A Arquitetura chinesa

A arquitectura chinesa deu provas de tão grande unidade que temos a impressão de que durante milénios, no decurso dos quais os outros estilos sofreram transformações e desenvolvimentos de toda a espécie, nenhuma evolução se operou na arte da construção. Esta conclusão errônea tem duas causas: a maior parte das construções históricas que subsistem hoje na China data da época Ming e da época Ts'ing, e as obras mais antigas - correspondendo à nossa Idade Média - são menos numerosas do que no Ocidente; e as diferenças no processo de construir no decorrer dos séculos são pequeníssimas, se comparadas às características permanentes do estilo, ao contrário da Europa, onde cada estilo novo implicou uma mudança fundamental na maneira de edificar. Por outro lado, a ausência de arquitectura sagrada - apenas o pagode possui uma finalidade exclusivamente religiosa - acrescenta à uniformidade histórica a unidade tipológica: o palácio, o edifício administrativo, o salão e o templo são edificados com as mesmas formas arquitectónicas.
O facto de cada obra nova possuir, apesar de tudo, o seu carácter próprio deriva da concepção do arquitecto chinês, que dedica a sua atenção mais a um conjunto de edificações do que a um edifício individual. Um salão ou um pavilhão correspondem praticamente apenas a uma finalidade limitada, e assim é completado por outras construções destinadas a diferente utilização. A construção individual também não constitui em si própria uma obra de arte e, portanto, não é mais do que um elemento em complementaridade com outros salões, galerias, portas e pavilhões, e só se completa com a sua integração na paisagem.


Construção e géneros de edificações

Não eram estes os princípios que animavam e guiavam os arquitectos chineses no final do segundo milénio a. C. Encontravam-se então perante problemas técnicos: edificar uma armação que sustentasse um telhado, e cujos intervalos pudessem fechar-se com paredes, pois a habitação era uma caverna ou um buraco na terra, coberto por uma espécie de telhado, e assim continuou durante vários séculos para os camponeses e a maioria dos habitantes das cidades. Se se desejava edificar uma construção representativa, recorria-se antes madeira, e construía-se sobre pilares deste material.
A forma redonda da cabana de taipa, com telhado de palha ou de canas, não podia evoluir como forma especial, ritual ou artística. Inversamente, os espaços cavados de forma rectangular com um telhado de duas águas podiam permitir um desenvolvimento. Nos quatro cantos ergueram-se pilares e, entre estes, outros ainda, consoante o comprimento dos lados; depois eram ligados por traves e acima deles levantava-se um telhado de duas águas. O pau de fileira de uma construção bastante grande devia ser sustentado por uma fiada de estacas erguidas a meio do interior. Num salão em Ngan-Yang, no Honão, última capital dos Chang, fundada cerca de 1300 a. C., cuja planta pode ser reconstituída graças aos vestígios das bases dos pilares, aqueles pilares intermédios ainda tinham uma função, mas procurava-se eliminá-los, a fim de se criar uma verdadeira sala, delimitada mas sem interrupção.
A solução A, encontrada durante o primeiro milénio a. C., ficou como norma para toda a arquitectura da China. Sobre as traves do telhado, assentes nos pilares, construiu-se uma armação de traves curtas intermédias, cada uma das quais sustém uma trave mais curta, diminuindo progressivamente no sentido da altura, até que uma só trave curta, assente a meio do pilar mais alto, sustentasse a cumeeira.
A curvatura do telhado, característica da arquitectura extremo-oriental, levantou muitos problemas a respeito da sua origem. Não deriva decerto da tenda, porque os Chineses nunca viveram em tendas, e as dos Mongóis têm forma convexa e não côncava. Seria de procurar a sua origem antes no emprego de bambu, freqüentemente utilizado no Sul, não esquecendo que a cobertura de palha e de canas verga com o tempo. A esta tentativa de explicação pode objectar-se que as primeiras coberturas de telha, que conhecemos devido às reproduções figurativas do fim da época Tcheu, não têm curvatura. É somente na época Han que esta aparece, isolada e timidamente, por exemplo, na pintura mural do túmulo de Liao-yang, na Manchúria. Para proteger da chuva do sol as paredes e as aberturas, era indispensável um telhado que excedesse os limites de mera cobertura; mas para evitar-se privar do sol as janelas durante o Inverno, era preciso quebrar a linha do beiral. Praticamente, um só corte no sistema de apoio exterior bastaria para levantar a linha do beiral, mas multiplicando-se as travessas na construção da armação, tornava-se possível uma progressiva passagem do telhado oblíquo para o telhado horizontal ao utilizar-se uma linha quebrada tomada em curva côncava, graças ao uso de telhas.
Não há dúvida que foram considerações estéticas que determinaram esta passagem para a linha curva e, conseqüentemente, que tal facto haja sido um processo activo e não passivo. Teve o seu prolongamento no esforço para levantar as pontas do telhado, como foi de regra a partir da época Song, o que se obteve por meio de uma tábua que se apóia no barrote e no rincão. Enquanto na China do Norte esse arqueado é muito moderado e os cantos se elevam pouco, a China do Sul prefere uma linha grandemente arqueada e tendo força suficiente para elevar os cantos em longas pontas.
Invenção particular dos arquitectos chineses são os capitéis em consola. O pilar de madeira chinês não sustenta apenas a arquitrave sobre o seu capitel, como a coluna grega; tem funções diversas nos vários lados, a alturas diferentes. As vigas inferiores da arquitrave, por exemplo, são encaixadas no pilar como se o atravessassem, e para reduzir os vãos das vigas saem do pilar consolas que alargam a superfície de suporte e que, graças a uma pequena escora, sustentam o peso total. Sobre a escora podem encaixar-se ainda outros braços - e assim a consola desenvolve-se até seis níveis e mais, formando um conjunto complexo. O desenvolvimento rico da armação e o telhado largamente saliente, a repugnância de reforçar em diagonal e de empregar aduelas resultaram em consolas formando conjuntos complicados, que a partir da época Song se tomam características da arquitectura extremo-oriental.
Se se ergue uma armação de pilares e vigas sobre uma plataforma rectangular, e se cobre com um telhado de telhas, e se se formam as paredes por um enchimento de alvenaria e de tijolo, no qual se englobam as janelas e portas de madeira, obtém-se a forma fundamental da arquitectura chinesa: o salão. A entrada situa-se a meio do lado maior, onde estão igualmente todas as janelas, ou pelo menos as maiores. Uma fila de colunas em frente da parede, do lado da entrada, ou em toda a volta do edifício, pode formar uma varanda ou um peristilo, freqüentemente protegido por um telhado em coroa de uma só vertente. O telhado de duas águas pode também ser substituído por um telhado de empena. Tais são as variantes mais importantes do motivo do salão.
As diversas partes da construção podem ser modificadas de várias maneiras: a plataforma pode tornar-se um terraço de mármore, com três degraus e balaustradas. Às vezes, apenas as paredes das empenas testeiras são de alvenaria; as paredes dos lados maiores podem ser inteiramente compostas por portas altas ou grandes janelas, com grades de madeira ornamentada, sobre um soco baixo em alvenaria; ou então, as paredes sobem até à arquitrave e são rasgadas por pequenas janelas. O intervalo entre os pilares é variável, sendo o maior tramo no meio e conservando-se sempre a simetria. Muitos telhados podem sobrepor-se e rematar em empenas ornamentadas. No interior, o madeiramento aparece em toda a riqueza dos seus elementos, acentuada ainda pela cor, ou então um tecto, a maior parte das vezes constituído por pequenos caixotões de madeira, esconde-o.
Quando o rectângulo da planta se reduz a um quadrado, tem-se o tipo da construção central com telhado piramidal. Já nos primeiros séculos da era cristã se encontram na China os tectos “em lanterna”, ou seja, em clarabóia. As vigas cortando obliquamente o ângulo do quadrado formam no interior um quadrado mais pequeno, repetindo-se até ao fecho da abertura. A cúpula sobre consolas, que inscreve um círculo num quadrado, é um processo que, em vez de destacar claramente a construção, como o tecto em clarabóia, multiplica os meios de enriquecer a ornamentação.
A máxima variedade tanto na planta como nos alçados encontra-se em pavilhões que se erguem sobre rectângulos, quadrados, losangos, hexágonos e octógonos, círculos, e em leque, podendo mesmo ter a forma de dois círculos ou de dois quadrados que se cortam. Plantas em forma de cruz - com braços largos e curtos - também se encontram nos grandes edifícios.
Deste modo, é característico da arquitectura chinesa possuir sempre uma planta geométrica na qual nenhuma consideração de utilização ou de disposição interior pode introduzir uma irregularidade. Os pagodes em andares são construções sobrepostas, do tipo centrado, que se erguem a uma altura invulgar. Assim, também a importância de uma obra arquitectónica só pode ser aumentada dentro de certos limites por um edifício individual, por exemplo um salão. A justaposição característica de corpos de edificações, formando cada qual um todo, surge com especial nitidez nos pagodes com andares e galerias. Também nos pagodes com degraus e nos pagodes T'ien-ning se sucedem os níveis em gradual diminuição. As linhas horizontais dominam as verticais, que apenas ficam indicadas ao longo da construção. O pagode de madeira é construído em tomo de um grande pilar que atravessa todos os andares e ao qual se prendem todas as partes do edifício, o que não é visível no exterior.
Tal como a stupa indiana, assim o pagode chinês é um relicário, embora tenha mantido esta finalidade sem lhe tomar a forma. Deriva antes das torres de guarda com vários andares, e ficou com uma função de vigilância. Por exemplo, a torre do Mosteiro T'ien-ning, perto de Pequim, protegia o palácio imperial contra as influências nefastas que poderiam penetrar por um desfiladeiro de montanhas do Oeste, em frente da capital; o pagode está situado exactamente no eixo do desfiladeiro e do palácio dos imperadores Ts'in.
Uma outra forma típica da arquitectura chinesa é o p'ai-lu, isto é, porta de honra. Um p'ai-lu aponta certas direcções: acesso aos templos, cruzamentos, pontes, etc. Muitos deles são monumentos dedicados a pessoas virtuosas ou de mérito. É bela a idéia de honrar a sua memória, por meio de uma porta através da qual diariamente passam numerosas pessoas. Originariamente, foram edificados em madeira, e depois quase sempre com pequenos telhados de telha, por cima das suas três ou cinco aberturas de passagem. Mas existem também de mármore ou de tijolos vidrados, pouco se afastando, porém, da forma das construções de madeira.
A madeira e o tijolo são materiais perecíveis e, ao contrário dos Japoneses, os Chineses cuidaram pouquíssimo dos seus monumentos. Os que caiam em ruínas eram quase sempre abandonados, até que fosse necessário e financeiramente possível construir uma edificação com nova planta. Por esse motivo tão poucas obras antigas chegaram até nós. Existe um grande número de templos e mosteiros cuja história remonta a mais de mil anos, mas não há um único edifício que pertença à época dos fundadores e nenhum possui mais do que algumas centenas de anos.
As excepções a esta deplorável carência devem-se ao facto de a arquitectura chinesa não empregar exclusivamente madeira. A construção maciça de pedra e tijolo não era desconhecida, e a abóbada (falsa ou verdadeira) empregava-se na época Han; mas os Chineses recorreram a estes materiais somente quando coagidos por exigências práticas. Foi sobretudo com fins defensivos que utilizaram a construção maciça de tijolos e que cobriram as galerias com abóbadas de berço. Um pequeno número de salões de tijolo abobadados ainda se conserva, como, por exemplo, em Wu-t'ai-chan, no Shansi. A pedra, material nobre, era empregada em vez de tijolo no soco das edificações representativas. O mármore substituía a pedra comum nas balaustradas dos terraços e das pontes e enquadrava as arcadas das janelas e das portas nas construções importantes.
Os salões de menor importância e os pavilhões eram por vezes inteiramente construídos de pedra, mas são raríssimos. À frente dos túmulos, na época Han, erigiam-se pilares de entrada maciços (chamados chü-e) e pequenas salas de sacrifícios. Em ambos os casos a construção de pedra. imita a de madeira, e assim podemos saber como eram as primitivas formas das consolas e das telhas. O metal muito raramente era empregado na construção. Um pequeno pavilhão de bronze no Palácio de Verão de Pequim não é mais do que uma fantasia, e foi a pedido do imperador K'ien-long que os missionários jesuítas dirigiram a sua fundição. Por sua vez, o Templo Hing-kong, em Jehol, mostra um telhado de bronze dourado.
É no pagode que se empregam mais livremente os diferentes materiais de construção. Um alto pagode de ferro, esbelto, com treze andares, ergue-se em Yu-Kien-seu, em Chinchu, no Hupei; foi ediflcado em 1061. Um terraço de templo num mosteiro da montanha sagrada de Wu-t'ai- chan, no Shansi, tem cinco pagodes de bronze, e uma imaginação livre realça neles as formas arquitectónicas tradicionais, que não são impostas pelo material. Os pagodes de pedra, como os de mármore, nas montanhas a oeste, perto de Pequim, são extremamente raros, ao contrário dos pagodes de tijolo.. que foram conservados em grande número; o Pagode do Ganso Bravo, em Sian, construído por volta de 650 e renovado entre 701-705, apresenta um aspecto determinado pelo material, com um telhado muito pouco saliente, as paredes lisas moderadamente articuladas e as vigas da arquitrave também imitadas em fieiras de tijolos.
Os pagodes de tijolo dos séculos posteriores imitam as ,construções de madeira, sendo os pilares e as consolas exactamente reproduzidos em tijolo, com minúcia exagerada; esta riqueza de formas é ainda salientada por uma ornamentação em relevo. Nos pagodes denominados “de porcelana”, rujas superfícies estão guarnecidas com tijolos vidrados multicolores, a cor acrescenta-se ao relevo, dominando o amarelo, o verde, o azul-turquesa e o branco. O maior e mais célebre dos pagodes de porcelana, reproduzido em todos os livros de viagens do século XVIII, erguia-se em Nanquim, desde 1431 até 1853, data da sublevação dos T'ai-p'ing. Mas nos parques imperiais em tomo de Pequim subsistem ainda três pequenos pagodes vidrados, que se edificaram por ordem de K'ien-long, em meados do século XVIII.


Articulação e planta

A própria essência da arquitectura chinesa encontra-se no salão e no pavilhão. Os pagodes, os pórticos, os p' ai-lu e os terraços contribuem apenas para acrescentar a esta base essencial as características de liberdade, inventiva e engenho.
O que caracteriza cada edificação é a sua clara divisão em três partes: o soco e os degraus; os pilares e as paredes, com portas e janelas; a armação em consola e o telhado. Os andares não derivam uns dos outros; adicionam-se como elementos independentes e de igual importância. As linhas de separação são linhas horizontais muito nítidas, que não deixam penetrar nenhuma vertical no andar superior, e só raramente se encontrando interrompidas por uma guarnição do telhado ou um alpendre protector colocado acima da entrada. O peso dos três andares é mais ou menos o mesmo nos edifícios representativos. Somente nas edificações mais simples é que o soco se encontra tão baixo que se torna menos evidente.
O soco é constituído por tijolos ou pedra, tal como o pavimento. Para as paredes, têm o mesmo valor a madeira e o tijolo: a madeira para os pilares, portas e janelas; o tijolo para as paredes cheias, que podem ser decoradas, até à altura da arquitrave, a partir da qual domina exclusivamente a madeira. As pesadas telhas, ocas e compridas, assentes numa alternância côncavo-convexa, determinam, pelas linhas acentuadas de sombras, o carácter do nível superior da edificação.
Os três andares são tratados diferentemente. O soco não é pintado, mostrando o tom pardo do tijolo ou o branco do mármore. A parede de tijolo é também parda, ou rebocada a branco, ou negro e branco, mas nos edifícios imperiais é rosa-escuro. Os pilares vermelhos reservavam-se para o imperador, mas hoje as paredes, as portas e as janelas são igualmente vermelhas. Nas construções decoradas com riqueza, colocam-se no reboco rosa medalhões de tijolo vidrado verde, amarelo e branco. Por vezes, tijolos de cor sublinham a estrutura da fachada de madeira.
No interior, quando não há decorações murais figurativas, as superfícies são larga e tranqüilamente articuladas e as cores são opacas, como por exemplo o ocre nas paredes. A decoração em cerâmica colorida acentua o aspecto liso da parede, que raramente recebe ornatos em relevo, como a empena do templo da deusa T'ai-chan, em Kling-yan-chu, no Xantum, que está coberta por uma densa decoração de figuras em relevo, de tijolo vidrado, com cores.
A cor e o movimento animam-se na zona do telhado, e sobretudo à sombra dos telhados salientes. À cor de pilares e traves acrescentam-se formas ornamentais esculpidas, principalmente na extremidade das vigas. As próprias consolas ostentam motivos de um efeito plástico muito directo, de cores brilhantes, que caracterizam as diversas partes consoante a sua função. As largas superfícies das vigas cobrem-se abundantemente com motivos tradicionais pintados; a par de motivos simbólicos - como as plantas aquáticas, que protegem dos incêndios -, vê-se grande quantidade de flores, aves, paisagens e cenas de género. O aspecto discreto da decoração, juntamente com as sombras profundas dos telhados, que protegem e velam as cores resulta no facto de aquela não se impor visualmente. Também no interior, a pintura do vigamento e dos caixotões se mantém na penumbra. Acima deste movimento colorido desenvolve-se uma zona de pinturas indicadas mais fortemente, mas sem articulações.
Os telhados dos edifícios imperiais são cobertos com telhas vidradas de amarelo; os templos têm-nas verdes; e as edificações do Templo do Céu, em Pequim, possuem-nas de um azul profundo. Nas pequenas construções, nomeadamente nos jardins, os telhados mostram o jogo variegado de telhas amarelas, verdes, azul-turquesa e violetas, tal como os pavilhões da colina do Carvão, também em Pequim. As casas simples são cobertas com telhas cinzentas: nelas não se aplica a cor senão nos pilares e nas vigas, nas portas e nas janelas, e mesmo nos edifícios públicos são sobretudo os elementos plásticos de cerâmica vidrada, sob a forma de filas de figuras animais, que alegram o conjunto, sem contudo quebrarem a unidade e o volume do telhado protector.
Na Antiguidade, a parte anterior do salão servia de zona de recepção; do lado de trás encontrava-se uma série de pequenos quartos privados. Os palácios dos Han tinham, à direita e à esquerda da sala principal, uma sala anexa. Não era de regra, segundo parece, que uma edificação devesse ter uma única sala. Mais tarde, também isso se observa raramente, com excepção dos grandes salões dos palácios e dos templos. A divisão em quartos separados é o mais das vezes obtida por ligeiras divisórias de madeira, que se vê claramente terem sido acrescentadas. A unidade exterior e interior, característica de qualquer construção chinesa mantém-se sempre.
Uma única edificação não pode constituir por si só um palácio, um templo ou um mosteiro, e não basta mesmo para uma família que haja ultrapassado o nível de vida mais modesto. O pátio interior é uma zona importante de toda a construção, porque os Chineses desviam as suas edificações do mundo exterior, em direcção a este pátio, que ganha assim uma importância particular. Nas grandes famílias, para separar as mulheres e as crianças da zona do senhor, da vida social e dos negócios, havia atrás do salão outros pátios com outros edifícios de habitação. Sendo a China um país onde se podem prever com alguma segurança os períodos secos e chuvosos, torna-se conveniente arranjar os exteriores e os interiores com uma finalidade complementar. Nos palácios e nos templos, para as festas e cerimônias em que participam numerosas pessoas, os panos e os terraços são muito espaçosos. Nas casas particulares, o pátio é um local importante para se estar durante a estação quente. Não é arranjado como um jardim; pavimenta-se, crescendo as árvores em canteiros quadrados, e as flores em vasos ou selhas.
Tão corrente como a divisão em três andares de cada edifício, a organização do conjunto consiste numa série de pátios quadrangulares. No meio, do lado sul, encontra-se um pórtico; no lado norte, com entrada virada ao sul, o grande salão. Edificações anexas, mais baixas, limitam o pátio dos lados este e oeste. Neste somatório de elementos equivalentes, cada um destes encontra-se simultaneamente independente e relacionado com os demais; cada salão, por exemplo, exige um pátio de dimensões determinadas para a sua valorização; pavilhões e anexos devem relacionar-se, por sua vez, uns com os outros e com o espaço livre.
Esta organização depende, todavia, de numerosas variantes. O terreno pode obrigar a deslocar o eixo principal, que, em regra, tem o sentido norte-sul, para a casa, o palácio, o templo e a cidade. À porta sul podem acrescentar-se as portas este ou oeste, bem como o acesso a outros pátios localizados nos lados. Mas são principalmente as diferenças de altura e da forma do telhado que conferem aspecto particular a cada grupo de edificações. O grau de curvatura do telhado, o comprimento da cumeeira, os telhados simples ou duplos, a alternância entre a empena e as águas dão à arquitectura chinesa o aspecto variado que faz a sua beleza.
Nos palácios e nos templos, a planta e os alçados dos pátios e dos salões estão mais rigorosamente obrigados à axialidade e à simetria do que nas habitações privadas, sobretudo se estas possuem jardins em vez de pátios. Nos grandes parques, as construções adaptam-se ao terreno, ruja forma natural é acentuada pelos pavilhões e pontes. Na criação do jardim como obra de arte, a arquitectura tem uma função de igual importância.
Nos livros rituais da época Tcheu, é de rigor o eixo do palácio no sentido norte-sul. Neste eixo situam-se os salões principais, o santuário dos antepassados fica do lado este, e o altar da divindade da Terra do oeste. Acontece o mesmo na Cidade Proibida de Pequim, cujo centro é formado por dois grupos de três salas de cerimónias. No sul encontra-se, desde a época dos Ming, o T'ao-miao, templo dos antepassados do imperador, e a oeste o altar da Terra, sobre o qual foi espalhada terra de cinco cores, que simbolizam os quatro pontos cardeais e a do meio a própria China. Nas edificações laterais, reservadas para administração, à direita e à esquerda da ala principal que conduz ao palácio propriamente dito, encontra-se do lado este o Wen-Hua-tien, “a sala do brilho da escrita”, e a oeste o Wu-ying-tien, “a sala da coragem guerreira”. Os caracteres wen e wu, que na administração significam “civil” e “militar”, mostram princípios de igual importância mas com funções opostas, ocupando na planta simétrica lugares de igual plano. A construção chinesa propõe-se expressar pela arquitectura uma ordem de acordo com as relações humanas, e, como uma tal ordem se deve integrar na ordem universal, a arquitectura representa esta relação com o cosmos. Por isso a direcção norte-sul possui tanta importância em qualquer construção de conjunto como a simetria que estabelece o equilíbrio.
Segundo a preferência dedicada em diversas épocas a diferentes teorias a respeito da edificação do mundo, seguiu-se uma certa divisão do calendário ou tomaram-se por base os cinco elementos, etc. Estas relações cósmicas complicadas deviam ser particularmente respeitadas nas edificações cuja função era a representação de uma ordem de valor reconhecido por todos. A disposição do Ming-t'ang, no Palácio Real, do “salão luminoso”, que data da época Tcheu, é um exemplo célebre. Encontra-se citado em numerosos textos e, desde a época Han, como símbolo venerável da soberania; infelizmente não se conseguiu reconstituir a planta e os alçados, visto os textos serem obscuros e contraditórios. Toda- via, encontra-se claramente exposta a concepção da arquitectura como expressão de uma ordem suprema que permite ao homem separar-se do fluxo atordoador dos fenómenos naturais. Um edifício não pode existir sem um conjunto, e marca o lugar que o homem e a ordem da sua comunidade ocupam no plano da ordem universal, não podendo evoluir o homem senão por via desta integração.
A ciência secreta dos Chineses, a geomântica, estabeleceu, sob o nome de feng-shui (vento-água), uma infinidade de regras segundo as quais cada construção, que se insere na paisagem, deve ser realizada de maneira que traga felicidade.
A maneira de qualquer grande conjunto de construções, a cidade está inteiramente submetida a essas regras, às mesmas necessidades e às mesmas exigências. A disposição da capital num quadrado ou rectângulo remonta à época Han. De cada lado encontravam-se uma ou mais portas, e as ruas principais ligavam-nas, dividindo assim a cidade em rectângulos, no interior dos quais um emaranhado de ruelas tortuosas se desenvolvia isento de qualquer preocupação de ordem. O palácio situava-se no eixo central, quase sem- pre a norte, de maneira que a cidade se espalhava perante o Filho do Céu voltando o seu rosto para sul.
A nova capital edificada pelos imperadores Suei - Tch'ang-ngan, hoje Si-ngan, no Shensi - tinha, já na época T'ang, numerosas características que prefiguravam o aspecto que tomou Pequim mais tarde, quando Yung-lo, imperador Ming, transferiu a capital de Nanquim para o Norte, em 1417. No interior de um retângulo muralhado, um outro retângulo mais pequeno continha os edifícios oficiais, os palácios principescos e os grandes templos, rodeando estas edificações o próprio palácio, que era protegido e encerrado por fossos e muralhas. A cidade de Pequim, denominada dos Tártaros, mostra ainda hoje nitidamente essa disposição. Yung-lo prolongou um pouco para o sul o retângulo que contivera Khan-balik, a capital da dinastia Yuan; assim, as torres com sinos e címbalos que se elevavam bem acima das casas, a fim de protegê-las do fogo e dos inimigos, encontram-se agora na parte norte de Pequim em vez de se situarem ao centro. Como a cidade imperial, que rodeava o Palácio de Inverno, os seus parques com lagos artificiais, os grandes templos e os palácios ocupavam muito espaço na cidade tártara, acrescentou-se do lado sul, também no século XV, uma “cidade chinesa” - cidade comercial e artesanal, com a forma de um retângulo comprido. Esta cidade era rodeada pela própria muralha e espalhava-se por um terreno maior do que as oficinas e as casas que então podiam ocupar, pois era concebida como refúgio para as épocas agitadas.
O facto de não ser um templo mas o palácio imperial o que forma o centro do Império do Meio é característico da ligação estabelecida pelos confucianistas entre a religião e a política. Do palácio, o imperador, na sua qualidade de Filho do Céu, dispensava as forças benéficas sobre o império. O Altar da Terra e do Céu, o Salão dos Antepassados, o Templo de Confúcio, do deus das Letras e do deus da Guerra, e depois o crescente número de santuários budistas, lamaístas e tauistas, estavam subordinados e unidos à sede do Filho do Céu como as estrelas em volta da Estrela Polar.


Evolução da arquitectura dos palácios

Na época Chang, até as paredes das edificações representativas eram feitas de terra batida, sendo o telhado uma simples cobertura de palha ou de canas. Os edifícios mais importantes eram guarnecidos com enfeites nas portas, nos pilares e nas vigas. Encontraram-se em Ngan-yang, capital dos Chang, obras plásticas arquitecturais de mármore, figuras de animais e máscaras de demónios. A face do t'ao-t'ieh. que tão frequentemente aparece nos bronzes sagrados desta época, figura no cimo das paredes e dos pilares. Encontram-se igualmente fragmentos de pinturas murais, executadas a vermelho e negro sobre argila amarela, e em parte incrustadas de nácar e osso. Nelas reconhecem-se os dragões e os t'ao-t'ieh como principais motivos.
Parece que desde o final da época Tcheu se utilizaram telhas, primeiramente para a protecção da cumeeira, e, em seguida, na consolidação dos beirais do telhado, mas neste caso ornadas com os rostos de demónios ou espíritos prótectores. Na época Han, o emprego de telhas já tem fins múltiplos, e as placas redondas que fecham as longas telhas semi-cilíndricas estão ornamentadas com animais orientados nas quatro direcções do céu, e com caracteres de escrita que prometem a felicidade. Grandes placas de tijolo oco, com mais de um metro de comprimento, formavam as paredes interiores das câmaras funerárias. Desenhos lineares em relevo pouco acentuado, de cavalos, tigres, aves, árvores, guardas e viaturas encontram-se nas lajes de pedra dos túmulos mais ricos, e são um substituto das pinturas murais figurativas, que já nos últimos séculos antes da nossa era decoravam os salões das grandes personagens.
As placas de argila e de pedra do século II d. C. do Szechwan e do Xantum documentam-nos nomeadamente sobre o estado da arquitectura. O telhado em curva ainda não se implantara, e a ligação entre os pilares e as vigas, graças a capitéis-consolas, era realizada de maneira singela. Os edifícios dos salões eram, em parte, de dois andares: no rés-do-chão os servidores preparavam a refeição de cerimónia, que era servida na sala do andar superior. Largas escadarias conduziam ao salão.
O desenvolvimento que tomou a arquitectura dos palácios no reinado de Che-Huang- Ti, primeiro imperador Ts'in, a partir de 221 a. C., manifesta os progressos realizados na técnica da construção. Os imperadores Han quiseram retomar a magnificência dos edifícios de Che-Huang- Ti que haviam sido pasto das chamas quando da queda da dinastia e cuja glória todos louvavam ainda. Nas capitais Tchang-ngan e Loyang edificaram-se novos palácios com torres-pórticos e salões de cerimónia imensos com terraços e galerias. O que ainda hoje resta da plataforma em que se elevava outrora o salão do Palácio Wei-yang, em Loyang, tem cerca de cem metros de comprimento.
Os pavilhões que se encontravam no exterior da muralha da cidade eram rodeados por parques zoológicos, com lagos, colinas artificiais e rochedos estranhos. Os cronistas descrevem a rica decoração, os ornatos preciosos de bronze e jade e os dourados, que faziam destes palácios mundos maravilhosos que nada tinham de comum com as cabanas cobertas de palha. O relevo arquitectural parece haver alcançado o seu apogeu na época Han, com tigres nos batentes das portas, ursos sustentando as vigas e dragões enrolando-se à volta dos pilares. Nas colunas de pedra, chu-e, que protegem o acesso aos túmulos dos Han - dos quais vários se conservam no Szechwan - vemos reproduzidos estes relevos arquitecturais e estas formas gravadas. No decorrer das épocas seguintes a ornamentação em relevo perde progressivamente a importância, sendo na maioria dos casos substituída pela pintura.
Dos palácios Han não resta qualquer edificação e, para o conhecimento das seis dinastias da época T'ang até às dinastias Song e Yuan, vemo-nos obrigados a recorrer aos textos que comportam grande número de descrições. Por outro lado, como a arquitectura do templo deriva da dos palácios e não se afasta dela essencialmente nas linhas gerais, os poucos templos que subsistem, bem como os mosteiros japoneses, permitem-nos seguir a história desta evolução. O sistema de consolas foi melhor concebido, e a construção de tectos e telhados foi sistematicamente aperfeiçoada para se obter maior solidez. Depois de uma super- abundância de decorações, chegou-se a uma relação equilibrada entre construção e ornamentação; assim, o telhado de várias águas predominou sobre o telhado de empena, o qual, no entanto, quebrando a curva das linhas das arestas, retomou o predomínio na época T'ang. Os salões dos templos de Nara, no Japão, como o de Toshodaiji, no Hokaido, que foram construídos no século VIII e que seguem de perto os modelos da arquitectura T'ang, têm um simples telhado de várias águas, embora o telhado do edifício do Salão de Ouro de Toshodaiji tenha sido sobrelevado mais tarde. A construção sobre pilares de madeira continua como regra na arquitectura chinesa, e as formas derivadas da madeira servem de modelo quando se emprega qualquer outro material.
A pintura da época Song dá-nos uma rica imagem da arquitectura de então, que teve grande predilecção pelo arranjo de jardins, construções de planta muito livre e edifícios graciosos. Nela encontramos igualmente a indicação do carácter arquitectural dos palácios, que também se orientavam para a graciosidade, e um aspecto mais alegre do que imponente e mais confortável do que representativo. O salão era sempre ligado aos pavilhões por galerias; preferia-se um grupo de construções médias ricamente diferenciadas ao predomínio de um grande edifício principal, de maneira que a forma fundamental do salão, embora identificável, não se distinguia já claramente dos restantes corpos. Os arquitectos chineses edificaram os palácios dos soberanos e príncipes mongóis da dinastia Yuan utilizando este mesmo critério. No Ying-tsao Pa-chi, obra em vários volumes sobre arquitectura, apresentada ao imperador pelo arquitecto do estado Li-Ming-Chong, em 1100, pode ver-se até que ponto este estilo e esta técnica de construção se desenvolveram e fixaram na época Song.
O aspecto sobrecarregado não aparece, na época Ming e Ts'ing, senão nas pequenas edificações anexas, como as torres de canto da Cidade Proibida, com os seus telhados fantasistas, e nos pavilhões de jardim. Os grandes edifícios ficam à parte, maciços e isolados.. como o do grande Salão dos Sacrifícios que Yung-lo, imperador Ming, fez construir em 1409 em frente do seu túmulo, a norte de Pequim. As paredes são lisas e grossas; na armação, a madeira é utilizada com prodigalidade para dar a impressão de peso e de riqueza. Entre as poderosas massas severas da parede e do telhado comprimem-se formas miúdas de pinturas e cinzelagens que, na arquitectura Ts'ing, possuem uma aparência de barroco tardio mas sem o comunicarem, no entanto, ao resto do edifício. Somente o exagero que os Japoneses deixaram desenvolver sem limites nos mausoléus dos xóguns Tokugawa, em Nikko, no fim do século XVII.. nos mostra esta origem; é uma arte menor, sem relação com a arquitectura, projectada para além das suas naturais dimensões, um virtuosismo que, em conseqüência da repetição imposta pela importância das suas funções, se torna finalmente assaz fatigante.
A par da Cidade Proibida, o Salão das Orações Anuais, no Templo do Céu, em Pequim, é também característico desta época. Foi construído em 1754 com a sua forma actual, mas depois de um incêndio, em 1889, o edifício, com os seus 38 metros de altura, teve de ser refeito. No sentido arquitectónico, não é verdadeiro salão, porque possui excepcionalmente planta redonda. No vasto pátio, rodeado por salões laterais e pórticos, ergue-se o salão sobre um triplo terraço. O corpo da construção - símbolo das forças que se conjugam para unirem as influências do céu e da terra- pode abranger-se clara e facilmente num relance.

W. Speiser e E. v. Erdberg-Consten “Extremo Oriente”. Lisboa: verbo, 1969


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