Dinastia Qing (1644-1912)

por Alberto dos Santos Matias em China - de Confúcio a Mao-tse-tung (1967), Editora Europa-América; Lisboa


A designação «manchu», cuja etimologia não está bem averiguada, é de data recente, dos princípios do século XVII. Foi adotada pelo chefe jurchen Nurhachi (1559-1626), ao proclamar-se «imperador dos Manchus».

Os Jurchen eram uma tribo que, na fase da decadência da dinastia Sung, depois de ter conquistado o reino Kitan de Liao, havia fundado em 1115 o reino de Qin, ou Kin (Ouro), que durou até ser anexado pela dinastia. mongol Yuan, em 1234.

Durante os séculos da sua subordinação aos Mongóis e, posteriormente. aos chineses de Ming. Os Jurchen esforçaram-se, nem sempre com sucesso, por conservar a unidade nacional e a pureza da sua cultura. E, ao começar o declínio dos seus senhores Ming, abalançaram-se de novo à conquista.

Em vida de Nurhachi não foram, contudo, completamente felizes nas suas acometidas contra os Chineses, que os detiveram com a superioridade do seu armamento, nomeadamente com canhões fornecidos pelos Portugueses. Voltaram-se, por isso, para o Ocidente, atacando os Mongóis, ali fixados depois da queda da sua dinastia Yuan, e impondo o seu domínio na Mongólia Interior.

Entretanto, a corrupção na corte e a calamidade da fome entre a população provocavam a desordem no Império Chinês. Um aventureiro, chefe de um bando aguerrido, aproveitando a oportunidade de se ter o grosso do exército deslocado para o Norte para conter uma forte investida dos Manchus, tomou Pequim depois de derrotar a guarnição. O último imperador Ming suicidou-se e o moral dos Chineses desceu até ao mais baixo nível, até ao ponto de se lançar apelo aos próprios Manchus para virem fazer frente aos bandidos.

Os destemidos Jurchen não se fizeram esperar é desbarataram as forças dos aventureiros, mas, em seguida, derrotaram o exército regular, instalando-se em Pequim, onde fundaram a dinastia Qing, isto é, Claridade, ou Pureza.

Mora certos «imperadores letrados» rendidos inteiramente à cultura chinesa, os Manchus trataram os vencidos com marcada intolerância, especialmente no início da dinastia, quando a resistência das guerrilhas foi do Sul da China vasto campo de prolongadas operações militares.

Uma das mais odiadas medidas impostas foi o uso do rabicho, de que foram isentos somente coreanos e monges taoístas. O penteado nacional, o carrapito enrolado no cimo da cabeça, fora abolido pelos Mongóis, que decretaram o uso de duas tranças, e de novo posto em vigor com o advento da dinastia nacional Ming. Os Manchus, porém, como símbolo da sua conquista, impuseram, sob pena de morte, o seu estilo: uma só trança.

Outra restrição, a proibição do atrofiamento dos pés das mulheres, provocou tão profunda reacção que teve de ser revogada em parte. Outra medida considerada atentatória da dignidade chinesa foi a interdição de as mulheres chinesas pertencerem ao harém imperial.

Com o decorrer do tempo, no entanto, foi-se amenizando o espírito antichinês, por força da progressiva sinização dos vencedores.

Num período de mais de cem anos - parte do século XVII e todo o século XVIII -, a dinastia atingiu o seu apogeu, tendo-se salientado, nos seus longos reinados, os imperadores Kang-xi (1662-1722) e Qiang-long (1736-1796).

Efectivamente, no domínio material, a China deslocou para grande distância as suas fronteiras terrestres. No sentido ocidental impeliu para longe os Mongóis, chegou ao Turquestão, onde se apossou das províncias de Ili e Kashgar, anexou o Nepal e impôs definitivamente a sua suserania no Tibete, por meio do direito de investidura do dalai-lama que se arrogou; no Sul tomou tributária a Birmânia, e no Norte, após a subjugação da Mongólia Interior, conquistou a Mongólia Exterior.

Na esfera espiritual acentuou-se a acção do cristianismo, tão auspiciosamente iniciada na dinastia Ming. Todavia, aquela acção revelou-se mais no aspecto laico, isto é, no plano científico, que no aspecto puramente religioso, pois sofreu no princípio do século XVIII uma grave crise, com a chamada «querela dos ritos», cujos antecedentes e resultados podem assim resumir-se: os Jesuítas, discípulos e continuadores do venerado sábio Ricci, embora encontrassem certa resistência na sociedade e na corte dos Manchus, lograram sempre liberdade de acção evangelizadora, graças não só à liberalidade no ensinamento dos seus profundos conhecimentos científicos, mas principalmente ao tacto empregado na propagação da fé entre a indulgente multi-religiosidade do povo chinês.

Assim, cônscios do que representava o “culto dos antepassados” toleravam tal crença nos chineses cristãos, reputando-a antes como manifestação de piedade filial e familiar do que como uma heresia ou idolatria.

O mesmo sucedia com o culto da homenagem prestada a Confúcio, constituído por solenes sacrifícios anuais e a sua invocação na posse dos cargos públicos, que os missionários levavam à conta de veneração de um insigne vulto nacional.

Um plenipotenciário do papa chegado a Pequim em 1704 para pôr termo ,à situação ficou tão impressionado com a sinceridade da crença e consequente complacência dos Jesuítas, que tardou três anos a publicar o edicto papal que interditava a prática e ordenava a retirada da China aos missionários que lhe desobedecessem. O imperador, indignado com a ordem papal, que considerou atentatória da sua soberania, publicou, por seu turno, um decreto que expulsava todos os religiosos que não seguissem os princípios estabelecidos por Matteo Ricci.

A «querela dos ritos» foi sanada no princípio do século XIX com a chegada em força dos navios ocidentais, mas atingiu profundamente o catolicismo, pois que os recém-vindos, na sua maior parte, traziam consigo os credos das chamadas Igrejas reformadas.

No que respeita, à literatura, os Manchus foram, por assim dizer, meros continuadores dos Ming na arte dramática, no conto e no romance de modalidades várias: histórico, sentimental, fantástico. Obtiveram, porém, inigualável mérito em trabalhos de erudição: enciclopédias, catalogação bibliográfica, fonética e linguística em geral. Neste ramo é digno de nota o aparecimento de um projecto de reforma alfabética, baseada no sistema europeu. Além disso, apurou-se o gosto pela critica, que, a despeito da rigorosa censura oficial que provocou vários autos-de fé de livros, procedeu a uma profunda exegese da história, da política e da teologia. Neste último aspecto, a hermenêutica dos livros sagrados, os clássicos confucianos, provocou uma vasta reacção contra o neoconfucianismo em proveito do confucianismo tradicional, o qual, entretanto, ameaçado pelas doutrinas vindas do Ocidente, entoava já o seu canto do cisne.

Nas artes, da mesma forma que nas letras, os Qing limitaram-se a continuar os seus antecessores imediatos. Nada de inédito na expressão estética se revelou, com excepção de uma nova arte menor: a “arquitectura” dos jardins. Todavia, a cerâmica tomou um incremento considerável, não na originalidade, que foi nula, mas na técnica, certamente devido à maciça industrialização da arte promovida pelos soberanos, que pessoalmente superentendiam no fabrico.

Três anos antes da voluntária abdicação do célebre imperador Qianglong, ocorrida em 1796, deu-se um acontecimento que, se não se considerar como sinal do começo da decadência da dinastia e da sociedade chinesa, é, pelo menos, disso um claro vaticínio.

Esse acontecimento foi a tentativa de penetração ocidental efectuada em 1793 pela missão inglesa Macartney, enviada pelo rei Jorge III. O acolhimento hostil recebido, que lhe podia conferir o carácter de infrutífera se se atendesse apenas aos resultados imediatos, mais estimulou os ânimos no sentido de se destruírem as barreiras impeditivas do comércio e intercâmbio social impostas pelo tradicional orgulho chinês que etiquetava de bárbaros todos os estrangeiros.

Aparentemente estéril foi também a missão Amherst, igualmente enviada pela Inglaterra em 1816, visto que nada de concreto dela, resultou: os mercadores estrangeiros continuaram circunscritos numa pequena área contígua ao porto de Cantão e em Macau. Impossibilitados de uma penetração pacífica na altaneira torre de marfim chinesa, os Ingleses buscaram outros meios. A situação interior da China era propícia à desintegração por vários motivos: a escassez alimentar devida ao aumento desmedido da população, que de 60 milhões em 1578 passou a 400 milhões no princípio do século XIX; a progressiva e intensiva corrupção dos dirigentes, a desumana exploração do trabalho feita pelos senhores das terras ausentes nas cidades, uma série de calamidades da natureza que deterioraram o sistema de irrigação, ocasionaram grandes fomes produziram a proletarização do povo com as conseqüentes rebeliões.

O meio empregado foi a força e o pretexto foi o ópio. Não o pretexto ,humanitário do banimento da droga, mas o contrário, o que conferiu à violência exerci da um carácter de iniquidade.

O ópio era há séculos conhecido dos Chineses, que o importavam da Índia para aplicações medicinais. Adquirido o hábito de o fumar misturado com tabaco, o seu consumo aumentou, o que levou os Europeus, que se sucediam e competiam nos mares da China - Portugueses, Holandeses, Ingleses e Franceses -, a entregarem-se ao seu remunerador comércio. Como os Chineses passassem a fumá-lo puro, isto é, sem tabaco, o imperador, em 1729, proibiu a plantação da papoula do ópio e restringiu o comércio do produto.

Porque estas medidas fossem insuficientes para combater o hábito, que se tomava num flagelo, o monarca, em 1800, proibiu a importação da droga. Ingleses e Americanos, recém chegados para o banquete que se anunciava, protestaram, mas não cessaram o lucrativo negócio, desde então efectuado como contrabando e facilitado pela corrupção das autoridades. Um comissário especial do imperador, enviado a Cantão para fiscalizar, mandou queimar em 1839 uma volumosa carga apreendida num navio inglês. O Governo de Londres declarou guerra à China, que no ano seguinte pediu a paz, tendo as hostilidades cessado em 1841.

Em 1842 foi assinado o tratado de Nanquim, o primeiro dos «tratados desiguais», cujos termos foram: liberdade de comércio nos chamados «cinco portos» (Cantão, Fowchow, Ning-po, Amoy e Xangai); cedência de Hong-Kong; renúncia ao direito de cobrança das tarifas alfandegárias nos «cinco portos», pesadas reparações de guerra a pagar a pronto, e provisões para o estabelecimento de missões consulares e diplomáticas.

O leão moribundo foi então assediado. Os Estados Unidos e a França conseguiram em 1844 tratados do mesmo teor e substância. O que foi celebrado com os Americanos iniciou efectivamente o sistema das capitulações, instituído naquele tratado de Nanquim e já delineado anteriormente no tratado celebrado com a Rússia em 1727, que renovou o de Nerchinsk, de 1689, o primeiro tratado da China com uma potência ocidental.

Em 1856 deflagrou a Segunda Guerra do Ópio, assim chamada por ter como causa próxima a confiscação de uma carga do produto transportada num navio chinês com a bandeira inglesa, processo muito usado então. Todavia, as causas reais especiais, visto que a causa original e permanente era a cobiça ocidental, residiam na resistência chinesa ao cumprimento dos «tratados desiguais» e, sobretudo, na premente necessidade de expansão comercial que a revolução industrial provocara na Europa.

Com o pretexto de terem sido destruí das propriedades particulares francesas em Cantão durante as hostilidades iniciais, a França entrou na guerra ao lado da Inglaterra. Em 1858 foi assinado o tratado de paz de Tien-tsin, cujas principais disposições eram: a) os ministros-enviados das potências estrangeiras residiriam em Pequim e devi aro ter comunicação directa com a corte imperial; b) mais dez portos eram abertos ao comércio internacional; c). os estrangeiros eram autorizados a viajar no interior do país; d) liberdade da actividade missionária em todo o território; e) revisão das tarifas

aduaneiras. Em 1859, recusando-se os Chineses a ratificar o tratado, reabri. ram-se as hostilidades. A guerra estendeu-se ao Norte, onde as forças aliadas incendiaram em Pequim o Palácio Imperial de Verão, abandonado pelo imperador. Entabuladas novas negociações, em 1860 foi assinado o tratado de Pequim, que às provisões do tratado de Tien-tsin adicionou mais as seguintes: cedência à Inglaterra do território de Kowloon, em frente a Hong-Kong; liberdade de emigração para os Chineses - para satisfazer a necessidade imperiosa da mão-de-obra nas colónias inglesas; liberdade aos missionários de possuir terras; e uma nova indenização como reparações de guerra.

A Rússia, que durante as negociações se arvorou em medianeira através dos “bons ofícios” do seu ministro em Pequim, cobrou como honorários os territórios de Amur e Ussuri até ao Norte da Coreia, para ali construir o utilíssimo porto de Vladivostoque.

Na espectacular decadência dos Qing e do império desempenharam papel activo as sociedades secretas, instituições caracteristicamente chinesas. Uma delas, O Lotus Branco, com o declarado programa de expulsar a dinastia manchu para restaurar os Ming, pôs em estado de guerra o Sul do país nos dez últimos anos do século xviii.

Outra, nascida do desapontamento provocado pelo tratado de Nanquim, mas imbuída de um espírito religioso sui generis, pois adoptava várias práticas cristãs, aproveitou a intranquilidade que reinava nas províncias de Hunan e Kwangsi, cerca de 1848, para se constituir no movimento denominado T'ai P'ing, isto é, Paz Suprema. O seu fundador, Hung Xiu-quan, intitulou-se «o irmão mais jovem de Cristo» e propôs-se estabelecer o Reino de Deus na Terra para benefício imediato dos seus numerosos adeptos, provindos das classes dos camponeses e dos pequenos proprietários. Além do conjunto heteróclito de práticas católicas e nativas no estilo dos «iluminados» africanos do tempo presente, a reforma do «Rei Celeste», outro cognome que adoptou, primava pela bizarria na sua parte social. Alguns dos tópicos do seu programa eram: propriedade distribuída de acordo com a sua fertilidade e necessidade dos cultivadores, mas com regime comunal na utilização da produção, igualdade de sexos, obrigatoriedade do casamento, mas dentro da monogamia, proibição do álcool, do tabaco, do ópio, da prostituição e da deformação dos pés femininos, igualdade dos estrangeiros com a abolição das capitulações.

O Rei Celeste ocupou em 1850 Nanquim, onde estabeleceu a sua capital e enfrentou com denodo as forças imperiais, às quais prestaram concurso vários estrangeiros, como o aventureiro americano Ward, fundador em Xangai da «ever victorious army», e o famoso general inglês Gordon, que, embora vitorioso em várias fases, pediu a demissão porque, segundo se afirmou, não concordava com o hábito manchu de matar os prisioneiros.

De 1853 a 1855, o «Partido de Deus», como era também designado o Reino Celeste, alargou o seu domínio em direcção a Tien-tsin, no intuito de atacar Pequim. Mas a roda da fortuna de Hung Xiu.quan começou a retroceder e as suas tropas foram repelidas em 1856 para o limite da cidade de Nanquim, a qual foi tomada pelo exército regular em 1864, data que marca praticamente o fim da rebelião.

As chamadas «rebeliões maometanas» no Turquestão e na província do Yunnan, no Sudoeste, que se seguiram à de T'ai Ping e duraram até 1870, além de causarem numerosas vítimas - 20 milhões, segundo se crê -, enfraqueceram a frente interna da China, impossibilitando-a de fazer face à avidez de Ocidentais e Nipónicos. O Japão, embora conseguisse em 1871 o seu primeiro «tratado desigual», não se coibiu de atacar as ilhas Riyukyu, uma das quais é Okinawa, e a Formosa, aquietando-se somente quando recebeu uma grossa reparação de guerra. E em 1876 anexou pura e simplesmente aquele arquipélago de Riyukyu e estabeleceu uma testa de ponte na Coreia, que, em 1885, por um tratado sino-japonês, foi considerado «esfera conjunta de interesses» dos dois países. Mais tarde, pelo célebre tratado de Shimonoseki, que pôs termo à guerra de 1894-1895, conseguiu a «libertação» da Coreia da suseranía chinesa e ficou senhor da Formosa e da península de Liao-tung, onde se situava Porto Artur, no Sul da Manchúria, que teve, no entanto, de restituir, sob pressão das potências ocidentais, alarmadas com a sua voracidade.

Porto Artur, «arrendado» pela Rússia, tornou-se o pomo de discórdia entre os dois Grandes orientais, que ambicionavam o senhorio da Manchúria. A fortuna da guerra russo-japonesa desamparou a Rússia, que foi obrigada a entregar ao Japão, sem voto do verdadeiro dono: a China, o território e o seu utilíssimo caminho de ferro.

A Alemanha, com o pretexto do assassinato de dois missionários alemães, conseguiu em 1897 a concessão do porto de Tsing-tao, porta de entrada para a riquíssima província de Chantung, que, depois de atravessada por caminhos de ferro «em concessão», se tornou em «esfera de influência» germânica.

A França obteve o porto de Kwang-chow-wan e outra esfera de influência na província contígua no Sul.

Somente a Itália, apesar dos seus esforços, não tomou parte no festim, nem sequer na «invasão ferroviária», isto é, na fase em que a penetração e o domínio dos novos senhores se afirmou pela táctica de construção de caminhos de ferro e em que comparticiparam também a Bélgica e os Estados Unidos.

Estes, ocupados nos últimos anos do século XIX com a sua instalação nas Filipinas, somente em 1899 assumiram uma atitude efectiva na política da China. Apareceram como campeões dos direitos chineses, defendendo o chamado «princípio de porta aberta», isto é, preconizando a renúncia das potências a todos os privilégios nas esferas de influência e aos «direitos ferroviários» e aduaneiros.

A China, porém, não estava em condições de negociar qualquer política, dado o caos que reinava na corte, no país em geral e nos espíritos.

A dinastia entrava na agonia. Em 1861 morreu o imperador Xian Feng e, por ser menor o herdeiro do trono, assumiu a regência a concubina Cixi, a mais forte personalidade política chinesa do século XIX, que, mesmo depois da maioridade do soberano, governou despoticamente a China até à sua misteriosa morte, em 1908. Desgraçadamente para o seu país, a ditadora, longe de seguir o exemplo japonês de transigência com a ordem européia, adoptou uma atitude intolerante em face da intromissão ocidental e de fanático conservantismo perante o movimento de reformistas que advogava modernização e contemporização.

Foi por sua determinação que eclodiu em 1900 o célebre levantamento dos Boxers, cuidadosamente aproveitado pelas potências ocidentais para um maior cerceamento dos direitos soberanos da China.

O estribilho “Defendei a corte imperial e matai os demónios estrangeiros” era doutrina para os membros da seita, que acreditavam que os seus amuletos os preservavam das balas dos Europeus.

Naquele ano de 1900, os “pugilistas da Harmonia e da Justiça” passaram dos atentados pessoais contra os chineses cristãos para uma ofensiva organizada e em grande escala. A imperatriz ordenou que se desse a morte a todos os estrangeiros na China» e as legações estrangeiras foram sitiadas, tendo sido morto o ministro da Alemanha e destruí das inúmeras «invenções estrangeiras»: cabos eléctricos, fios telefónicos, correios, etc.

Um exército internacional organizado pelas potências européias e pelo Japão atacou e tomou Pequim, onde, por sua vez, praticou excessos.

No ano seguinte, 1901, foi assinado um tratado que pôs termo às hostilidades. As suas principais cláusulas foram: pagamento pela China por um período de quarenta anos da quantia de 67 milhões de libras, cifra fabulosa para a época; castigo dos culpados das violências cometidas; estacionamento de forças armadas estrangeiras de guarda às legações e em postos que assegurassem livre comunicação entre elas e o mar; livre acesso dos diplomatas à corte imperial e garantia de audiência com o imperador «da mesma forma do uso em relação aos monarcas europeus»; elevação a Ministério da Agência dos Negócios Estrangeiros e sua precedência sobre todos os outros ministérios, no intuito de colocar em primeiro plano a atenção devida aos povos estrangeiros.

Os Estados Unidos, em 1907, perdoaram a sua parte nas reparações, que o Governo chinês, em sinal de reconhecimento, reservou para conceder bolsas de estudo nas escolas americanas e para fundar em Pequim o famoso Colégio Americano de Tsing-Hua.

A Rússia, porém, manteve as suas tropas na Manchúria, onde absorveu vastas regiões e obteve autorização para ligar Porto Artur com o caminho de ferro transiberiano. Estas concessões, alarmando as potências européias, facilitaram a reacção nipónica, que culminou com a guerra russo-japonesa de 1904.

Esta, iniciada com traiçoeira surpresa repetida em 1941 com Pearl Harbour, terminou com uma inesperada e rápida derrota dos Russos, que, pelo tratado de Porthsmouth de 1905, além de reconhecerem aos vencedores «o predomínio político, económico e militar nos assuntos coreanos», abriram mão em seu favor - e sem audiência da China; - da província de Liaotung, restituída dez anos antes sob pressão dos Europeus, dos seus interesses ferroviários na Manchúria, incluindo a cessão da base de Parta Artur e da porto de Dairen, e da metade meridional da ilha Sacalina, que outrora também pertencera à China.

Em 14 de Novembro de 1908 morreu o imperador Zong, que vivia praticamente em cativeiro desde os últimos anos do século XIX, quando a ditadora Cixi reprimiu com marcada crueldade um movimento por ele inspirado na sentido de uma reforma social a iniciar com a adoção de uma constituição política de tipa acidental. A sua morte foi tida como assassinato praticada por Cixi, visto esta ter morrido um dia depois, após ter assegurada a sucessão imperial na pessoa da seu sobrinho, o príncipe Puyi, de 2 anos de idade.

Foi efêmero o reinado do novo imperador Xuan Tong, conforme o novo nome que lhe apuserem, pois que daí a pouca mais de dois anos, em 10 de Outubro de 1911, foi destronado pela República.

Findou assim a Império Chinês velho de milênios. O seu último monarca serviu mais tarde de fantoche aos Japoneses, aceitando o título de imperador do Manchukuo. Depois de ter sido evangelizada no credo marxista durante alguns anos numa prisão comunista, tornou-se um simples funcionário do Ministério da Agricultura.


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