Dinastia Han Anterior

por William Morton em China - História e Cultura (1986), Editora Zahar; Rio de Janeiro


A oposição popular ao governo dos Qin surgiu sob a forma de revoltas na China central em 209 a.C. Ao mesmo tempo, a oposição aristocrática, que nunca tinha sido, realmente, eliminada, voltou a manifestar-se no reino reconstituído de Chu, sob a liderança de Xiang Yu. Seu lugar-tenente, Liu Bang, conseguiu derrotar o terceiro e último imperador Qin no vale do Wei em 206; a seguir, virou-se contra seu senhor, Xiang Yu, e derrotou-o. Liu Bang logo conquistou território e poder suficientes para declarar-se imperador, sob o nome de Gao Zu ("Alto Progenitor”), de uma nova dinastia, a dos Han, que iria governar a China durante os quatro séculos seguintes.

O Período dos Han Anteriores (206 a.C. - 8 d.C.).

Gao Zu (206-195 a.C.) era de origem popular e conservou o seu estilo rude de camponês até o fim, inesmo vivendo no meio da corte. Ele tinha o agudo sentido do camponês a respeito do possível e do prático e agia com base no dito do filósofo Xunzi: "O príncipe é o barco; o povo é a água. A água tanto pode manter o barco quanto virá-lo”.Ele não tinha intenção de submergir e, por isso, agiu com ponderação, escolhendo com cuidado os seus auxiliares e recompensando-os generosamente. Fez questão de abolir as severas leis dos Qin e de conter o exército, impedindo-o de saquear. Firme e geralmente justo, podia igualmente ser generoso, compreendendo as necessidades do homem comum. Absolutamente, não se mostrava hostil aos prazeres do vinho e das mulheres. Orgulhava-se de ser sincero, até rude, e descobriu que essa maneira de ser até conferia algum encanto à sua liderança.

Entretanto, ao abandonar o absolutismo e o legismo Qin, Gao Zu não pensava em voltar ao sistema Zhou de governantes regionais semi-independentes. Passou seu período de governo a consolidar o poder centralizado não só pela diplomacia, mas também pela força.

A princípio teve de fazer algumas concessões, e aqueles que o haviam ajudado em sua vitória foram recompensados com reinos que se localizavam para além da área central de suas próprias 15 comandâncias. Gradualmente, porém, conseguiu que o direito a esses reinos fosse reservado apenas aos membros de sua própria família imperial. Os mapas e os registros de impostos, compilados pelos funcionários Qin da dinastia precedente, foram úteis para a organização do novo governo. Apesar de impaciente com as sutilezas do comportamento oficial, Gao Zu reconhecia a necessidade de ordem e dignidade; para tanto, mandou não só organizar um formulário especial de comportamento palaciano, baseado em preceitos confucianos, mas também que se compusesse uma lista de ancestrais para si próprio, de modo a ajustar-se à sua nova e excelsa posição. O saber confuciano recebeu novo alento e as teorias de Confúcio no tocante aos requisitos de justiça e respeito do povo por parte do soberano parecem ter sido acatadas pelo novo imperador. Seu irmão mais moço, Liu Jiao, foi inclusive um reputado erudito confuciano.

A transição da caserna à corte não pode ter sido fácil para Gao Zu, pois ele tinha sido um chefe de bandidos e, depois, um general bem-sucedido. Um de seus emissários, ao voltar de uma missão no extremo sul da China, citou passagens do Livro das Odes e do da História a Gao Zu, durante uma audiência. Gao Zu disse: "Obtive o império em cima de um cavalo; por que me importaria com as Odes ou a História?" O emissário retrucou: "Vós o obtivestes num cavalo, mas podereis governá-lo num cavalo?"

A combinação de determinação com flexibilidade encontrada em Gao Zu e seus sucessores imediatos serviu para consolidar o império e estabelecê-lo nas linhas gerais que iria seguir nos séculos seguintes. O poder da velha aristocracia Zhou estava findo para sempre. As teorias doutrinárias do governo totalitário e a crueldade em suas execuções, que haviam prevalecido sob os Qin, foram, em sua maioria, abandonadas. Mas os benefícios resultantes da uniformização e do governo centralizado dos Qin foram mantidos. Iniciou-se assim uma era de confiança, estabilidade e prosperidade, que levou os chineses, desde então, a se autodenominarem, com orgulho, os "Filhos de Han".

Entretanto, a nova paz e a nova segurança não foram fácil e prontamente conseguidas. O equilíbrio entre, por um lado, o controle regional necessário para estabelecer a lei e a ordem de maneira ampla e, por outro, o desejo premente de centralismo, foi sempre algo de delicado na história chinesa. Vimos que o governo dos Han anteriores havia outorgado alguma independência a áreas periféricas, sem jamais pretender que permanecessem independentes. Uns poucos reinos e alguns marquesados continuaram a existir nominalmente até o fim da dinastia, mas nenhum deles teve mais do que um poder aparente depois de 154 a.C. Uma ameaça mais séria ao governo central residia no poder e na ambição da viúva de Gao Zu, a imperatriz Lu, que governava efetivamente através de seus parentes masculinos, enquanto, no trono, estava um imperador-infante. Mas com sua morte, em 180 a.C., funcionários que haviam permanecido fiéis à memória e à política de Gao Zu Praticamente baniram a família Lu da capital. A ameaça de rompimento e facciosismo representada pelas famílias das imperatrizes foi muito séria mais tarde, durante o declínio da dinastia dos Han, e voltou à tona, periodicamente, em dinastias seguintes.

Eram esses os perigos internos ao estabelecimento do poder dos Han, mas as ameaças externas não eram menos graves. Vinham, como de hábito, do Norte, pois grande parte da história chinesa é ocupada pela incursão de nômades das estepes e pela defesa e contra-ataque dos chineses. A riqueza acumulada nas terras agrícolas, ocupadas sedentariamente, do Norte da China provou ser, de tempos em tempos uma poderosa tentação para esses pastores relativamente pobres e inquietos. Mobilidade que lhes davam seus vigorosos pequenos cavalos mongólicos permitia lhes desfechar ataques rápidos e predatórios e tomava-os também difíceis de capturar, pois dissolviam-se antes de qualquer movimento retaliativo chinês. Por outro lado, eles dividiam-se com freqüência em feudos tribais e podiam unicamente causar pouco dano em pequenos bandos.

Nessa época, a nação nômade dos Xiong-nu (um povo de origem turca, conhecido no Ocidente como hunos) uniu-se sob o comando de líderes vigorosos e deu início no Shanxi, em 201 a.C., a uma série de ataques, que forçaram os chineses a transladar-se, durante certo tempo, para o Sul da Grande Muralha e levaram os Xiong-nu, em 166, para muito perto da própria capital, Changan. Como Gao lu, nas primeiras fases, estivesse preocupado em consolidar a dinastia, recorreu a um estratagema freqüentemente repetido depois, o da tentativa de subornar os invasores. No caso de Gao lu, o incentivo oferecido- e aceito - foi o casamento de uma princesa chinesa com o filho do "imperador" Xiong-nu, acompanhado de presentes de seda, álcool, arroz e dinheiro de cobre.

Os reinados dos sucessores de Gao lu foram comparativamente curtos, mas, com a ascensão do sexto imperador Han, Wudi, o "Imperador Marcial", que governou durante 54 anos (141-87 a.C.), a China entrou num período de segura expansão militar que estendeu suas fronteiras quase até a sua moderna posição, com a exceção da grande área de território costeiro em frente a Formosa. Han Wudi foi indubitavelmente um dos mais dinâmicos da longa lista de imperadores chineses. Muito ambicioso e capaz, introduziu um novo estilo de controle pessoal do processo governamental. Substituiu os funcionários regulares, na prática, por um corpo de Escritores Palacianos, por quem fazia proclamar uma série de editos e ordens que cobriam cada departamento de assuntos civis e militares. Os Escritores, por sua vez, decidiam, dentre os inúmeros documentos (o governo da China tinha mais burocracia do que outro qualquer do mundo) os que deveriam chegar à mesa do imperador. O poder dos Escritores Palacianos pode ser avaliado pelo fato de que o seu Intendente era, ao mesmo tempo, comandante-em-chefe do exército. Entretanto, permaneciam servos de Wudi, pois este fiscalizava pessoalmente cada departamento. Os perigos óbvios desse sistema altamente centralizado eram, de algum modo, atenuados pelo fato de que Wudi era, em muitos aspectos, um soberano esclarecido. Ele estimulou o renascimento dos estudos confucianos e foi enérgico em recrutar os eruditos mais talentosos para a sua administração. A esse respeito, proclamou um famoso texto:



QUEREMOS HERÓIS! UMA PROCLAMAÇÃO

Trabalhos excepcionais exigem homens excepcionais. Um cavalo indócil ou escoiceador pode vir a tornar-se um animal muito valioso. Um homem que é objeto de ódio de todos pode mais tarde realizar grandes obras. O que acontece com o cavalo intratável passa-se também com o homem arrogante: é apenas uma questão de treinamento. NÓS, desse modo, ordenamos aos vários funcionários distritais que procurem homens de talento brilhante e excepcional, para se transformarem em NOSSOS generais, NOSSOS ministros e NOSSOS emissários aos Estados distantes.

[Giles, p.76]



Mas a recomendação de candidatos qualificados para os cargos, feita pelos funcionários existentes, não foi suficiente. A forma de recrutamento adotada pelos Han representa uma transição entre a primitiva nomeação de funcionários escolhidos nas famílias aristocráticas e um sistema posterior, plenamente desenvolvido, de seleção por exame competitivo, que só foi plenamente implantado na dinastia dos Tang (618-907 d.C.). Na dinastia dos Han, enviava-se de quando em quando um pedido de recomendação às províncias, e os candidatos selecionados eram submetidos a exames escritos na corte. O Grão- Mestre-de-Cerimônias corrigia as provas e submetia os resultados ao imperador, que fazia sua própria seleção. Os estudantes da Universidade Imperial tinham de prestar exames anuais, e as nomeações para os cargos oficiais eram feitas pelo imperador a partir das duas categorias de aspirantes.

A julgar pelas tentativas de Han Wudi no sentido de encontrar homens capazes de preencher os cargos da administração imperial, ele deve ter sido um chefe bem rigoroso. Dos sete Chanceleres que ocuparam o poder entre 121 e 88 a.C., todos, à exceção de um, morreram ou caíram em desgraça durante o seu mandato. Ele era igualmente duro com os generais, que desempenhavam tarefas árduas e freqüentemente ingratas em campanhas nos desertos do Extremo Noroeste. Entretanto, Wudi recebeu respeito e lealdade, pois durante seu longo reinado foram manifestos os altos níveis de moral, patriotismo e autoconfiança. Ele possuía certa erudição e escreveu poesia que reflete ainda um tom universal de sentimento pessoal.



Sobre a morte de Li Furen

Já não se ouve o rumor de sua saia de seda.

No chão de mármore acumula-se a poeira.

Seu quarto vazio está frio e quieto.

Folhas caídas empilham-se nas portas.(...)

De que modo poderei descansar meu coração sofredor?



Apesar do crescente nível cultural do período Han, os líderes políticos estavam dominados pela superstição e pela ilusão da magia, características da época. Um escravo esperto da corte de Wudi anunciou que podia obrigar os Imortais daoístas a aparecerem. Passou a desfrutar uma posição de honra e riqueza, e até a filha do imperador lhe foi dada em casamento. Como suas promessas não se concretizassem, ele partiu “para buscar os mestres“. Entretanto, quando os agentes do imperador descobriram que ele não havia visitado qualquer mestre, caiu em desgraça e foi executado. Um famoso erudito da corte, Dong Fangsuo, teve melhor sorte. Descobriu-se que bebera uma poção do elixir da imortalidade preparado para o imperador. Wudi ficou furioso e condenou-o à morte, mas Dong Fangsuo, com admirável presença de espírito, logrou salvar-se, arquitetando a seguinte resposta:”Se o elixir era verdadeiro, vossa Majestade não pode fazer-me mal; se não era, que mal fiz eu?"

A mais importante realização do reinado de Wudi foi sem dúvida a expansão do poder chinês e dos limites territoriais da China, fatos que merecem um exame mais detido. A expansão deu-se em três direções: para o noroeste, para o nordeste e para o sul. O primeiro imperador Han, Gao Zu, como vimos, teve de enfrentar o problema - que, mesmo naquela época, não era novo - dos nômades das estepes. Os Xiong-nu haviam conseguido uma forte liderança antichinesa ao formarem uma confederação regional de tribos. Havia na corte chinesa uma corrente contrária à solução conciliatória e ao acordo, com base no fato de que as doações feitas aos líderes Xiong-nu aumentavam não só sua riqueza, mas também seu poder de oposição. Por outro lado, a política exterior chinesa de caráter pacífico havia conseguido tirar proveito dos acordos de paz com os nômades, da seguinte maneira: os reféns das tribos que eram enviados à corte chinesa como garantia de bom comportamento não só eram tratados magnificamente, mas também recebiam educação chinesa e até postos nas funções palacianas. Assim, quando voltavam a seus lares, incentivavam amizade com a China e davam oportunidade de os chineses intervirem na política focal, quando fosse o caso.

Seguindo a agressiva política externa de Han Wudi, um de seus mais capazes generais, Zhang Qian, ofereceu-se como voluntário para intervir em assuntos tribais no Noroeste, a fim de tentar assegurar uma aliança com os Yuezhi contra seus tradicionais inimigos, os Xiong-nu. Zhang Qian partiu em 139 a.C., acompanhado apenas de uma guarda de 100 homens, e foi prontamente capturado pelos Xiong-nu. Ficou prisioneiro durante dez anos mas, quando a vigilância de seus captores abrandou, evadiu-se com alguns de seus homens e da mulher Xiong-nu com quem casara enquanto esteve preso. Com extraordinária coragem e fidelidade às ordens, para não mencionar a suprema autoconfiança de que os Han davam sobejas provas, Zhang Qian não rumou para leste, em direção à China, mas para oeste, o objetivo de sua missão original. Após meses de viagem, descobriu que os Yuezhi, um povo de língua indo-européia, abandonaram o vale de Ili para ir fixar-se em Fergana. Conseguiu finalmente alcançá-los na região setentrional do Afeganistão, conhecida como Bactriana. Eles estavam relutantes em voltar para o Leste, onde os aguardavam de novo as provações da guerra das estepes, embora Zhang Qian houvesse passado um ano com eles, num infrutífero esforço para persuadi-los. A seguir, atacaram o Norte da Índia, fundando o Império Kush. Mas a importância, para a China, da audaciosa aventura de Zhang Qian foi que os chineses, pela primeira vez, tomaram conhecimento do mundo ocidental além de suas fronteiras. Ainda que, nesse tempo, fosse mínimo, na região, o poder dos reinos macedônios que sucederam a Alexandre, o Grande (morto em 323 a.C.), o contato com os mundos parto, grego e romano tinha sido mantido. Zhang Qian retomou, pois, à China em 126 a.C. - com sua esposa Xiong-nu e um sobrevivente de seu corpo de guarda - trazendo informações inteiramente novas à corte chinesa. Em 115 a.C. foi outra vez mandado para o Ocidente, visitando Fergana e a Sogdiana. Colheu mais informes sobre essas regiões e descobriu grandes possibilidades de comércio para a China, particularmente em razão da demanda de seda.

Durante esse tempo os generais de Han Wudi e seus sucessores imediatos vinham desenvolvendo uma intensa atividade militar. Havia uma constante movimentação de grandes exércitos. Em 133 a.C. um exército de cerca de 300 mil homens, com cavalaria e carros de combate, atacou os Xiong-nu. Ao todo, nos 80 anos entre 136 e 56 a.C., houve 25 grandes expedições; 14 para o Noroeste e o Oeste, três para o Nordeste (Manchúria e Coréia) e oito para o Sul. As expedições para o Sul eram relativamente mais fáceis, lhas as que visavam ao Noroeste árido, com rotas de suprimento longas e precárias, e contra inimigos determinados e experientes, ocasionaram enormes perdas de vida. Vinte comandos foram estabelecidos entre 130 e 95 a. C. em áreas fronteiriças. Guarnições eram instaladas para defender as rotas militares, e só na época de Wudi foram enviados 2 milhões de chineses com o objetivo de colonizar o Noroeste. Mesmo os vastos recursos da China, era claro, estavam exaurindo-se. Mas, em 119 a.C., o poder Xiong-nu já não era tão grande e, em 52 a.C., o ramo meridional dessa nação submetia-se completamente à China, enquanto o ramo setentrional deixava de ser uma ameaça tão grande.

Duas das numerosas expedições ao Noroeste merecem menção especial. Em 102 a.C., um general, Li Guangii, conseguiu trazer de Fergana alguns exemplares de uma raça de cavalos altos, muito apreciada nessa região, juntamente com 3 mil outros de raça inferior. Os cavalos de Fergana tomaram-se imediatamente um símbolo de status e continuaram a sê-Io nas dinastias subseqüentes. E três anos mais tarde, um outro general, Li Ling, com uma infantaria de 5 mil chineses, derrotou uma cavalaria de 30 mil homens, com uma nova tática. Em sua linha de frente colocou a infantaria, armada de escudos e piques; dispôs, na retaguarda, arqueiros com poderosas bestas, algumas de arremesso múltiplo, que lançavam várias flechas de uma só vez. Contra essa formação, eram inúteis os ataques da cavalaria. Foi o contrário do que ocorreu durante a vitória dos partos sobre os romanos em Carras em 54 a.C., quando arqueiros montados derrotaram os romanos, a melhor infantaria da época. Mas Li Ling não recebeu reforços e teve de render-se, quando seu suprimento de dardos e flechas se esgotou. Ele caiu em desgraça diante do tirânico Wudi e, quando Sima Qian, o famoso historiador, ousou intervir em favor do general, Wudi condenou o erudito ao bárbaro castigo da castração.

No Nordeste, o objetivo militar dos Han foi o flanco exterior dos Xiong-nu, cuja liderança havia sido reconhecida pelos povos da Mongólia oriental e da Manchúria. Um comando chinês foi estabelecido na Manchúria em 128 a.C. O Norte e o Centro da Coréia foram conquistados em 106 e criaram-se vários comandos; desses, Lak Lang foi o mais importante. Os vestígios arqueológicos desse período do domínio chinês na Coréia atestam um notável grau de refinamento e luxo. Zhang Qian havia descoberto, na Bactriana, que os indianos possuíam um tipo de seda chinesa, proveniente do Sichuan, no Sudoeste da China. Isso levou Wudi a pensar na existência de um caminho ligando Sichuan à Índia, aberto por motivos comerciais. Na verdade, o terreno da rota direta era impraticável, e a seda provavelmente chegava à Índia através do Noroeste da China e da Rota da Seda. Mas a idéia de uma ligação direta com a Índia foi, em parte, a origem dos esforços de Wudi para explorar a China meridional e submetê-Ia ao seu domínio. A geografia do Sui era pouco conhecida nos primeiros tempos da dinastia dos Han. Quando se serviu a Um zeloso funcionário da capital em visita a Cantão, amoras como sobremesa, ele percebeu que aquela fruta não era um produto da região. Ele associou-a a um tipo de amora cultivada no Sichuan, e graças a esse fato o governo Han descobriu uma rota já em operação, que ia de oeste para leste e era utilizada pelos povos tribais que se serviam do sistema do rio do Ocidente. Se se descobrisse uma rota do Sichuan à lndia, o comércio poderia fluir diretamente do oceano, em Cantão, até as regiões ocidentais. De qualquer modo, uma campanha de vulto foi organizada em 111 a.C. e a região sul da China, chamada Nan Yue, foi conquistada por seis exércitos; alguns contingentes vieram pelo mar, outros, diretamente do sul, e outros mais, pela nova rota Sichuan-rio Ocidental. Cantão foi tomada, bem como as províncias de Guang-dong, Guangxi e o Tonquim, na lndochina, que passaram a fazer parte do império.

Durante a dinastia dos Han, o exército tornou-se organizado e desenvolveu-se a um grau até então desconhecido. Havia uma guarnição postada na capital, Changan. Forças expedicionárias eram enviadas em campanhas particulares, de acordo com as necessidades. E mantinha-se uma permanente defesa na Grande Muralha e em outros postos fronteiriços. A eficiência niilitar chegou a um alto nível na Grande Muralha. No período dos Han, essa famosa construção consistia numa série de torres ou postos de comando, em tijolo e a intervalos regulares, usualmente não muito distanciados uns dos outros para poderem ser mutuamente observados, e ligados por entrincheiramentos com algumas portas onde sentinelas fiscalizavam meticulosamente passaportes e todo o trânsito que entrava ou saía, para impedir o contrabando. (A muralha posterior, da dinastia Ming, com revestimento de pedra e reparos coroados de ameias, era muito mais complexa.) Os postos de observação trocavam entre si sinais com fogo e fumaça, e bandeiras vermelhas e azuis, a intervalos fixados com precisão ou em casos de emergência. Havia um serviço regular de correio, e a contabilidade era mantida em dia, inclusive para os materiais armazenados. Empregavam-se cães policiais adestrados. Os soldados fabricavam flechas e encarregavam-se da conservação da muralha. No período Han, a muralha estendia-se até à fronteira em Dunhuang, onde a Estrada da Seda bifurcava para cruzar o deserto de Gobi de oásis em oásis, juntando-se de novo em Kagshar para cobrir a enorme distância na direção oeste. O problema do abastecimento ao longo das rotas militares foi parcialmente resolvido por fazendas mantidas pelo governo, nas quais se estabeleceram colônias de veteranos, um método muito semelhante ao usado pelos romanos. Recrutas e ex-detentos eram usados para o impopular serviço de guarnecer a muralha. Mas, no final do período dos Han, a guarnição era formada principalmente por veteranos e mercenários. As forças mercenárias eram, em sua maioria, pagas com fundos conseguidos através de um imposto que substituía o serviço militar compulsório. A política expansionista da dinastia dos Han anteriores e as grandes obras públicas por eles empreendidas tornaram-se muito onerosas para os cofres do governo. Han Wudi procurou resolver esse problema com uma série de medidas fiscais. Restabeleceu os monopólios estatais do ferro, do sal e da cunhagem de cobre, e introduziu um novo monopólio, o das bebidas alcoólicas. Colocou em operação um sistema de "nivelamento", no qual o governo comprava grãos nos períodos de abundância, e estocava-os para revendê-Ios em épocas ou localidades de escassez. O principal objetivo era obter um lucro para o Estado, embora a medida também se destinasse a assistir as classes populares, pois ajudava a estabilizar os preços. Wudi passou a cobrar taxas especiais de navios e carroças, vendeu cargos do governo aos ricos e exigiu "doações" de pessoas proeminentes. Emitiu "certificados em pele de gamo" que certos nobres eram compelidos a adquirir ao preço de 400 mil moedas de cobre. Também procedeu a uma desvalorização da moeda, assim criando, até certo ponto, um precedente perigoso para os seus sucessores no trono.

Esses estratagemas fiscais obtiveram moderado êxito por algum tempo mas o mais pertinaz de todos os problemas provou ser a propriedade da terra e concomitantes impostos. A população crescia, o que significava menos terra para cada camponês. Ao mesmo tempo, as grandes famílias terratenentes estavam aumentando a extensão de suas propriedades e estas, com freqüência, estavam isentas de impostos. Assim, a base tributária diminuía, como no Japão do período Heian, em data posterior, e os camponeses remanescentes estavam suportando um ônus desproporcional. Foram realizados constantes esforços legislativos para corrigir essa situação, limitando a área das propriedades dos grandes senhores e restabelecendo assim a proteção do governo e, por conseguinte, o controle do campesinato, que tinha sido a grande força da dinastia dos Han em seus primórdios. Mas esses esforços foram, em grande parte, infrutíferos, e as propriedades privadas continuaram crescendo. Apesar do poder centralizado da dinastia, os governantes não pareciam ser mais capazes de sustar essa tendência do que os irmãos Gracos e seus sucessores em Roma, quando quiseram impedir a usurpação das terras do Estado por senadores e ricos cavaleiros. As circunstâncias eram diferentes mas as razões as mesmas; em ambos os casos, um número comparativamente pequeno de latifundiários solidamente instalados, os funcionários da corte na China e os senadores em Roma, controlavam o funcionamento cotidiano do governo.

A interação política entre o imperador e os funcionários do período dos Han constitui um paradigma para grande parte da história subseqüente da China, quando o padrão se repetiu em várias formas, pois um sistema autocrático não elimina a atividade humana da política, mas altera tão-somente sua manifestação. A maneira autocrática como Wudi conduzia os negócios do Estado era quando muito, benéfica enquanto um imperador fosse tão forte e capaz quanto ele. Mas, depois de sua morte em 87 a.C., um general, He Guang, estabeleceu praticamente uma ditadura sob o sucessor de Wudi e obteve para seus próprios familiares a maioria dos principais cargos. As facções que se formaram em torno dos favoritos do palácio, eunucos poderosos e, especialmente, dos parentes masculinos das imperatrizes, foram fatais para um governo bem organizado. Wudi tinha chegado a uma solução simples quanto ao problema dos parentes, pois quando escolheu o seu herdeiro legítimo ordenou a execução da imperatriz-mãe; mas os seus sucessores não puseram em prática essa cruel salvaguarda. Graças à combinação dos fatores mencionados acima, o poderio da Casa dos Han declinou rapidamente e, no ano 9 d.C., um membro da poderosa família Wang, Wang Mang,já no exercício de um alto cargo e sobrinho de uma imperatriz, usurpou o trono e tentou fundar uma nova dinastia.

Wang Mang (9-23 d.C.), um fervoroso confucionista, restabeleceu o que considerava serem os títulos e as instituições da dinastia dos Zhou, mas suas reformas econômicas foram radicais. Reinstituiu o sistema de "equalização", introduziu créditos agrícolas e manipulou o valor da moeda. Propôs uma solução extrema para o problema da terra, "nacionalizando-a" e redistribuindo-a aos camponeses. Os escravos particulares, menos de 1% da população, seriam da mesma forma propriedade do governo. Mas essa tentativa sofreu a inevitável' oposição dos proprietários de terra. Não se encontrou, por outro lado, nenhum meio eficaz de redistribuir a terra confiscada. Irrompeu uma revolta camponesa em 17 d.C., no Shandong, sob a liderança de uma mulher vigorosa conhecida como Mãe Lu. Quando a falta de cuidado com os diques e pesadas chuvas geraram uma importante mudança no curso inferior do rio Amarelo, provocando enchentes desastrosas, a revolta espalhou-se às planícies centrais. Os rebeldes, com os rostos pintados para parecerem demônios e adotando símbolos religiosos, tomaram-se conhecidos como "Sobrancelhas Vermelhas" e abriram um precedente, muitas vezes imitado em dinastias posteriores, de um movimento genuinamente popular surgido em tempos de crise, sob a égide de uma religião. A combinação das classes mais altas e das mais baixas na oposição ao novo regime mostrou ser demasiado forte para Wang Mang, que acabou sendo derrotado e morto em 23 d.C. Sua reputação foi prejudicada pelo simples fato de não ter conseguido fundar uma nova dinastia, o que levou historiadores ortodoxos a tachá-lo de usurpador.


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