único produto de exportação da China, e as rotas eram usadas por imigrantes da Síria romana e da Pérsia, para embaixadas e até para a transporte de prisioneiras de guerra. Em geral, contudo, os ocidentais parecem ter sido mais aventureiros que os chineses, e houve mais movimento do Ocidente para a China do que no sentido inverso.
Portanto, apesar do relativo isolamento da China, ela não ficou completamente livre das influências externas. Certamente, como vimos no esboço histórico, houve algumas épocas em que os estrangeiros eram bem-vindos; houve também períodos em que revoluções e guerras nas países da Ásia central, ou no Mediterrâneo e países árabes, constituíram um estorvo para as viagens. Mas, em geral, as informações se filtraram para fora da China, como o demonstra a adoção pelo Ocidente de algumas invenções chinesas. Se isso não aconteceu tão rapidamente com a ciência pura, era de se esperar, mas houve intercâmbio de idéias, como poderemos mostrar com uma descrição da ciência chinesa primitiva.

in Ronan, C. História Ilustrada da Ciência pela Cambridge University. Rio de Janeiro: Zahar, 1986


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