Dinastia Xia

por Artur Cotterell em Históra Cultural da China (2000), Editora Gradiva; Lisboa


O tamanho da cerca rectangular de Chengziyai aponta para a existência de uma sociedade estratificada cujos ocupantes exerceriam algum tipo de ascendente sobre as povoações mais pequenas das imediações. As fortes muralhas, com 8 metros de largura na base, podem ter servido de refúgio para essas aldeias em tempos de agitação. Tal interpretação encaixaria com as lendas chinesas sobre o início da soberania dinástica por volta de finais do 3.o milénio a. C. Pensa-se que a primeira das três dinastias (san tai), antes de em 221 a. C. se ter dado a unificação imperial, terá sido a dinastia dos Xia; seguiu-se-lhe a dos Shang, depois a dos Zhou, a dinastia mais duradoira da história da China. Até à instauração do poder dos Xia, o trono não passava para o soberano seguinte por via hereditária, sendo o mérito o critério de escolha de qualquer sucessor. É possível que esta tradição tenha alguma coisa a ver com um eventual acordo ao abrigo do qual uma confederação de tribos elegeria um chefe supremo que os comandasse contra atacantes exteriores. Todavia, a propensão moralista dos historiadores chineses talvez os tenha levado a concluir que houve antigamente um sistema ideal de selecção com base apenas nas qualidades excepcionais dum candidato. Assim, «o hábil e virtuoso Yao uniu o povo de cabelo preto e trouxe a harmonia à sua terra». A regularização das cheias foi conseguida pelo «excelente Shun, que tornou os rios mais fundos», mas foi ao seu ministro Yu (2205-2197 a. C.) que coube o privilégio de fundar a dinastia dos Xia.

A lenda atribui a promoção da família de Yu ao feito deste na contenção do Grande Dilúvio. Treze anos levou Yu a «dominar as águas» sem uma única vez ter voltado a casa para ver a esposa e os filhos. Por meio de gigantescos trabalhos de regularização das águas, trouxe ao seu povo os «benefícios da água» — acabaram as cheias e irrigaram-se os campos — e, ao organizar a mão-de-obra em escala gigantesca como forma de atingir o seu objectivo, terá lançado as bases do feudalismo. O facto de os Chineses antigos associarem Yu com a conservação hidráulica, apesar de os grandes projectos só terem tido lugar a partir do século v a. C., deverá significar que vem de muito longe no tempo a consciência da importância política desse factor. O facto de, nos tempos imperiais, os canais de irrigação, os reservatórios e os sistemas de drenagem serem construídos predominantemente como obras públicas estabelecia um nexo muito forte entre eles e os destinos das casas imperiais. Da mesma maneira que as cheias ou as secas podiam ser lidas como sinais de reprovação divina, também a lentidão na montagem das adequadas medidas de atenuação dos seus efeitos incitava inevitavelmente à rebelião dos camponeses. Como prevenia um ministro do imperador Wu Di, da dinastia dos Han (140-87 a. C.), a falta de uma reserva estatal de cereais deixava o trono em posição vulnerável em caso de fome ou de campanha inesperada. Era por isso necessário apoiar a agricultura com a manutenção de grandes obras de regularização dos cursos de água.

Embora os grandes projectos sejam muito posteriores, parece improvável que nada tenha sido feito nas áreas de loess antes do plano do rio Chang, na província setentrional de Henan, que sabemos ter sido iniciado pelo governo dos Wei, em 424 a. C. Atribui-se ao príncipe Huan do reino de Qi (685-643 a. C.) o levantamento de diques ao longo das zonas mais baixas do vale do rio Amarelo, a fim de concentrar as nove correntes do delta anterior em uma só. É claro que o empreendimento redundou em fracasso, em grande medida seguramente porque terá sido esquecida a lendária sabedoria de Yu: este sempre tinha escavado fundos os canais e mantido baixos os diques, conduzindo a torrente naturalmente para o mar. Considerava-se vital a sintonia com os ritmos da natureza, que tinha a sua expressão perfeita na teoria Yin/Yang, que concebia duas forças interactivas, não em conflito, mas existindo juntas num equilíbrio precário, que, se perturbado, traria os desastres à humanidade. A percepção das forças naturais só pode ter surgido nas terras de loess, onde uma súbita tromba de água ou o rebentamento duma barreira podia alterar drasticamente a paisagem.

Da dinastia dos Xia não há até hoje rasto conclusivo, apesar dos esforços dos arqueólogos chineses que afanosamente procuram artefactos representativos nos estratos imediatamente anteriores ao surgimento da civilização dos Shang. A reavaliação dos achados de Erlitou, na província de Henan, pode muito bem resultar na identificação de uma fase Xia naquele local. O sítio foi escavado entre 1959 e 1964, com importantes resultados que suscitaram a especulação de que talvez fosse Po a capital de Tang, o primeiro soberano dos Shang. As escavações foram retomadas nos anos 70 e os trabalhos ainda prosseguem. Até porque o rigor que os Chineses põem nos seus registos afasta por imprudente a hipótese de a dinastia Xia ser um mito. Existe uma genealogia real que guarda os nomes de dezassete monarcas que ao todo reinaram durante quase 500 anos e recorda-se que, quando, em 1027 a. C., os Zhou derrubaram os Shang, foram restaurados sete principados referidos como sendo dos Xia. O último rei dos Xia terá sido o tirânico e cruel Jie, que Tang derrubou com ajuda celestial. «Por causa da sua arrogância», disse o primeiro-ministro de Tang, «o Céu olhava-o com reprovação, deu aos nossos Shang o mandato e serviu-se de Vossa Majestade para conduzir a revolta do povo.»


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