Cultura no período Han

por William Morton em China - História e Cultura (1986), Editora Zahar; Rio de Janeiro


A longa duração, na escala do tempo, da história chinesa e a seqüência aparentemente ininterrupta das dinastias criaram a falsa impressão de um fluxo contínuo. Na verdade, a revolução produzida pelas dinastias Qin e Han foi tão grande que a era feudal de Confúcio e dos Estados Rivais não passava de remota lembrança para os eruditos Han, separados por um grande abismo de seus próprios tempos. Eles atribuíram a unidade de seu próprio império ao governo dos primeiros Zhou e as dimensões do território chinês de seu tempo aos domínios dos Zhou que estes, de fato, nunca possuíram. Isso estabeleceu um padrão distorcido para a interpretação da história da China, o qual persistiu até os tempos modernos e só agora está sendo gradualmente corrigido.

Depois do formalismo legalista dos Qin, os imperadores Han restauraram o confucionismo, embora retendo muitas características autocráticas úteis do lega- lismo que se ajustavam ao seu governo autocrático. Nomearam especialistas nos Cinco Clássicos, agora considerados por eles obras confucianas, e fizeram de uma típica virtude confuciana, a devoção filial, um dos critérios para a nomeação de funcionários. Os estudos confucianos clássicos receberam cada vez maior atenção e atingiram o auge na dinastia dos Han posteriores, quando, em 175 d.C., o texto dos clássicos foi oficialmente gravado numa estela na capital.

No entanto, o Confucionismo assim restaurado não era absolutamente idêntico à doutrina original. O estilo conciso e, portanto, misterioso dos textos originais e a grande veneração com que eram encarados encorajaram os eruditos a tentarem desvendar os sentidos ocultos que pressentiam haver neles. Os princípios pelos quais Dong Zhongshu (?179-?104 a.C.) e outros interpretaram os antigos textos derivavam da primitiva filosofia naturalística, das forças alternadas e complementares, o yin e o yang, o claro e o escuro, a fêmea e o macho, que mantêm o equilíbrio do cosmo e que tinham sido um modelo de pensamento para os chineses antes da formação de quaisquer escolas filosóficas.

As mudanças e a alternância na natureza foram transformadas em sucessivas vitórias circulares dos Cinco Elementos: terra, madeira, metal, fogo e água. Assim, a terra foi removida pela madeira; a madeira, cortada pelo metal; o metal, fundido pelo fogo; o fogo, apagado pela água e a água, suplantada pela massa de terra, a fim de que o ciclo recomeçasse. Os intérpretes Han, outra vez baseando-se em especulação anterior, estenderam a seqüência por correspondências com os pontos cardeais, as cores, os caracteres cíclicos usados para períodos no calendário e até as dinastias. Assim, o fogo (vermelho) era o signo dos Zhou, derrotado pela água (preto), o signo dos Qin, e a água, por sua vez, vencida pela terra (amarelo), símbolo dos Han. As correspondências e as seqüências ligavam-se a outro antigo símbolo, o dos oito trigramas, um modelo de linhas unas e divididas. (Os oito trigramas foram mais tarde multiplicados para 64 hexagramas, ou séries de seis linhas.) Embora essas especulações possam parecer estranhas e muito forçadas para os ocidentais, elas não afetam os chineses do mesmo modo, pois estes tentam explicar o mundo em termos de símbolos provenientes de um passado venerável, que lhes parece possuir validade universal. Dong Zhongshu procurou colocar os princípios confucianos num arcabouço cósmico e relacioná-los com as obras do universo, tal como o via. Em particular. enfatizou a idéia de que a autoridade do imperador provinha do Céu. Desse modo, deu solidez teórica à filosofia de Estado confuciana, que perdurou durante muitos séculos depois.

Os chineses jamais pensaram que, para manter uma crença, é necessário excluir outras, e o período Han toi marcado por grande ecletismo. Embora o Confucionismo gozasse de novo favor e apoio imperial, o Daoísmo também era um elemento poderoso no pensamento da época. Havia influenciado o imperador Wudi, como vimos. Impressionara o pai do historiador Sima Qian e foi a filosofia preferida pela imperatriz de Wendi e pelo imperador Huidi. Uma das indubitáveis atrações do Daoísmo era sua alegação de que se podia preservar o corpo e prolongar a vida, com a adoção de técnicas diferentes, como a alquimia, exercícios físicos, dieta, práticas sexuais e controle respiratório. Os segredos da vida eterna e a maneira de fabricar ouro eram conhecidos dos Felizes Imortais, que moravam na Ilha dos Abençoados, no mar oriental, e poderiam, talvez, ser revelados a iniciados! especiais. Tudo o que vivia nessas ilhas era branco, e os palácios e os templos eram; de prata e ouro. Idéias como essas eram encontradas num livro da época dos Han, o Huainanzi, que, ao explicar os conceitos mais puramente filosóficos do Laozi e do Zhuangzi de uma forma sobrenatural, contribuiu para transformar a filosofia daoísta na religião daoísta. A ascensão desta religião na época ganhou novo impulso com os movimentos populares como o dos Turbantes Amarelos e o dos Cinco Celamins de Arroz, pois neles se consubstanciava uma organização religiosa que acreditava ardentemente numa sociedade utópica vindoura, a par de um culto popular que enfatizava os ensinamentos morais.

A questão de critica e interpretação de textos ocupou também os eruditos Han. As sutis diferenças entre as escolhas do Antigo e do Novo Texto poderiam ser passadas por alto numa breve exposição como esta, se não fosse o fato de essas diferenças terem extravasado os limites de uma questão de exegese textual para se perpetuarem sob várias formas até ao século XIX. Um descendente de Confúcio afirmou haver encontrado uma velha cópia do Shujing. o Livro dos Documentos. nas paredes da casa do sábio. Este e outros materiais descobertos estavam redigidos em escrita anterior à dinastia dos Qin. A maioria dos Clássicos Confucianos tão intensamente estudados durante os Han, tinha, por outro lado, sido transmitida, oralmente e registrada na nova escrita. Como já dissemos, as discordâncias assim surgidas entre escolas foram muito além da questão de leitura correta e entraram no domínio da interpretação, realçando os entusiastas do Novo Texto significados ocultos e supostas ligações com a cosmologia e a adivinhação, enquanto os defensores do Velho Texto destacavam os elementos morais e ritualísticos na tradição original e adotavam uma atitude mais racionalista do que mística. Felizmente, todos os eruditos chineses, desde essa época, foram cuidadosos em preservar os textos sem alteração e em separado dos comentários interpretativos.

Embora seja evidente que os pensadores Han estivessem abrindo um novo: campo em seu enfoque sobre o sentido do universo e a vida humana nele contida, não foi pela filosofia, e sim pela historiografia que sua época se notabilizou. Sima Oian (c. 145-85 a.C.), Que viveu no reinado do grande imperador Han Wudi, partiu dos fundamentos estabelecidos por seu pai, Sima Tan, e continuou sua obra, O Registros Históricos, Shi Ji. desde os primeiros tempos até sua própria época. Ela pretendia ser uma história universal, mas, na verdade, trata-se de uma história da China, legitimamente considerada pelo autor como o centro do mundo que conhecia. Não é demais realçar a novidade e o alcance da obra; pois tudo o que fora feito antes não passava de anais, e Sima Qian começou a composição da história. Ele organiza, pensa, faz aflorar o sentido e a significação dos fatos. Com extraordinário poder de síntese, considera a essência da história da China do ponto de vista da política e da moral. Nesse estágio primitivo da literatura histórica do mundo, três características que a moderna historiografia considera como importantes já aparecem na obra de Sima Qian: uma precisão quanto às datas, herdada de analistas anteriores; uma exata reprodução cuidadosa dos textos exatos de documentos importantes e uma utilização habilidosa do material oral das histórias, anedotas, registros de conversação diplomática e coisas do gênero. Sua prosa é concisa e livre de artifícios literários num grau que não é habitual na prosa chinesa, uma vez que seriam pouco próprios à narrativa histórica. Ele cobre um período extenso, dando um relato de cada reinado de imperador (com exceção do reinado de Wudi, um registro que seria provavelmente muito crítico para ser publicado) na primeira seção, os Anais de Base. Na segunda, escreve sobre música, calendário, astrologia, rios e canais, economia e outros tópicos; na terceira, apresenta biografias de personagens maiores e menores da história. Sima Qian, que viajara muito pela China e tivera acesso à Biblioteca Imperial e aos arquivos, explicou alguns de seus motivos e propósitos numa carta a um amigo, Ren Shaoqing:

Aqueles que fossem cegos, como Zuo Qiu, ou aleijados como Sunzi, que não tinha pés, não poderiam nunca receber cargos; por isso se retiravam para escrever livros a fim de expor seus pensamentos e sua indignação, e transmitir seus escritos teóricos à posteridade, para que esta soubesse quem eles eram. Eu também me atrevi a não ser modesto, mas dediquei-me a meus escritos inúteis. Reuni e compilei as velhas tradições do mundo, que estavam dispersas e perdidas. Examinei os feitos e os acontecimentos do passado e investiguei as razões que havia por trás do sucesso e do fracasso, da ascensão e do declínio, em 130 capítulos. Desejei examinar tudo o que diz respeito ao céu e ao homem, penetrar nas mudanças do passado e do presente, completando tudo como o trabalho de uma família. Mas antes de terminar de rascunhar o manuscrito, aconteceu-me esta catástrofe [a castração]. Foi porque lamentei não tê-lo terminado que me submeti à extrema penalidade sem rancor. Quando houver acabado realmente este trabalho, irei depositá-lo na Montanha Famosa. Se ele puder chegar às mãos de homens que o apreciem e penetrar em vilas e grandes cidades, então, mesmo que eu sofra mil mutilações, que arrependimento teria? Tais assuntos podem ser discutidos com um sábio, mas é difícil explicá-los ao vulgo.

[Shi Ji, por Burton Watson]

A obra de Sima Qian estabeleceu um padrão para todas as obras históricas chinesas subseqüentes. Foi seguida pelo Han Shu, ou História dos Han (Anteriores), de autoria da família Ban. Iniciada por Ban Biao, a obra foi continuada por seu filho, Ban Gu, que a escreveu em sua, maior parte, e concluída por sua filha, Ban Zhao, uma das mais famosas entre as raras escritoras chinesas. Um outro descendente dessa família admirável foi Ban Chao, protetor-geral das Regiões Ocidentais. Essa história, por sua vez, tornou-se o modelo das subseqüentes histórias dinásticas da China, compondo cada dinastia uma crônica oficial da precedente.

Em outro ramo da literatura Han, o tipo mais característico é o lu. que tem sido classificado como poesia ou, algumas vezes. como prosa ritmada, uma vez que o metro e o comprimento da linha são irregulares. O tema desses poemas descritivos, muito coloridos, de estilo primoroso e apresentados na forma favorita dos chineses de frases balanceadas e paralelas, gira em torno da corte: palácios, capitais, paisagens queridas, a caça e os divertimentos palacianos. O gosto popular esteve também representado e penetrou nos altos círculos da sociedade Han sob a forma de canções de camponeses, danças e instrumentos musicais, alguns, vindos da Ásia central no início do extenso contato com os nômades, contatos que tanto eram pacíficos quanto bélicos.

O estilo folclórico foi habilmente utilizado pelo poeta Mei Sheng, cujo metro de cinco pés serviu de modelo para grande parte da poesia posterior. Este poema, cheio de amor saudoso, tem uma certa qualidade nova e direta:



O morno sol da primavera;

As orquídeas em pleno florescimento.

Quando o inverno vier cobrir-nos,

Suas flores ainda ali estarão.

Da primavera ao inverno,

Cada dia, cada hora,

Desponta em mim a velha dor,

Arde-me a chaga do coração.

Parece que meu amor está

Sobre as nuvens da tenda celeste,

E todo um vasto universo

Abre-se entre nós.

Vagueio ao luar

A sombra dos ciprestes,

E penso, suspirando,

Naquela que nunca esquecerei;

Não creio que homem algum vivo

Possa entender o tremor do meu coração.

Dentro, avolumam-se os pensamentos...

Começo a perder a razão.



Como prova do intercâmbio com os povos da distante Ásia central, o poema seguinte (escrito por uma princesa chinesa, chamada Xichun, a quem atendendo a razões de Estado, o imperador Wudi obrigou a casar com um chefe dos Wusun, no vale do Ili) revela uma desesperada saudade de casa:



Minha família deu-me em casamento.

E - ai de mim! - mandou-me para muito longe,

Para a estranha terra dos Wusun;

Sou agora, para minha desgraça, a esposa do rei.

Vivo numa tenda; as paredes de uma casa

Troquei-as por - feltro.

Só de carne me alimento.

E, para acompanhar a refeição, dão-me leite de égua fermentado.

Oh! Como o meu coração sofre desde que me mandaram para cá;

Só consigo pensar em casa, sempre, sempre.

Se eu pudesse ser uma grua amarela,

Voaria célere para o meu perdido reino!



Não há dúvida de que a época dos Hans foi, sob vários aspectos, uma fase de considerável requinte. A tecnologia e a criatividade não foram negligenciadas. Plínio, o Velho, escreveu, em 39 d. C., a respeito da alta qualidade do ferro forjado pelos Seres, os chineses. O aço era produzido desde o século II a.C. O moinho d'água foi mencionado no tempo de Wang Mang, no início da era cristã. Os Han tinham um carrinho de mão bem projetado e capaz de transportar 150 kg. Eles tinham clepsidras, relógios de sol e instrumentos astronômicos. Em 124 construiu-se uma esfera armilar, à qual logo depois se acrescentou um mecanismo que marcava o dia e era controlado por uma clepsidra. Chegaram até nós dois livros de matemática da época dos Han, que contêm exemplos de cálculos agrimensórios, tributários e arquitetônicos. O interesse da época por presságios e augúrios teve bons efeitos incidentais sobre o campo científico. O primeiro sismógrafo capaz de indicar a direção de um tremor foi construído em 132, pois os movimentos da terra tinham especial importância como sinais de desordens da natureza em tempos ruins. Desde 28 a.C. mantiveram-se registros sistemáticos das manchas solares, bem como de outras anomalias da natureza, os quais foram de grande utilidade para os cientistas modernos.