Primórdios da História Chinesa

por Artur Cotterell em Históra Cultural da China (2000), Editora Gradiva; Lisboa


A arqueologia actual vem confirmando o ponto de vista expresso no mito chinês relativo às origens remotas do povoamento do país. Desde a descoberta do Homem de Pequim, em Zhoukuodian, nos anos 20 do nosso século, tem havido inúmeros achados relativos ao período pré-histórico, que terminou durante o século xvii a. C. com a fundação da dinastia Shang.

Escavações realizadas em Zhoukuodian tinham em 1938, altura em que as operações do Exército Imperial Japonês tornaram o local perigoso, trazido à superfície restos de quarenta indivíduos. Esses fragmentos fósseis perderam-se nas hostilidades, mas estudos detalhados já tinham permitido identificar o Homem de Pequim como um hominídeo avançado com membros e tronco de proporções normais. Em 1959 foi reaberta a jazida em Zhoukuodian e materiais, entretanto escavados vieram lançar luz sobre um grupo de caçadores e recolectores que ali viveram há cerca de 500 000 anos. Capaz de fazer ferramentas e conhecedor do fogo, o Homem de Pequim tinha uma dieta variada de folhas comestíveis, frutos secos e raízes, mais carne de animais que vagueavam pelo local — veados, antílopes, carneiros, cavalos, porcos, búfalos, gatos, rinocerontes, camelos e tigres de dentes de sabre. Em 1963 foi descoberto um parente mais antigo em Lantian, cerca de 60 quilómetros a sueste de Xi’an, capital da província de Shaanxi. Tendo vivido há cerca de 600 000 anos, o Homem de Lantian tinha o crânio mais espesso e mandíbulas mais pronunciadas, indícios claros dum estádio mais primitivo da evolução humana. A capacidade craniana é de 780 cm3, comparada com os 850 cm3-1300 cm3 do Homem de Pequim e com os nossos 1350 cm3. Mas o hominídeo mais primitivo até hoje descoberto é o Homem de Yuanmou, que existiu na província de Yunnan há mais de 1,7 milhões de anos. A presença de cinzas e de ossos carbonizados perto do local onde foram desenterrados os dentes do Homem de Yuanmou sugere o possível uso do fogo.

Todos estes hominídeos primitivos dependiam da generosidade da natureza. Como caçadores e recolectores de alimentos que eram, tinham de ter mobilidade para acompanhar as mudanças sazonais de recursos naturais, dispondo por isso de pouco tempo para o desenvolvimento cultural. Além disso, tiveram de se adaptar às alterações das condições naturais provocadas pela glaciação: o Homem de Pequim suportou sem alteração biológica dois longos períodos de tempo frio e seco e um período curto de calor e humidade. Só em data relativamente recente, nos últimos 10 000 anos, os antepassados do povo chinês tiveram condições para um modo de vida sedentário baseado na agricultura. Actualmente, a aldeia mais antiga fica a 5 quilómetros a leste de Xi’an, em Banpo, e data de entre 4700 e 4200 a. C.; é representativa de pelo menos 400 povoações conhecidas, localizadas nos socalcos de loess do vale do rio Wei.

A domesticação das plantas e animais permitia às populações permanecer numa localidade e multiplicar-se. Tal como na Mesopotâmia e no Egipto, a invenção da produção de alimentos foi com toda a justiça considerada um ponto de viragem cultural. Diz a lenda chinesa que Shennong introduziu a agricultura talhando alfaias em madeira e cultivando plantas cujas sementes caíram do bico dum pássaro vermelho. E também fez olaria. Além de inventor da agricultura, Shennong foi considerado o primeiro ervanário a investigar as propriedades medicinais das plantas, incluindo o chá. Dotado dum estômago transparente, podia observar os efeitos sobre o seu corpo de tudo quanto comia e bebia, e ficou, a saber, que o chá lhe limpava por completo os intestinos. Profundamente chinês como é este interesse pela alimentação como medicina preventiva, a ingestão de bebidas feitas da planta nativa do chá parece ter começado apenas no período da Primavera e Outono (770-481 a. C.).

No final da era glaciária ficou depositada uma camada de loess numa vasta área do Norte da China, chegando em alguns locais a atingir uma profundidade de perto de 100 metros. Trazida pelo vento da estepe semiárida, esta terra amarela é fácil de cultivar e fertiliza-se a si própria se for bem regada, tornando assim desnecessário o primitivo método de cultivo com cortes e queimadas. Nesta terra rica, ao longo dos vales dos rios Amarelo e Wei, desenvolveu-se no quinto milénio a. C. a primeira cultura sedentária: chama-se Yangshao, nome da aldeia da província de Henan onde se fez em 1921 a identificação inicial. As escavações realizadas em Banpo a partir de 1952 permitem ter uma ideia do que era a vida numa aldeia Yangshao de 500 a 600 habitantes. Rodeada de uma vala circular, com 6 metros de profundidade, a área da povoação era extensa, com os seus quase 50 000 metros quadrados: ou seja, três vezes e meia o tamanho de Jarmo, no Noroeste do Iraque, onde, por volta de 7000 a. C., uma população calculada em 150 habitantes fornece uma das primeiras provas de domínio da agricultura e da criação de animais. Os vestígios de instrumentos achados em Banpo incluem enxadas, pás, cutelos e varas de escavação, enquanto mós indicam que o milho miúdo, a principal colheita, era preparado e guardado sob a forma de farinha. O mais importante dos animais domesticados era o porco, mas ossos encontrados indicam que a caça e a pesca forneciam o suplemento para a dieta da aldeia. A importância crucial dos rios e regatos é demonstrada não só pela abundância de apetrechos de pesca encontrados no local, mas também pelo uso frequente de peixes estilizados na decoração da olaria. Recolheu-se mais de meio milhão de peças de cerâmica, das quais cerca de 1000 estão suficientemente bem conservadas para demonstrar a valia da cerâmica de Yangshao. Enquanto uma louça fina decorada a preto, vermelho e castanho com motivos geométricos era reservada para fins rituais, vasos grosseiros, cinzentos, gravados, serviam as necessidades do quotidiano. Estes últimos eram decorados com gravações feitas com cordas, esteiras ou cestos.

Nada existe nos registos arqueológicos que sugira que os Chineses, ou o povo proto-chinês de Yangshao, alguma vez tenham passado por uma fase de pastorícia. O leite e os lacticínios estão praticamente ausentes da dieta chinesa, ao passo que a língua é rica em metáforas agrícolas. A divisão fundamental sempre foi, historicamente, entre a vida nómada da estepe do Norte e as comunidades sedentárias de agricultores a sul da linha da Grande Muralha. Durante a fase cultural de Yangshao deu-se uma diferenciação gradual, com o milho miúdo a transformar-se na cultura do Norte e o arroz a predominar nas províncias centrais e do Sul. Embora o arroz também fosse conhecido em Yangshao, a sua domesticação parece ter sido concretizada no delta do Yangzi, zona habitada em tempos pré-históricos por povos não chineses. Em Hemudu, a sul da baía de Hangzhou, na província de Zhejiang, restos de arroz achados em 1978 foram datados de cerca de 4000 a. C., o que contraria a teoria de que o arroz teria sido importado da Índia para a China. Os habitantes da povoação pré-histórica de Hemudu tiravam partido de pântanos naturais, ou arrozais artificiais, para cultivar uma subespécie temporã de grãos compridos. Assim, a cultura alimentar que estava destinada, sozinha, a dominar todas as outras no futuro sistema agrícola da China teve origem nas franjas da área cultural de Yangshao. Da mesma forma, o inestimável grão de soja foi um contributo, no século xvii a. C., dos turcos Jong, a quem foi solicitado o envio de grandes quantidades para o Norte da China. Muito possivelmente cultivado pela primeira vez nas planuras da Manchúria, o grão de soja era reconhecido pelos chineses antigos como um alimento excepcionalmente nutritivo e um excelente elemento enriquecedor da terra. O carácter gráfico que representa o grão de soja, shu, chama a atenção para os nódulos portadores de nitrogénio da sua raiz, uma vez que os três traços da base significam abundância. Além de proporcionarem colheitas mais equilibradas, os grãos de soja forneciam a todas as classes da população proteínas e vitaminas baratas e, uma vez aperfeiçoado o método de extracção, uma útil fonte de óleo.

A terra de loess de Banpo facilitava a construção de habitações, na sua maioria semi-subterrâneas. É fácil de moldar para fazer lareiras e poços de armazenagem, bem como prateleiras, bancos e camas. Durante a fase final da ocupação terá chegado a haver 100 casas, a avaliar pela parte do local já escavada. Estão já completamente escavadas e actualmente em exposição num edifício permanente 24 antigas casas, bem como 160 cavidades de armazenamento. Visíveis estão também os alicerces duma grande casa comunal (20 m por 12,5 m), divididos por paredes divisórias em compartimentos separados, com lareira. O chão das casas era normalmente rebocado, os telhados, de colmo, eram suportados por estacas de madeira e as paredes eram baixas, em taipa. Fora do fosso de protecção havia um cemitério, com 130 sepulturas de adulto, e uma olaria com nada menos do que 6 fornos, num dos quais foram encontrados potes por cozer.

O padrão de subdivisão em área de habitação, centro de olaria e cemitério é recorrente em todas as aldeias de Yangshao. Outro ponto em evidência é o das sepulturas colectivas, mas, por muitas que fossem as aldeias envolvidas, os mortos são sempre sepultados muito juntos em filas muito certinhas. O costume de partilhar os cemitérios durante a última fase da cultura Yanshao demonstra que a pressão das populações tinha dado origem a um sentimento de comunidade que ultrapassava os limites da aldeia, individualmente considerada. Demonstra também que existia um sentido de linhagem suficientemente forte para exigir que os antepassados fossem sepultados em terra ancestral. A colocação de comida e utensílios nas sepulturas indica que acreditavam na existência de vida para além da morte, legitimando a suposição de se estar em presença de primórdios difusos do culto dos antepassados, inequivocamente atestada na fase cultural seguinte, a de Longshan. Prossegue, no entanto, em discussão a natureza da sociedade Yangshao. Arqueólogos chineses têm vindo a analisar uma série de sepulturas invulgares como exemplos de prática fúnebre matrilinear: viram um especial significado na campa de uma rapariguinha de Banpo que exibe ricas oferendas funerárias junto dos vestígios de uma urna de madeira. O estudo arqueológico do local não permite determinar com segurança que tenha pertencido a uma mulher a chefia da aldeia, mas elementos retirados de lendas referentes às origens tribais do histórico povo Zhou parecem apontar no sentido da vigência do matriarcado em tempos remotos. De acordo com o Livro das Odes (Shijing), coligido o mais tardar no século vi a. C., os Zhou descendiam de Jiang Yuan, que «rezou para deixar de ser estéril. Ela pisou o dedo grande da pegada do Céu e assim viu satisfeito o seu desejo».

Igualmente incertos são os antecedentes da cultura Yangshao, que hoje é generalizadamente reconhecida como a génese da cultura chinesa por causa da influência permanente que a sua agricultura auto- -suficiente exerceu sobre as tribos que a partir daí se consideraram o povo chinês. Fisicamente, os habitantes das aldeias Yangshao são parecidos com os actuais chineses das províncias do Sul, mas isso não deixa de fazer sentido se nos lembrarmos como, durante a era imperial, a invasão dos Nómadas transformou a China do Norte num cadinho de mistura de raças. Mas, mesmo a partir da era dos Zhou, em que se passou a dispor mais facilmente de fontes literárias, é óbvio que o critério para definir quem pertencia ao mundo chinês passava mais pela consciência duma herança cultural comum do que pela afinidade étnica. «O rei Wen», podia Mêncio dizer abertamente no século iv a. C., «era um bárbaro», quando lançou os alicerces da conquista dos Shang pelos Zhou. Veio depois a ser considerado pelos Chineses um rei sábio, graças aos contributos que os seus sucessores deram para a civilização. Portanto, os Chineses pré-históricos nunca foram um povo homogéneo e o alargamento da área cultural original estabelecida no tempo de Yangshao deu-se pela gradual adopção dum mesmo padrão de vida por grupos diferentes. De importância nuclear foi o desenvolvimento de uma religião centrada principalmente no culto dos antepassados do sexo masculino.

Antes de se ter esgotado o período de cultura Yangshao surgiu outra cultura, chamada Longshan por ter sido descoberta em 1929 perto de Longshan ou «Montanha do Dragão», na localidade de Chengziyai, província de Shangdong. Com efeito, os baluartes rectangulares de terra amassada antecipam a longa tradição de cidades fortificadas que em breve seriam inauguradas pelos Shang; além disso, a área de implantação que eles abrangiam era mais de cinco vezes maior do que a que se acolhia dentro do fosso defensivo de Banpo. Outras semelhanças com os tempos posteriores eram, por exemplo, as técnicas de adivinhação, as formas das peças de olaria e, o que não deixa de ser interessante, uma série de tabuletas de oleiros que são idênticas a caracteres descobertos em inscrições de oráculos de Shang. Seja uma evolução da cultura Yangshao, seja uma tradição oriental distinta com pontos de contacto que se estendem para nordeste até à Sibéria oriental, a de Longshan caracteriza-se essencialmente pela sua olaria avançada, uma louça fina, muito polida, cinzenta ou preta, que mostra sinais de ter sido feita com roda. Esta cultura floresceu até ao princípio da idade do bronze, pouco depois de 1800 a. C., e os seus vestígios aparecem por baixo dos dos Shang, na província de Henan, sede desta dinastia. Mas a sua influência propagou-se muito no decorrer do 3.o milénio a. C., altura em que se verificavam notáveis progressos materiais em muitas e diferentes áreas. Enquanto a Longshan de Henan era antepassada da civilização dos Shang (com as suas cidades, metalurgia, escrita e arte elaborada), a mesma cultura suporta também na província de Shaanxi a futura dinastia dos Zhou, o famoso estado de Qi na província de Shandong, e no delta do Yangzi os poderes em ascensão dos reinos de Yue e Wu.

As oferendas funerárias dos cemitérios Longshan reflectem simultaneamente as crescentes diferenças sociais e o culto dos antepassados masculinos. Da província de Shaanxi vem o mais antigo símbolo fálico cerâmico, datado do primeiro quarto do 3.o milénio a. C. A sua associação com o ritual pode deduzir-se de zu, o carácter gráfico para «antepassado», que é pura e simplesmente a ilustração de um falo. O surgimento duma sociedade patrilinear esteve provavelmente ligado à expansão da área cultural Longshan, na medida em que a migração deu origem a conflitos que favoreciam a autoridade do guerreiro. Por certo Sima Qian (145-90 ou 79 a. C.), que escreveu a primeira história geral da China, pensou que a ascensão de Huangdi, o célebre Imperador Amarelo, se ficou a dever aos seus sucessos militares contra membros de tribos belicosas. Primeiro soberano mortal, supõe-se que Huangdi tenha sido entronizado em 2697 a. C. Foi considerado o fundador das instituições governamentais. Algumas tradições atribuem-lhe a invenção da bússola magnética e do dinheiro cunhado, que substituiu as conchas caurim como meio de troca, e à sua esposa atribuem-se prodígios nas lides domésticas e na sericultura, embora se saiba da criação de bichos-da-seda já no período Yangshao.

Intimamente relacionadas com o culto dos antepassados estavam as profecias a partir das fendas que se formam nos ossos calcinados de animais, normalmente as omoplatas de ovinos, caprinos e suínos, mas nalguns casos também de veados. A partir de 1300 a. C., a arte da adivinhação tornou-se sofisticadamente padronizada, dado que os Shang não só mostravam grande perícia na preparação antecipada de ossos e carapaças de tartaruga, como inscreviam neles as perguntas feitas aos espíritos dos antepassados e por vezes as respostas recebidas. As questões formuladas pelos aristocratas Shang abordavam tanto questões de estado como assuntos familiares. Tipicamente chinês, este método de oráculo é anterior a qualquer outro conhecido em antigas civilizações, sendo que o seu mais directo rival é o exame feito por sacerdotes da Babilónia ao fígado de animais, por volta de 2000 a. C.


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